“Depois da tempestade…vem a inundação!”
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“Depois da tempestade…vem a inundação!”

arielpalacios

05 de maio de 2009 | 05h00

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Céticos como os russos, os argentinos sempre esperam a inundação depois da tempestade – Russos em momento de relax (quadro de Ilya Yefimovich Repin, 1893)

Os argentinos podem considerar-se PhDs em crises econômicas, superando amplamente os habitantes de qualquer outra economia na América Latina. Desde 1975, eles tiveram uma grave crise a exatamente a cada sete anos. Hiper inflação, calotes da dívida pública, recessões profundas, elevado desemprego, corridas bancárias, ondas de falências de bancos, moedas paralelas, saques a comércios, confiscos bancários, empobrecimento da classe média, greves gerais a granel, privatizações suspeitas e reestatizações controvertidas integraram um coquetel explosivo que foi condimentado com momentos de extrema euforia, baixo desemprego e deflação.

Em algumas épocas, as políticas econômicas implementadas pelos governos de plantão fizeram da Argentina a “garota mimada” dos mercados. Em outras ocasiões, o país tornou-se “pária” internacional.

Em quase todo o mundo ocidental é usado o provérbio “depois da tempestade vem a bonança”. Mas, na cética Rússia usa-se o “depois da tempestade…vem a inundação”. No meio do peculiar cenário econômico citado acima, os argentinos – tão céticos quanto os russos, ou até mais – praticam similar filosofia.

Nos últimos 34 anos, período coalhado por cinco grandes crises (iniciadas nos anos 1975, 1982, 1989, 1995, 2001), os argentinos recorreram ao dólar, refúgio preferido dos habitantes deste país para épocas de turbulências.

dolares
Efígie de George teve sempre efeito calmante em boa parte da população argentina, assolada por políticas econômicas erráticas dentro do país e crises externas

EM DÓLARES. E FORA DO PAÍS – Nesta nova crise, mais uma vez, a moeda americana é a preferida para escapar das turbulências. O costume é poupar em dólares. E, de preferência, guardar essas notas cinzento-esverdeadas nos seguintes lugares:

– Caixas de segurança nos bancos

– Debaixo do colchão, em potes de conservas (sem as conservas, obviamente), dentro de livros…nos mais variados esconderijos dentro das residências.

– Em bancos no Uruguai (neste caso, as cidades de Colonia, a uma hora em ferry boat de Buenos Aires, ou Montevidéu, a três horas de ferry ou 25 minutos em avião, são os costumeiros lugares procurados pelos argentinos que levam suas economias aos bancos uruguaios)

A preocupação permanente pelo surgimento “quase garantido” de que uma nova crise está sempre no horizonte transformou a Argentina no país que ocupa a pole position no ranking mundial – fora os Estados Unidos – de dólares nas mãos da população.

Os argentinos possuem em média US$ 1.300 per capita, volume muito superior aos US$ 550 em média que os russos possuem.

Grande parte dos argentinos considera que o dólar é o refúgio seguro. Mais seguro ainda se os dólares estiverem fora do país, indicam.
Uma alternativa é ter os dólares dentro do país, mas fora dos “traiçoeiros” bancos ou das “garras” do governo.

Entre abril de 2007 e março de 2009 “fugiram” US$ 37,644 bilhões, segundo os dados do Banco Central.

Entre abril e dezembro de 2007, saíram do país US$ 8,87 bilhões.

Ao longo de todo o ano 2008 o país sofreu uma fuga de divisas de US$ 23,09 bilhões, segundo dados do Banco Central (esta fuga superou em 23% a saída de dinheiro ocorrida na época do colapso financeiro de 2001-2002, quando partiram do país US$ 18,7 bilhões).

Durante o primeiro trimestre de 2009, saíram do país US$ 5,684 bilhões

A instabilidade política que assola o governo da presidente Cristina Kirchner desde o ano passado alimenta a fuga constante de divisas. A tendência, afirmam os analistas, é que o cenário ficará mais complicado, já que no dia 28 de junho o país terá decisivas eleições parlamentares.
Os analistas destacam que, se o governo vencer, a situação ficará complicada.
E, se a Oposição for vitoriosa, o cenário também será de complicações.
Por isso, será válido o provérbio russo supracitado.

celestino
Ministro Celestino Rodríguez, autor de “El Rodrigazo”, pacote econômico que em 1975 fez os argentinos começarem a pensar que depois da tempestade não vinha a bonança, mas sim, a inundação.

pushkin
Não é a tal inundação russo-argentina, mas parece, não? Mas trata-se do poeta sãopetersburguense Aleksandr Pushkin(1799-1837), que olha para as turbulentas águas. O quadro é o Прощание Пушкина с морем. Ou, como costumamos traduzir lá em Londrina, “O adeus de Pushkin ao mar”.
É apenas uma desculpa para falar de um de meus pintores preferidos, o russo Ilya Yefimovich Repin, que fez esta obra em 1877.

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