Dez anos sem o homem que sonhou o holograma – O gentleman Adolfo Bioy Casares
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Dez anos sem o homem que sonhou o holograma – O gentleman Adolfo Bioy Casares

arielpalacios

12 de março de 2009 | 08h00

Bcasares

No começo da década, uma pesquisa indicou que o homem mais sedutor da Argentina não era um modelo, ator ou um esportista. Era um escritor: Adolfo Bioy Casares. Don Juan incorrigível, não somente seduziu dezenas de mulheres da aristocracia e intelectualidade portenha, mas também soube conquistar milhões de leitores em todo o mundo com obras como “Diário da Guerra do Porco” e “O Sonho dos Heróis”. Mas, sua obra mais famosa foi “A Invenção de Morel”, na qual o visionário Bioy Casares – no distante 1940 – imaginou a criação do holograma (o livro teria inspirado o videogame Myst nos anos 90…e na série “Lost”, no quarto episódio da quarta temporada, o personagem Sawyer aparece lendo ‘A Invenção de Morel’).

Há 10 anos, no dia 9 de março de 1999, Bioy Casares – Prêmio Cervantes de 1990 – faleceu em Buenos Aires. No dia seguinte, à tarde, foi realizado seu funeral no cemitério da Recoleta (o qual vejo da janela de minha casa). Naquela manhã, o jornal “Página 12” estampou a manchete: “Morreu o último gentleman da literatura”.

Além dos contos que escreveu sozinho, ele também formou uma brilhante e profícua parceria com outro monstro sagrado da literatura argentina, seu amigo Jorge Luis Borges. O dueto começou escrevendo a quatro mãos um texto de um folheto publicitário sobre iogurtes para a empresa da família de Bioy, a poderosa “La Martona”, de laticínios. Anos depois, a dupla escreveu o hilariante “Seis Problemas para Don Isidro Parodi” e diversos outros livros.

Entre 1995 e 1998 o entrevistei três vezes. Esta é a entrevista integral com o escritor que fiz para o Estadão em março do ano de 1998.

Estado – O sr. acredita em Deus?

B.C. – Não.

Estado – Há muito tempo?

B.C. – Desde criança, e graças a um jogo de futebol, com meu amigo Enrique Drago Mitre, que me esclareceu muito sobre o céu e o inferno. Foi assim: quando fiz a primeira comunhão, me confessei diante de um padre que chegou a bispo…foram os dias mais infelizes de minha vida. Se mentir era um pecado imperdoável, eu que mentia, pecava. Temia ir ao inferno, algo que não me agradava. Jogando bola no fundo da casa de meus pais, Drago me disse “acho que você não teria que acreditar nas besteiras dos padres”. Aí percebi que eram besteiras mesmo, não acreditei mais nelas e fui feliz.

Estado – Suas relações com a Igreja foram conturbadas?

B.C. – Quando era criança, um padre me perguntou se havia fornicado. Eu disse que sim, por pensar que “fornicar” era sinônimo de praguejar. O padre me perguntou “mas com homens ou com mulheres?”. E como eu nunca havia praguejado diante de mulheres, respondeu “forniquei com homens, claro!”. Com esse padre terei fama de homossexual….

Estado – Em “A Invenção de Morel”, de 1940, o sr. fala de um invento que seria o equivalente a um projetor de hologramas. Era uma insólita e detalhada descrição de uma ilha habitada por pessoas-hologramas. A ciência sempre atraiu? O que acha da clonagem?

B.C. – Em “Máscaras Venezianas”, publicado nos anos 60, falo sobre os clones. É a história de um homem que se após despedir-se de uma mulher, encontra-se com o clone dela. Ao contrário da maioria, não estou nem espantado nem enfurecido com os experimentos na área. Queria saber porque isso incomoda tantas pessoas. Só estariam nascendo filhos sem a cópula, mais nada. E pelo lado da similitude que a clonação provoca, os irmãos gêmeos também são parecidos…Acho que o repúdio é porque as pessoas têm medo do desconhecido.

Estado – Quais são seus maiores prazeres físicos na vida?

B.C. – O assunto da gastronomia, para mim, é impressionante. O que mais gosto no mundo, em ordem, é isto: primeiro a água, depois o pão, e depois as mulheres. Gosto de tudo isso, e muito!!!

Estado – Uma vez o sr. disse que se considerava um ex-homem, porque já não era sexualmente ativo.

B.C. – Já me acostumei a isso…(ri). Mas posso dizer que tenho sido muito feliz quando não estava assim, como agora. E também sou muito feliz agora. Não me faltam mulheres. Me viro.

Estado – O sr. esteve sempre rodeado de mulheres, e inclusive, quando está preparando um novo livro, só pede a opinião do belo sexo…

B.C. – Me sinto mais confortável com uma mulher do que com um homem. Mas não posso esquecer que com Borges me entendia muito bem.

Estado – Como é sua relação com Ernesto Sábato?

B.C. – Nos conhecemos há muitos anos…por isso não acho que pensemos mal um do outro. Mas há muito que nós não vemos.

Estado – Muitos especialistas consideram que o sr. representa a consciência criativa da literatura argentina e Sábato, a consciência crítica.

B.C. – Fico com a consciência criativa…

Estado – Ao contrário de seu amigo Jorge Luis Borges, com quem o sr. é tantas vezes comparado, o sr. trafegou pouco pelo âmbito da poesia. Porquê?

B.C. – Dei alguns passos nisso. Em algum livro meu há algo de poesia. Sinto que a poesia é a forma mais intensa de exercer a literatura. Mas me vêm à mente histórias, e tenho o compromisso de escrever a história que me veio à mente.

Estado – Mais uma vez, comparando-o a Borges, que nunca escreveu uma novela e sempre dedicou-se a contos, o sr. não foi muito profícuo nos relatos breves…

B.C. – Meu editor francês tem repulsão à publicação de contos. Eu não o entendo. Os editores parecem que não gostam de contos. Parece um gênero maldito. Tenho uma amiga que abomina tanto o gênero que ao comprar um livro, abre para ver se tem um índice. Se houver, ela não compra.

Estado – Costuma ler a si próprio, após a publicação?

B.C. – Não muito. Escrevo porque gosto de escrever e uma vez que terminei o livro que permitiu que essa história possa ser lida, já estou interessado no tema de outro livro.

Estado – Como são seus sonhos, quando dorme?

B.C. – São sonhos com histórias bastante estruturadas, e lembro delas bem, em geral. Poderia contá-los, mas em geral não há nada mais aborrecido do que os sonhos dos outros. Mas tenho sonhos interessantes, também. E esses, os sonho com felicidade. Além disso, eu dirijo um pouco meus sonhos. Por exemplo, quando vejo duas portas, e pressinto que por uma vou sofrer, vou pela outra. Utilizei alguns sonhos para escrever livros espantosos, antes de “A Invenção de Morel”. Não sonho com o Nobel, mas se o ganhar, vou estar contentíssimo…(ri)

Estado – O sr. gosta de prêmios?

B.C. – Os adoro! Por mais que se pense no contrário, eles estimulam a gente. Graças ao Prêmio Cervantes, descobri que as pessoas não são tão invejosas como dizem, mas que elas têm o prazer de compartilhar a alegria comigo. Nas ruas de Madrid, desconhecidos me paravam para me cumprimentar ou me abraçar. Eu era um sul-americano qualquer, mas tinha ganho o Cervantes.

Estado – Falta pouco mais de um ano para o novo milênio. O sr. vai comemorar a entrada no ano 2000 de forma especial? (Bioy Casares morreu nove meses antes daquele Reveillon)

B.C. – Não sei porque teria que ser diferente a qualquer outro dia. E por isso, não vejo o porquê para uma conduta especial. Parece mais uma desculpa para uma grande festa. Mas também me parece uma espécie de alegria falsa. Nem sequer serve para fazer um grande balanço dos eventos da época.

Bioy

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