Dois irônicos amigos
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Dois irônicos amigos

arielpalacios

14 de março de 2009 | 08h00

O escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) e seu colega Manuel Mujica Láinez (1910-1984) encontraram-se em 1980 para uma conversa em um café do centro de Buenos Aires. A tertúlia entre o autor de “O Aleph”, “O Livro de Areia” e “Ficções” (Borges) e o autor de “Bomarzo” e “Misteriosa Buenos Aires” (Mujica Láinez) foi gravada para ser emitida em um programa de rádio da cidade. Mas, a conversa nunca foi ao ar.

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Segundo Borges, neste mundo tão esquisito, até a Santíssima Trindade poderia ser possível

Os dois beberam café, devoraram sanduíches e conversaram longamente sobre a vida. Anti-peronistas ambos, o aristocrático Mujica Láinez comentou: “temos vários pontos em comum…fomos expulsos pelos peronistas! É uma honra importante”. Borges respondeu: “Isso parece glória. Em todo caso, decência”.

Falando sobre Deus, Mujica Láinez perguntou a Borges se ele acreditava no Paraíso e no Inferno. Borges comentou que acreditava neles “literariamente” e que entre as descrições de Dante e Milton, preferia as de Dante, “por ser mais preciso, concreto”.
Mujica Láinez replicou: “você sempre se definiu como ateu”. E Borges disse: “acho que sou agnóstico. Não tenho certeza. É tão esquisito este mundo, que tudo poderia ser possível nele, até mesmo a Santíssima Trindade…”.

A fortíssima presença italiana na Argentina (51% da população tem um antepassado italiano, caso único entre todos os países do continente americano) também foi ironizada pelos dois.
“Eu não tenho sangue italiano. E tampouco você, Georgie, nada de sangue italiano, que estranho, não é?”, disse Mujica Láinez.
Borges respondeu: “Sim, às vezes sinto que sou um estrangeiro em Buenos Aires…”.

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Para Mujica Láinez, ser expulso pelos peronistas era uma honra

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