O sedutor serial Don Giovanni (sob a batuta de Neschling)
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O sedutor serial Don Giovanni (sob a batuta de Neschling)

arielpalacios

17 de julho de 2010 | 11h09

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A famosa cena da “Ária do catálogo”. Leporello faz a contabilidade das seduções protagonizadas por seu senhor, Din Giovanni (foto da assessoria do Teatro Colón).

blog1dedo4O maestro John Neschling – regendo a Orquestra Estável do Teatro Colón – debutou na terça-feira à noite na capital argentina com a ópera “Don Giovanni”, de Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da apresentação em junho de “La Bohème”, de Giàcomo Puccini, esta é a segunda ópera do Colón desde sua reinauguração em maio passado, após sete anos de obras. O regente brasileiro era esperado com grande expectativa na capital argentina. A crítica especializada o definiu como “um diretor musical de luxo” e “o mais destacado diretor de orquestra do Brasil”, além de ressaltar que foi o responsável pela “inédita” projeção internacional da Osesp.

O Colón estava lotado. Mais de um terço do exigente público portenho ostentava smokings e vestidos longos de gala. No entanto, a noite não contou com celebridades, já que estas costumeiramente optam pelas apresentações das sexta-feiras e domingos.

Neschling, com seu rigoroso estilo sóbrio, permitiu que os cantores pudessem exibir-se, sem a concorrência direta da orquestra. O público desta terça-feira – composto principalmente de habitués do Colón e apreciadores da ópera estrangeiros – compreendeu e respaldou o estilo do carioca ex-regente da Osesp, aplaudindo-o com moderado entusiasmo.

Não houve pedidos para bis, o que é costumeiro por parte dos fleumáticos habitués desse teatro. No entanto, para os altamente exigentes padrões do público do Colón, esta moderação pode ser considerada como uma “vitória” na maior sala de ópera da América Latina.

Neschling é uma das várias estrelas convidadas para este ano de reabertura da maior sala de ópera da América Latina. Em junho apresentou-se o violoncelista Yo Yo Ma. Em agosto o teatro contará com a presença do regente argentino-israelense Daniel Barenboim. Em outubro será a vez do indiano Zubin Metha.

blog1vinheta58 APRESENTAÇÕES – As próximas apresentações de ‘Don Giovanni’ ocorrerão neste domingo dia 18; na terça-feira dia 20; na sexta-feira dia 23 e no domingo 25 de julho.

Link do Teatro Colón, aqui. 

blog1dedo2bDRAMMA GIOCOSO – A montagem de “Don Giovanni” – este ‘dramma giocoso’ (drama cômico) – como diriam os italianos para definir o gênero que oscila entre o cômico e o trágico, é do alemão Michael Hempe.

“Esta ópera é a superposição constante da tragédia e da comédia, elas estão todo o tempo juntas. É o caso da ‘ária do catálogo’, no qual a diversão de Leporello é a tragédia de Elvira”, afirmou Hempe, pouco antes da estreia. Segundo o ‘régisseur’, “a dificuldade de fazer um bom ‘Don Giovanni’ ” é o de lidar com a narração musical simultânea em dois níveis criada por Mozart”.

Sob a batuta de Neschling, o personagem de Don Giovanni foi interpretado pelo baixo-barítono italiano Nicola Ulivieri. O fiel criado de Don Giovanni, Leporello, encarregado de salvar seu amo de diversas enrascadas, foi o baixo-barítono argentino Eduardo Chama, que arrancou aplausos do público por sua habilidade nas cenas cômicas, especialmente na ária “Madamina” (mais conhecida pelo nome informal de “A ária do catálogo”) na qual faz um prolongado e irônico censo das fulminantes conquistas de Don Giovanni em diversos países.

A “Ária do catálogo”, mas com Bryn Terfel, já que ainda não há amostras do Don Giovanni regido por Neschling no Colón no Youtube. O link do Youtube, aqui.

PÚBLICO – No intervalo, o Estado consultou pessoas do público sobre a atuação de Neschling e dos cantores. A estudante de arquitetura Estela Garrido estava no ‘poleiro’, o ponto mais distante do palco: “gostei de Neschling, que tem um jeito sóbrio de reger e respeita a ópera. Fiquei curiosa para vê-lo em ação em uma peça sinfônica”. A jovem destacou o desempenho do tenor canadense John Tessier, o mais aplaudido da noite: “tem uma voz honesta, ideal para o papel de Don Octavio”.

Após o final da apresentação, na plateia, Ana Ezcurra, ostentando um elegante casaco de vison ponderou ao Estado: “tudo perfeito. O maestro e a mise-en-scène”. Seu marido, Cláudio, empresário, fez uma observação do physique du rôle dos cantores: “Don Giovanni (Ulivieri) tinha porte atlético, excelente presença cênica e foi verossímil no papel do sedutor. Mas, as camponesas eram magras demais, meio longe da realidade. Mas, pelo menos é menos pior do que ver, como antigamente, uma soprano roliça interpretando uma tísica em La Traviata…”

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Don Octavio promete vingar a morte do pai de sua prometida (foto da assessoria do Teatro Colón).

CLÁSSICO PORTENHO – A ópera de Mozart – cujo nome completo é “Il dissolutto punito, ossia il Don Giovanni” (O disoluto punido, isto é, Don Giovanni) – é um clássico em terras portenhas. A ópera, que estreou no Teatro Estatal de Praga em outubro de 1787, foi apresentado pela primeira vez em 1827 em Buenos Aires, capital na época das Províncias Unidas do Rio da Prata (a Argentina, formalmente, ainda não contava com seu atual nome). Essa apresentação, no Teatro Coliseu – no meio das guerras civis que assolavam o país – foi seguida por outra, em 1869, no velho Teatro Colón.

“Don Giovanni” voltou em grande estilo em 1908, na inauguração do atual Teatro Colón. Na ocasião, o tenor italiano Titta Ruffo interpretou Don Giovanni e o baixo russo Fiódor Chaliapin foi Leporello.

blog1vinheta55b PECULIARES CONEXÕES RUSSO-ITALIANS-ARGENTINAS – Fiódor Ivánovich Chaliapin (em russo, ????? ????????? ???????? ) nasceu em Kazan, em 1873 e morreu em Paris em 1938. Os especialistas indicam que ele estabeleceu a tradição de uma interpretação ‘natural’ da ópera.

Conexão com a Argentina, além de sua apresentação no Colón no ano de sua inauguração? Ahá! Seu filho, Feodor Chaliapin Jr (1905-1992) foi um ator que trabalhou no filme “O Nome da Rosa” (1986), baseado no livro homônimo do semiólogo e ensaísta italiano Umberto Eco.

Chaliapin Jr. fazia o papel do misterioso “Jorge de Burgos”, o bibliotecário cego, que era uma homenagem do autor do livro ao escritor argentino Jorge Luis Borges.

Connery, isto é, Sean Connery (o emblemático James Bond), que fez o papel de Guilherme de Baskerville, o padre-detetive de “O Nome da Rosa” foi quem insistiu para que Chaliapin Jr. fizesse o papel de Jorge de Burgos. “Ele é genial…mas vai roubar meu show!”, disse Connery.

E Chaliapin Jr também faz o papel de avô no filme “Feitiço da lua”, com a atriz-cantora Cher e Nicholas Cage.

 O genial Chaliapin (o pai, claro) canta a “Ária do Catálogo”. Aqui.

Chaliapin canta “La calunnia”, de “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioachino Rossini. Aqui.

 E já que nesta semana foi celebrada a queda da Bastilha, neste link Chaliapin canta “La Marseillaise”. Aqui. 

Mas, a minha versão preferida é a Marselhesa com o espanhol Plácido Domingo. Aqui. 

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Lorenzo da Ponte, autor do libreto de Don Giovanni

LENDA – “Don Giovanni”, composta por Mozart, tem libreto de Lorenzo da Ponte, que inspirou-se na peça de teatro “O enganador de Sevilha e o convidado de pedra”, atribuída ao espanhol Tirso de Molina.

A lenda indica que enquanto Da Ponte preparava o libreto de Don Giovanni, o próprio Giácomo Casanova – amigo do libretista – interveio pessoalmente na preparação do enredo.

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ENTREVISTA COM NESCHLING

E aqui está a entrevista que fiz com o maestro Neschling no dia seguinte à estreia de Don Giovanni:

Estado – Don Giovanni é uma ópera difícil de reger? Pergunto isso, pois Mozart, nesta obra, muda de forma muito rápida o “clima”, do cômico ao dramático…

Neschling – As óperas de Mozart têm essa característica- mudanças abruptas de andamento e de clima. Reger as grandes óperas dele é sempre difícil. E reger ópera e muito diferente de reger o sinfônico. Em princípio é mais difícil, mais complexo. É preciso conhecer o gênero e estar muito bem preparado musical e tecnicamente.

Estado – O que achou da reforma do Colón? Considera que a acústica permanece a mesma?

Neschling – Acho a reforma excelente na parte em que foi feita. Evidentemente há muito por fazer, uma grande parte da infratestrutura do teatro ainda está em obras, mas o principal é que o teatro está funcionando, com todos os problemas. O pior é ter um teatro fechado dutante anos, sem perspectivas de reabrir e sem projeto.

Quanto à acústica, continua formidável. Não regi ópera antes da reforma, mas creio que não poderia ser muito melhor.

Estado – O que achou da reação do público portenho?

Neschling – A reação foi muito calorosa no ensaio geral, na estréia o evento social quase é mais importante do que o musical, e o público parece que sempre é um pouco mais frio. Mas  houve grandes aplausos e bravos no final. Acho que nas próximas récitas a reação será mais imediata.

Estado – Quais são seus planos de trabalho para este ano?

Neschling – Volto ao Brasil para cuidar da minha Companhia Brasileira de Ópera, farei mais umas 20 récitas do Barbeiro de Sevilha por todo o País e ainda vou  à Europa para reger uma Segunda Sinfonia de Mahler em Liège e em Maastricht.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/ 
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/ 
Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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