“E” ou “A”? Na Argentina, última letra do cargo presidencial gerou discussão
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“E” ou “A”? Na Argentina, última letra do cargo presidencial gerou discussão

arielpalacios

02 de novembro de 2010 | 13h01

 

Vários exemplos da letra “A”, a letra da discórdia na Argentina. E agora também no Brasil desde que a presidentE/A eleita Dilma Rousseff indicou que era a primeira presidentA do país (tal como indicam os dicionários Aurélio e Houaiss).  A letra “A” foi objeto de discursos de Cristina Kirchner, que exige ser chamada presidentA. Os especialistas no idioma debatem sobre o uso da letra A no cargo presidencial, já que “presidente” é considerado substantivo de gênero comum (em espanhol).

O debate também gerou discussões sobre medidas concretas para que as mulheres ocupem um espaço real dentro do governo. Dentro do gabinete de ministros de Cristina, as mulheres são minoria: quando tomou posse só existiam 3 mulheres ministras de um total de 12 ministros. Nos últimos três anos criou dois ministérios adicionais. Atualmente, de 14 ministros, as mulheres ocupam somente 3 pastas. Diversos setores que esperavam que sua chegada ao cargo implicasse na despenalização do aborto decepcionaram-se ao ver que Cristina posicionou-se explícitamente contra o assunto.

“Presidenta! Presidentaaa! ‘Presidente’ é ressabio do machismo. Que fique bem claro para vocês. É ‘presidenta’! Podem começar a se acostumar!”. Desta forma, com dedo em riste e marcando a letra “a” da palavra “presidenta, a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner, fez questão de começar a dar ordens à plateia que participava do comício de lançamento de sua chapa presidencial, em julho de 2007. O público, que gritava em coro “Cristina presidente!” na hora da reprimenda ficou estupefato – e em silêncio – com a bronca da primeira-dama. Na sequência, esticando a letra “a” para destacar a feminilidade da palavra, Cristina arrematou: “presidentaaa!”.

 

Os especialistas no idioma espanhol debatem sobre o uso da letra A no cargo presidencial, já que “presidentE” é considerado substantivo de gênero comum. Eles ressaltaram que, se fosse a situação, os presidentes homens teriam que ser chamados de presidentOs. Exemplo: o ex-presidentO Néstor Kirchner. Outros especialistas não negam isso, mas destacam que existe a opção alternativa, por questões de uso, de presidentA.

 A então candidata à presidência deixava claro que faria questão de ser chamada “presidenta”, no feminino, e não na forma tradicional, neutra – “presidente” (um substantivo de gênero em espanhol) – se vencesse as eleições presidenciais.

Cristina conseguiu 45,6% dos votos e tomou posse no dia 10 de dezembro daquele ano.

Na época, os argentinos/as consideraram que a insistência de Cristina não passava de uma brincadeira de campanha. No entanto, só nos primeiros 45 dias de governo, por ordens diretas suas, a Casa Rosada – o palácio presidencial – rejeitou mais de 300 documentos em cujo cabeçalho e texto aparecia a palavra neutra “presidente” (com “e” final), e não sua versão feminina. Atualmente, todos os documentos ostentam a versão “presidenta” exigida por Cristina.

De lá para cá a presidente – sem possibilitar o opcional – interrompeu políticos e políticas (do próprio governo) que haviam referido-se à ela como “presidente”. “PresidentA, já disse!”, exclamou. Jornalistas (jornalistAs-homens e jornalistAs-mulheres) também passaram por carraspanas sobre a letra final do cargo presidencial.

As reuniões de cúpula do Mercosul e outros convescotes presidenciais também sofreram alterações em seus nomes. Desta forma, a última cúpula do bloco do Cone Sul realizada na Argentina, em San Juan, teve o nome de “Trigésima-nona reunião de cúpula de Chefes e Chefas de Estado do Mercosul e Estados Associados”.

Nos últimos três anos o debate permaneceu. Mas, os juristas afirmam que a Constituição argentina determina que o Poder Executivo será exercido por uma pessoa que ostentará o título de “Presidente da Nação Argentina”.

 

Em meio às discussões sobre o assunto, especialistas no idioma e não-especialistas citaram o exemplo da palavra “estudiante” (estudante), aplicada sem preconceitos a ambos sexos. Vários jornalistas (periodistas, em espanhol) perguntaram nos primeiros meses de governo se teriam que passar a ser jornalistOs (periodistOs) e se os artistAs homens poderiam ser chamados de artistOs. Idem para os comunistas. Por exemplo, o ex-presidentO comunisto cubano Fidel Castro, que aplaudiu emocionado o concerto do violinistO David Oistrakh.

Aliás, falando em Oistrakh, o gênio do violino, uma genial interpretação de “Clair de lune”, de Debussy, aqui.

PERONISMO E MACHISMO – O Peronismo é conhecido por seu machismo. Conta com figuras femininas fortes, mas todas foram esposas de caudilhos. Um dos casos é o de Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, sobre a qual o marido e presidente – Juan Domingo Perón – dizia: “eu fiz Evita”. A própria Evita havia afirmado que era “uma serva fiel de Perón”.

Os socialistas (com os quais os peronistas não se davam bem e vice-versa) tentavam implementar o voto para as mulheres desde 1919, sem sucesso. Eles indicaram que Perón, ao assinar o decreto presidencial em 1947 para estabelecer o voto feminino, o havia feito por puro interesse eleitoral. Independentemente dos motivos, as mulheres votaram por primeira vez na Argentina em 1951 (em outro âmbito, a lei do divórcio foi aprovada no governo do presidente Raúl Alfonsín em 1987, apesar da férrea oposição da Igreja Católica e do partido Peronista).

Perón foi eleito para seu último governo em 1973. Na chapa presidencial colocou como vice-presidente sua terceira e última esposa, María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como ‘Isabelita’ (sem experiência política ou partidária alguma, que o velho caudilho havia conhecido durante parte de seu exílio no Panamá). Isabelita tomou posse em 1974, quando seu marido faleceu. Durante os anos 80 e 90 diversos governadores peronistas colocaram suas esposas como sucessores a eles próprios, especialmente nas empobrecidas províncias do norte do país.

Cristina Kirchner foi designada candidata presidencial por seu marido, Néstor Kirchner, em julho de 2007, sem convenção partidária alguma. Ela venceu as eleições de outubro daquele ano. A segunda colocada nas urnas foi Elisa ‘Lilita’ Carrió, candidata da Coalizão Cívica, de oposição. Juntas, as duas mulheres receberam 68% dos votos válidos (respectivamente, 45,2% e 23%).

MARCAS – Isabelita Perón, embora como vice do marido defunto, foi a primeira mulher na História do mundo ao chegar ao cargo de presidente. Em 1979 a boliviana Lidia Gueiler de Tejada (curiosamente, tia da atriz americana Raquel Welch, cujo pai era um engenheiro aeronático boliviano) chegou ao cargo máximo de seu país ao ocupar, provisoriamente, a presidência da Bolívia (foi derrubada um ano depois por um golpe militar).

A primeira mulher no planeta a chegar à presidência de uma República foi a islandesa Vígdis Finnbogadóttir, em 1980, país vanguardista em leis sociais (bem como a maior parte dos países com os quais relaciona-se culturalmente como Suécia, Dinamarca e Noruega)

A primeira sul-americana a ser eleita nas urnas para a presidência da República foi Michelle Bachelet, no Chile, em 2006.

 Letra “A”, em hieróglifo egípcio.

Letra “A”, em proto-semítico.

h! E temos Mercedes Sosa cantando com o catalão Joan Manuel Serrat “Aquelas pequenas coisas”. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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