Ego-cartografia: Cristina Kirchner agora é parte da toponímia futebolística
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Ego-cartografia: Cristina Kirchner agora é parte da toponímia futebolística

arielpalacios

20 Junho 2013 | 10h20

A presidente Cristina Kirchner está viva. Mas, seu nome será usado para designar um estádio de futebol na província de Misiones, governada por seu aliado Maurice Closs. Para colocar o nome da presidente deverão remover o nome de um herói indígena do nordeste do país. Na foto acima Cristina e Cristinita. A boneca, à direita da foto (e à esquerda da presidente) tem apenas um metro de altura. Mas, ostenta uma faixa presidencial, está vestida de luto, usa colar de pérolas, pulseira combinando, cinto cor de marfim e tem o megahair ad hoc. A mini-presidente foi fabricada por um empresário argentino e dada de presente no início deste ano a Cristina Kirchner, como uma homenagem da Câmara de Industriais do Brinquedo (Caij). 

O culto à personalidade da presidente Cristina Kirchner entrará pela primeira vez no âmbito esportivo, já que daqui a poucos dias seu nome designará um estádio de futebol. O lugar da homenagem toponímica é o estádio da cidade de Posadas, capital da província de Misiones, que alberga o clube “Crucero del Norte”. A decisão foi tomada pelo governador de Misiones, o kirchnerista Maurice Closs e o prefeito Orlando Franco.

A cerimônia será no dia 27, data na qual o clube celebrará seus primeiros dez anos de vida (o estádio é mais antigo que o time, pois foi fundado em 1989). Nesse dia haverá um amistoso entre o Crucero del Norte e o paraguaio Libertad. No evento estará presente o presidente eleito do Parguai, Horacio Cartes.

Mas, para ostentar o nome da presidente Cristina o estádio, que tem capacidade para 12 mil espectadores, terá que apagar o anterior, “Andrés Guaycurarí”. Este nome homenageava o líder indígena guarani que participou das lutas de independência na Argentina e no Uruguai no começo do século dezenove. Intelectuais de Misiones protestaram contra a decisão do kirchnerismo, argumentando que a eliminação do nome de Guaycurarí é uma ofensa contra o herói provincial e as comunidades indígenas.

Guaycurarí, que lutou contra os caçadores de escravos luso-brasileiros que operavam na antiga região das missões guaranis, foi aprisionado em 1819 no combate de Ita-Curuvi. Na sequência foi enviado ao Rio de Janeiro, onde teria morrido na prisão da Ilha das Cobras em 1825.

KIRCHNER: DE ESTRADAS A LABORATÓRIOS – Esta é a primeira homenagem toponímica que a presidente Cristina recebe. No entanto, o nome do ex-presidente Néstor Kirchner, seu marido morto em outubro de 2010, foi alvo de uma série de homenagens nos últimos dois anos e meio. A onda de batizar todo tipo de obra com a denominação do ex-presidente morto começou uma semana depois de sua morte, quando vereadores de Río Gallegos, cidade natal de Kirchner, capital da província de Santa Cruz, no sul da Argentina, decidiram rebatizar a a principal avenida com seu nome.

Nos meses seguintes prefeitos e governadores em todo o país desataram uma onda de “batizados” e “rebatizados” de estradas, pontes, túneis e escolas com o nome de “Néstor Kirchner”.

O nome do ex-presidente designa atualmente bolsas de estudo, um laboratórios de pesquisas de vacas leiteiras e até o prédio da faculdade de jornalismo da Universidade de La Plata. Líderes da oposição ressaltaram na época, com ironia, que o curso estava homenageando um ex-presidente que jamais havia dado uma coletiva de imprensa.

Mito do “rock” político argentino: A satírica Revista Barcelona ilustrou em 2011 o falecido ex-presidente Néstor Kirchner como o rebelde James Douglas ‘Jim’ Morrison na emblemática foto feita por Gloria Staver, editora da Rolling Stone. Enquanto isso, parlamentares kirchneristas continuam batizando estradas, bairros e outras marcas do território argentino com o nome do defunto marido (e antecessor) da atual presidente.

ANEXO EGO-CARTOGRÁFICO: O EX-PRESIDENTE QUE VIROU…

TORNEIO DE FUTEBOL – Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) desde 1979 – ano em plena ditadura militar – anunciou um mês depois da morte de Kirchner que o Torneio Clausura-2011 (um dos dois torneios nacionais da primeira divisão) seria rebatizado como “Torneio Néstor Kirchner”.

Motivos para a homenagem a Kirchner não faltam para Grondona, que em 2009 conseguiu um suculento acordo com o casal presidencial de US$ 160 milhões em troca da estatização das transmissões dos jogos de futebol. As verbas foram aumentadas nos anos seguintes, acumulando um total de US$ 1,06 bilhão nos últimos quatro anos.

Desta forma o governo Kirchner obteve o monopólio das transmissões dos jogos do esporte mais popular do país. O governo transmite os jogos pelo estatal Canal TV Pública, outrora um canal dedicado à cultura. A publicidade de empresas privadas foi cancelada pelo governo, que somente coloca propaganda oficial durante os jogos.

Grondona está no comando da AFA há 34 anos. No mesmo intervalo, a Federação de Futebol do Chile teve 14 presidentes.

GASODUTO – O gasoduto que está sendo construído entre a Argentina e a Bolívia ostentará o nome de Néstor Kirchner. A medida foi aprovada pela Câmara de Deputados estaduais da província de Jujuy, por onde passa o gasoduto.

MITO NA DELEGACIA – “Ele é um mito agora”. Este foi o argumento do governador da província de Misiones, Maurice Closs, que batizou uma delegacia com o nome do defunto ex-presidente Kirchner. Closs é quem batiza agora oo estádio de Posadas com o nome de Cristina Fernández de Kirchner.

NA PEQUENA CIDADE, ‘VÁRIAS’ RUAS – O nome de “El Pinguino” também foi usado por Sergio Schmunck, prefeito da cidade de Viale, na província de Entre Ríos, para designar o novo parque industrial. Schmunck afirmou que “é totalmente merecido que o setor industrial ostente o nome de nosso ex-líder”. O prefeito também anunciou entusiasmado que “várias” ruas de Viale seriam rebatizadas com o nome de Kirchner. Isto é: várias ruas na mesma cidade, que possui 18 mil habitantes.

UM BAIRRO, PARA NÃO FICAR ATRÁS– Na mesma província de Entre Ríos, outra cidade, Colonia Avellaneda, não quis ficar atrás de Viale. Suas autoridades, também possuídas pelo fervor de rebatizar, decidiram designar um conjunto habitacional com o nome do falecido marido da presidente Cristina.

O nome Néstor Kirchner também foi usado nos últimos tempos para batizar ou re-batizar os seguintes lugares:

– O edifício do antigo Correio Central de Buenos Aires, que será o Centro Cultural do Bicentenário (o motivo oficial alegado pelos deputados kirchneristas: o pai de Kirchner havia trabalhado nos Correios)

– A Rodovia de 150 kms que une as cidades de General Pintos e Germânia (respectivamente, 11.129 e 1.433 habitantes). Esta estrada foi inaugurada pela presidente Cristina por teleconferência. Três dias depois choveu e a estrada exibiu uma brecha de mais de um metro de largura, partindo a via em duas partes.

Daremos a lista completa no dia 27 de outubro, quando completam-se os três anos do falecimento do ex-presidente.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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