Eleição parlamentar coloca hegemonia dos Kirchners em risco
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Eleição parlamentar coloca hegemonia dos Kirchners em risco

arielpalacios

27 de junho de 2009 | 13h31

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Segundo Kirchner, se Cristina perder eleição deste domingo, o Apocalipse é uma certeza.
Os quatro cavaleiros do Apocalipse, gravura de Albrecht Dürer (1471-1528)

“Existem dois modelos em jogo! Os argentinos devem escolher: ou aprofundamos as mudanças realizadas pela presidente Cristina Kirchner ou voltamos ao inferno da crise de 2001!”. O alerta, em tom apocalíptico, foi pronunciado em diversas ocasiões ao longo das últimas semanas pelo marido e antecessor de Cristina, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007). Outros aliados indicaram com tom similar: “ou nós ou o caos”, “votem em nós, senão o país ficará ingovernável”.

Segundo os Kirchners, o governo precisa vencer as eleições parlamentares deste domingo. “O país explodirá se Cristina não contar com maioria parlamentar”, disse.

O ex-presidente, considerado o verdadeiro poder no governo da esposa, comandou a campanha.
O governo está apresentando estas eleições como se fossem um plebiscito de sua gestão, já que corre o risco de perder a atualmente frágil maioria na Câmara de Deputados e no Senado.

Em diversos comícios ao longo da campanha Kirchner afirmou que estas eleições são “a mãe de todas as batalhas”.

Um dos líderes da Oposição, o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, da coalizão de centro-direita Proposta Republicana (PRO), rebateu com ironia: “sim, vai explodir..mas de alegria!”.

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“Néstor tem o poder, Cristina governa”, ironiza a Oposição (e vários dos aliados dos Kirchners dizem a mesma coisa)

As eleições deste domingo renovarão metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado.

“Se perder, Cristina terá que governar com um Parlamento opositor. Isso não será fácil para ela, pois será obrigada a negociar e dialogar, algo que ela e seu marido nunca fizeram”, me disse a socióloga Graciela Römer.

Para tentar impedir uma derrota nas urnas que os analistas consideram “quase uma certeza”, o próprio Kirchner apresentou-se candidato a deputado pelo Partido Justicialista (Peronista) e sua sublegenda Frente pela Vitória (FpV).

Kirchner, embora tenha feito toda sua carreira política na província de Santa Cruz, na Patagônia, será candidato na província de Buenos Aires.

A candidatura do patagônio no território bonaerense foi intensamente criticada pela Oposição e suscitou dúvidas entre os constitucionalistas.

“Para os Kirchner é crucial colocar suas principais forças na província de Buenos Aires, que concentra 38,9% do eleitorado nacional”, indicou o colunista Silvio Santamarina, do jornal “Crítica”.

Mas, enquanto o governo instala a província de Buenos Aires como seu principal campo de batalha, na cidade de Buenos Aires, a capital federal, o cenário é de derrota de magnitude. “80% dos portenhos possuem uma imagem negativa de Cristina Kirchner”, explica Mariel Fornoni, da consultoria Management & Fit.

Na cidade de Buenos Aires, não será bolinho conseguir votos para o governo. Um ministro dos Kirchners, em off, admitiu, com ironia, que “se Jesus Cristo fosse aqui candidato de Kirchner, a capital do país viraria ateia!”.

mapa

Argentina geograficamente real é a da direita deste gráfico. Do lado esquerdo, o mapa mostra a Argentina ‘deformada’ com cada província com um tamanho equivalente a seu peso eleitoral. A província de Buenos Aires mostra um peso fora do normal no contexto geral do país. Seria como se no Brasil (proporcionalmente) um único estado fosse a somatória de São Paulo, Minas Gerais e mais da metade do Rio de Janeiro. O gráfico é da consultoria Equis

VITÓRIAS E ‘VITÓRIAS’
Como avaliar o que é uma derrota ou uma vitória?

Por um lado, segundo as pesquisas, o governo perderia terreno em relação às eleições presidenciais de 2007 e as parlamentares de 2005, em todo o país.

O governo teria 35% dos votos em todo o país. No máximo, 38%.

Mas, a eleição nacional não é o principal foco da administração dos Kirchners.

O foco é a província de Buenos Aires, que concentra 38,9% do eleitorado do país. A província tem um peso fora do normal em qualquer eleição argentina.

Ali, os Kirchners tentarão “ganhar”.
“Ganhar”, neste caso, não é ter a “maioria dos votos” ou “metade mais um” dos votos.
Mas, apenas trata-se de conseguir o primeiro lugar.
Uma forma simbólica de poder afirmar que foi uma “vitória”.

Diversas pesquisas indicam um empate técnico na disputa na província de Buenos Aires.
Kirchner, segundo uma média de pesquisas, poderia ter 37% dos votos.
Seu rival na província de Buenos Aires é Francisco De Narváez, que teria 34%.
Outra opositora no território bonaerense, Margarita Stolbitzer, teria 20% dos votos.

Kirchner representa o Partido Justicialista (Peronista) e sua sublegenda Frente pela Vitória

De Narváez representa o Peronismo dissidente. Ele está circunstacialmente aliado ao partido de centro-direita Proposta Republicana (PRO), do prefeito da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri.

Stolbitzer representa a União Cívica Radical (UCR), e está aliada à Coalizão Cívica. Essa coalizão denomina-se Acordo Cívico e Social.

CANDIDATO, MA NON TROPPO
O Kirchners também mobilizaram as principais figuras de suas fileiras, além da candidatura de uma estrela das telenovelas, a cantora-atriz Nacha Guevara, que protagoniza a versão argentina do musical “Evita”.

Além disso, convocaram governadores e prefeitos aliados para que apresentem suas “candidaturas testimoniales”.
Em outras palavras, candidaturas “virtuais”.

Neste caso, esses peculiares candidatos “virtuais”, se vencerem, não tomarão posse, pois suas candidaturas servirão só para arrecadar votos.

Um dos casos é o governador bonaerense, Daniel Scioli, candidato “virtual” a deputado, uma tentativa que os analistas denominam de “desesperada” para ajudar os Kirchners.

A Oposição também colocou suas principais figuras para enfrentar o governo. Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, é candidata a deputada na cidade de Buenos Aires. Mas, ela optou por colocar na cabeça de sua lista parlamentar o jovem ex-presidente do Banco Central, Alfonso Prat-Gay. Carrió decidiu ficar em terceiro lugar na lista.

A centro-direita argentina também conseguiu, a duras penas, formar uma aliança entre o PRO de Macri e as forças do Peronismo dissidente, lideradas pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, ex-padrinho político de Kirchner.

A principal figura no campo de batalha bonaerense será De Narváez, um empresário com tatuagens chinesas no pescoço que tenta passar a imagem de político “moderno” e em “sintonia” com a juventude.

FRAUDES
As principais lideranças da Oposição na Argentina estão alertando para o risco de que o governo de Cristina Kirchner implemente fraudes.

A Oposição calcula que por intermédio de diversas modalidades de fraude o governo tentaria aumentar os votos a seu favor em uma faixa de 1,5% a 3%.

Analistas afirmam que a proporção, embora pequena, seria decisiva em uma eleição ajustada como esta.

De Narváez fez um apelo a seus eleitores em um spot da TV: “evite que roubem nossos votos!”.
Felipe Solá, ex-governador de Buenos Aires e segundo na lista da União-PRO alertou para o “perigo” de “empatar” com o kirchnerismo nas urnas. Segundo ele, nesse eventual cenário, o governo, desesperado, recorreria à fraude para mostrar que ficou em primeiro lugar nas eleições.

Setores da Oposição começam a preparar-se, de forma extraoficial, para um eventual cenário de fraude. Neste caso, se neste domingo à noite ficar evidente que houve “trapaça” nas urnas, a Oposição desferiria uma onda de panelaços nas principais cidades do país, em protesto contra o governo de Cristina Kirchner.

O Ministro do Interior, Florencio Randazzo, retruca: “as acusações de fraude são pouco sérias, não somente para o governo, mas também para a democracia!”.

Randazzo nega eventuais trapaças nas urnas e acusou a Oposição de “tentar instalar (a ideia de que o governo prepara) a fraude”.

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