Equador tenta encerrar mais de uma década de instabilidade
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Equador tenta encerrar mais de uma década de instabilidade

arielpalacios

26 de abril de 2009 | 05h15

velasco
Retrato da instabilidade política equatoriana, Velasco Ibarra foi eleito cinco vezes mas só completou um mandato

Os equatorianos foram às urnas neste domingo para eleger seu novo presidente e tentar encerrar mais de uma década de instabilidade política. Segundo os primeiros dados, o atual presidente, Rafael Correa, que disputava a reeleição, venceu – com ampla vantagem – os outros sete candidatos representantes da fragmentada Oposição.

Link do jornal “El Universo”, de Guayaquil, com as notícias sobre a eleição
http://www.eluniverso.com/

E este, o link de “El Telégrafo”
http://www.telegrafo.com.ec/

escudo
Nada a ver com os links de jornais…é o escudo equatoriano, que é bastante interessante não?

TENTANDO UM MANDATO ‘NORMAL’ – Esta eleição foi sui generis, pois Correa – que define-se como “cristão de esquerda” – assumiu o poder dois anos atrás. Seu mandato, originalmente, concluiria em novembro de 2011. No entanto, em um referendo há sete meses, os equatorianos aprovaram uma nova Carta Magna.
Esta reforma constitucional, entre outros pontos, implicava na convocação de novas eleições presidenciais neste 26 de abril. Isto é, as eleições nas quais – estima-se – 10 milhões de equatorianos votaram neste domingo.

Esta foi a sexta vez que os equatorianos assistem à uma eleição (direta ou indireta, referendos ou eleições) desde outubro de 2006.

Ao longo dos últimos 12 anos o Equador teve oito presidentes (nove, com o “primeiro governo” de apenas dois anos de Correa). Desses, todos menos Correa foram derrubados pelo Parlamento, rebeliões populares (ou um mix destas com apoio militar), ou, no melhor dos casos, foram presidentes interinos.

Correa começará seu segundo governo, isto é, tentará a proeza de emplacar um mandato “normal” completo.

As turbulências dos últimos anos são só uma amostra das convulsões políticas que marcaram praticamente toda a História desse interessante país.

correa
Correa, amigo do presidente venezuelano Hugo Chávez, define-se como “cristão de esquerda”. Ele terá a dura tarefa de completar um mandato “normal”, elemento raro na História equatoriana

ELEITO CINCO VEZES, SÓ COMPLETOU UM MANDATO – Normalmente me concentro no Cone Sul. Mas, a rocambolesca história equatoriana sempre me pareceu fascinante, e no fim das contas, trata-se também dos “Hermanos”.

Uma figura que ilustra bem as turbulências da política desse país é José María Velasco Ibarra (1893-1979).

Muitos historiadores o comparam, mutatis mutandis, com o argentino Juan Domingo Perón. Em muitos pontos suas personalidades divergem. Mas, outros pontos – entre eles o poder de convocar as massas e a capacidade de reunir sob seu nome o mais amplo leque de forças políticas – assemelham esses dois caudilhos de países tão diferentes.

Um dos exemplos de sua capacidade de todo o leque político foi a eleição de 1944, que venceu no comando de uma aliança de conservadores, católicos, socialistas e comunistas.
Os historiadores destacam que, com poucas exceções, a maior parte dos políticos contemporâneos de Velasco foram (independentemente de suas ideologias) “velasquistas” em algum ponto de suas carreiras.

Velasco Ibarra poderia ser definido como o político de maior sucesso da História do Equador. Formado nas Universidades de Quito e Paris, foi considerado um dos maiores oradores de seu país, além de ser indicado como o responsável direto da eliminação dos fortes vestígios da economia colonial ainda predominantes no início do século XX.

Os historiadores sustentam que ninguém o superou na construção de rodovias ou escolas. Foi a figura dominante do cenário político equatoriano durante quatro décadas. Sua popularidade o levou à presidência da República em cinco ocasiões.

No entanto, ao mesmo tempo, Velasco Ibarra também poderia ser definido como um dos mais fracassados e polêmicos presidentes do Equador, já que somente conseguiu concluir um único mandato.

Nos outros quatro foi derrubado por revoltas sociais, golpes militares e conspirações de seus ex-aliados políticos. Desta forma, Velasco Ibarra é o retrato da persistente instabilidade política de seu país.

Foi eleito pela primeira vez em 1934 no meio da crise econômica mundial graças ao apoio de setores conservadores. Mas, pouco depois afastou-se destes e tentou aplicar um plano de reforma agrária com a divisão das grandes fazendas.

Diante da resistência dos fazendeiros, assumiu poderes totais e reprimiu a oposição. Foi derrubado em 1935 por um golpe militar. Novamente eleito em 1944, após os conflitos fronteiriços com o Peru, foi derrubado pelos militares em 1947.

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“Se me derem um balcão em cada cidade, serei presidente” (Velasco Ibarra, que apostava em seu carisma e oratória para vencer qualquer eleição)

Ao voltar do exílio, em 1952, foi eleito presidente. Este terceiro mandato foi o único que completou, em 1956, basicamente graças ao boom da produção de bananas, que trouxe ampla prosperidade.

Em setembro de 1960 foi eleito novamente. Mas, só durou dois meses e uma semana no cargo, pois foi destituído pelo Parlamento.

Foi eleito e empossado por última vez em 1968. Influenciado pela revolução cubana, manifestou sua intenção de “esmagar a oligarquia”. Cinco meses antes de terminar o mandato, em 1972, foi derrubado pelos militares no golpe denominado de “El Carnavalazo”, por transcorrer durante a terça-feira de Carnaval.

Em 1977, dois anos antes de morrer, seus aliados o procuraram em Buenos Aires para que retornasse do exílio e comandasse o “sexto velasquismo”. Velasco Ibarra, aos 84 anos, declinou: “renuncio à essa vaidade…”.

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