Em algum lugar do vasto Universo Jorge Luis Borges assopra 112 velinhas
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Em algum lugar do vasto Universo Jorge Luis Borges assopra 112 velinhas

arielpalacios

24 de agosto de 2011 | 18h50

“Uma das razões para ter tido uma vida feliz é a dele ter sido meu amigo. Todas as noites ele jantava nesta casa”, me disse Bioy Casares em uma entrevista publicada no final dos anos 90.  Acima, o risonho Borges. Embaixo, uma fotomontagem que reúne Borges e Bioy como “Biorges”.

Caras e caros,

Estou em uma semana de extrema correria de trabalho e assuntos familiares. Mas, não podia deixar de postar algo, mesmo que fosse mínimo, sobre Jorge Luis Borges, que hoje (quarta-feira), estaria assoprando 112 velinhas.

Reproduzo aqui uma das três entrevistas que fiz ao longo de vários anos com Adolfo Bioy Casares, concentrada na relação de amizade com seu amigo “Georgie” (amizade surgida graças aos lactobacilos).  Esta foi uma entrevista feita parcialmente na casa de Bioy e no restaurante Lola em 1996.

Esta entrevista, perceberão os leitores mais antigos do blog, já foi publicada há uns dois anos neste mesmo lugar. Mas, na pressa desta semana atribulada, e seguindo as indicações do emblemático e há séculos defunto Antoine-Laurent de Lavoisier, repito a conversa com o autor de “A invenção de Morel” e reciclo o material acrescentando um bônus track no pé da postagem. Sexta-feira estarei com a vida em ordem para responder comentários, inclusive os atrasados das postagens anteriores. E, além disso, qual melhor forma de celebrar com Borges seu 112 aniversário do que acompanhar o relato de seu querido amigo Bioy Casares? Para participar da borgiana festa de aniversário, aqui segue a postagem.

Um abajur quebrado levou a um folheto sobre iogurtes. O texto comercial sobre lactobacilos levou à uma das camaradagens mais frutíferas da história da literatura. Parece estranho, mas este foi o modo como duas privilegiadas mentes argentinas do século XX se uniram: Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Tudo começou com uma reunião na casa de Victoria Ocampo, a rabugenta – e brilhante – dublê de Gertrude Stein da Argentina do anos 30, 40 e 50. Bioy Casares, casado com Silvina Ocampo, estava presente na tertúlia por temor às repreensões da cunhada. Victoria recebia um escritor estrangeiro com um cocktail.

Por acaso, Bioy sentou-se ao ladode Jorge Luis Borges. “No meio da festa começamos a conversar animadamente. Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida”.

A amizade os uniria para sempre. Bioy, sobrinho e filho e sobrinhode empresários do setor de laticínios, foi contratado pela própria família para escrever um folheto cultural “e comercial” sobre o iogurte. “Chamei Borges e ficamosdias na fazenda pensando no folheto. Mais do que trabalhar no tema, acabávamos criando personagens. Assim escrevemos “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”. Queríamos escrever contos onde houvesse um enigma e uma solução clara. Mas fazíamos brincadeiras e nos perdíamos nelas. “Que faremos com este personagem?”, perguntávamos rindo.

Antes de partir para a Europa, o autor de “A invenção de Morel” e “Diário da Guerra do Porco” e inseparável partner de Borges, falou para o Estado sobre sua amizade com o autor de “Ficciones”:

Estado – Honorio Bustos Domecq, o imaginário autor de “Seis Problemas para Don Isidro Parodi” era uma criação com os sobrenomes dos avós…

Bioy Casares – Bustos era do lado de Borges. Domecq era minha avó paterna. A Editorialera “Oportet et Jerezes, convém que haja hereges”.

Estado – Como escreviam a quatro mãos?

Bioy – A gente sempre escrevia de noite. Borges sempre vinha em casa jantar. E depois de jantar conversávamos sobre uma ideia relativa a um assunto. Eu sentava na frente da máquina de escrever e começávamos….um de nós dois propunha a primeira frase…e assim vinham a segunda, terceira frases. Os dois íamos falando ao mesmo tempo. De vez em quando Borges dizia ‘não, acho melhor a gente enveredar por outro lado’…ou eu dizia ‘espera..acho que já temos demasiadas piadas juntas aqui’..e assim íamos escrevendo!.

Estado – Os srs. eram muito diferentes. Borges, quase um calvinista, o sr. era…

Bioy Casares – (rindo) Borges era incapaz de andar a cavalo. Eu percorria até250 km. Borges se apaixonava profundamente por cada mulher. Eu tive muito amores e a sorte de que minhas ex-amantes são muito boas amigas até hoje.

Estado – Qual influência o sr. teve em Borges e ele no sr.?

Bioy Casares – Ele, com Paul Valèry, me retiraram do surrealismo. Recebi grandes dicas, conduzidas pela inteligência. Combatiem Borgeso estilo em que cada frase tinha um efeito de surpresa no final. O ajudei, onde ele chegaria sem minha ajuda, a chegar no que era um estilo mais clássico.

Estado – Como foi publicar a revista Destiempo”, junto com Borges?

Bioy Casares – Estavámos muito contentes com isso. Saímos da gráfica com duas caixas das revistas e fizemos uma fotografia para uma histórica posteridade. A fotografia desapareceu. Nunca a recuperamos. Todos os exemplares do número um da revista desapareceram. O estúdio onde fizemos a foto também sumiu. Não era possível fazer uma revista sem dinheiro. Os colaboradores demoravam semanas para entregar os textos ea revista morreu…

Borges também virou comic. Aqui, o escritor na HQ “Perramus”, desenhada por Alberto Breccia

Estado – Como foi seu primeiro encontro com Borges?

Bioy Casares – Victoria Ocampo estava convidando alguns estrangeiros ilustres por alguns dias. Muito autoritária, quando convidava alguém, tinha que ir, porque senão ouviria repreensões pelo resto da vida. Ali estava o convidado ilustre, mas Borges, que estava sentado a meu lado começou a conversar comigo. Começamos a conversar animadamente no meio da festa. Mas Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida. Naquela noite, fomos embora logo da festa. O levei em meu carro a suacasa e fomos todo o trajeto conversando.

Estado – Os senhores eram como uma dupla de filme…

Bioy Casares – (ri) Não o vejo assim, mas foi uma amizade maravilhosa. Um dia me encarregaram um folheto pseudocientífico e eficazmente comercial sobre o iogurte. Como pagavam muito, convidei Borges para que escrevesse comigo. Fomos até a fazenda de meu pai. Como nos entediávamos, pensamos que seria bom se escrevêssemos contos juntos.

Estado – O que acha das obras que Borges não quis reeditar, que foram recentemente reeditadas (“O Idioma dos Argentinos” e “Borges en Revista Multicolor”)?

Bioy Casares – Sinto-me muito identificado com ele, pois espero que quando morrer, nunca reeditem meus primeiros livros. Quando fomos compilar minhas “Obras Completas” minha editora me disse que seria uma mentira chamá-las assim. Eu disse que eram livros antes de que me convertesse em um escritor consciente.

Estado – Entre a poesia e a prosa de Borges, qual prefere?

Bioy Casares – Prefiro a prosa, mas gosto muito da poesia dos últimos anos. Não gosto de seu tempo de surrealismo.

Estado – Como foram suas incursões no mundo dos roteiros cinematográficos?

Bioy Casares – Quando começamos ainda não sabíamos fazer roteiros. Depois aprendemos um pouco…

Estado – Borges tornou o sr. um dos mais conhecidos personagens da literatura fantástica. Em “Tlön, Uqbar e Orbis Tertius” o sr. é o personagem que faz a trama começar, com a citação “abomino os espelhos e a cópula, porque multiplicam a espécie humana”…

Bioy Casares – Ele me faz dizer coisas que nunca disse (ri). Gosto muito de espelhos, os acho misteriosíssimos. Para mim são uma fonte de inspiração. Era só uma brincadeira de Borges. Para ele, os espelhos eram atrozes. Nunca compreendi o porquê, mas ele tinha uma repulsão, talvez mais intelectual do que físico, pois não me parece que alguém possa ter uma repulsão física por algo tão bonito como um espelho.

O gato Beppo refestela-se no chão. Sentado na cadeira, com a indefectível bengala, o escritor Jorge Luis Borges. Beppo e seu amigo humano posam para a foto no apartamento do escritor na calle Maipú. Beppo foi enterrado na Praça San Martín. Borges, em Genebra.

Estado – O sr. teme a morte?

Bioy Casares – Diria que não, mas me impressiona. Me parece espantoso morrer.Borges e eufalávamos muito sobre isso. O coitado poderia agora me dizer o que se sente. Eu sigo com temor e com horror. É algo que me desgosta. Não gostaria que acontecesse.

Estado – O sr. viu Borges partir, sabendo que não o veria mais…

Bioy Casares – É horrível morrer. Sua morte foi dolorosa, penso eu. Antes de partir para Genebra, lhe perguntei se não era melhor ficar aqui, já que os médicos o haviam desenganado. Me respondeu: “para morrer, dá no mesmo estar em qualquer lugar…”. Uma frase literariamente eficaz, que me calou.

 

“Quando vinha um estrangeiro que nos parecia inteligente, Borges e eu o levávamos à Ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires. Não havia nada de destaque no lugar. Quando chegávamos no local, o visitante não entendia porque diabos o havíamos levado até ali. Mas Borges e eu gostávamos do lugar…”. Acima, na foto, a Puente Alsina.

BENGALA, UM TERCEIRO AUTOR E GARGALHADAS

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares fizeram, desfrutando – e muito – um trabalho conjunto, deixando seus egos de lado. Não tentaram impor um ao outro suas ideias e palavras. Foi uma dupla simbiótica, que foi mais além da colaboração, já que Bustos Domecq tinha um estilo diferente ao dos dois escritores de carne e osso.

Honorio Bustos Domecq surgiu primeiro como F.Bustos, nome com o qual Borges publicou a primeira história de ficção de sua carreira, “O homem da esquina rosada”. Quando apareceu a parceria entre Borges e Bioy Casares o nome do escritor-fantasma foi trocado para Honorio Bustos Domecq.

Bustos era o sobrenome de um bisavôde Borges, enquanto que Domecq era o bisavô de Bioy.

H. Bustos Domecq começou sua carreira com “Seis problemas para Isidro Parodi”, de 1942. Em 1946 lançaram “Duas fantasias memoráveis”.

Bustos Domecq se tornou um “autor” de sucesso. A Argentina pensava que existia de verdade e chegaram a lhe oferecer prêmios literários. Mas H. Bustos Domecq nunca aparecia para receber as honras. Borges e Bioy Casares davam gargalhadas.

De quebra, também criaram um segundo autor-fantasma, Benito Suárez Lynch (também utilizando os sobrenomes de outros antepassadosde Borges e Bioy). Com este pseudônimo publicaram “Um modelo para a morte”.

Com os anos, Bioy foi-se parecendo a Borges, seu indefectível partner: a bengala, a fragilidade causada pela morte dos seres queridos, o desejo de viver muito mais. Unidos por causa de um abajur quebrado e um folheto sobre iogurtes, esta dupla produziu obras que integram a lista de clássicos da literatura do século XX. Borges era um potencial calvinista, tímido com as mulheres. Bioy se envolvia com as sobrinhas de sua esposa. O primeiro exercia o estilo mais erudito, o segundo primava pela simplicidade. Borges abandonou o planeta há dez anos. Bioy Casares continua aqui, aos 82 (a entrevista, lembrem, foi em 1996…Bioy Casares morreu menos de três anos depois).

E aqui embaixo, alguns dos melhores trechos do diário que Bioy Casares escreveu sobre o dia a dia de sua amizade com Borges (no original, em espanhol):

1950
Miércoles, 28 de junio. Borges llegó ayer de Tucumán. Contó que, recorriendo la ciudad con unos profesores, llegaron a un triste barrio de ranchos de paja […] Uno de los profesores dijo: “Este barrio es muy peligroso. Hay muchos malevos [malhechores] y aclaró que no había verdadero peligro de ser atacado por ladrones o asesinos, sino por homosexuales. “Todos los malevos son homosexuales.”

1952
Martes, 6 de mayo. Borges me habló de un artículo que hace años Francisco Romero publicó en “Sur”; en él nuestro mayor filósofo llegaba a la conclusión de que las dos operaciones esenciales y tal vez únicas de la actividad humana eran unir y separar. Borges comentó: “Es un presocrático. Tiene todo el pasado por delante”.

Viernes, 30 de mayo. Habló de Flaubert: “A pesar de lo mucho que se esforzaba por escribir, las frases no le salían bien. Cae, como Lugones, en un estilo burocrático que apaga el interés del lector. No trata de ser interesante; la impresión que da no es de impulso, sino de insistencia en una materia ingrata. Después de leer La tentación de San Antonio a sus amigos, le dijeron que debía dejarse de asuntos grandilocuentes, que debía buscar una historia chata. Para contestar a esos amigos escribió Madame Bovary. Qué idea de la literatura y del arte. Llegó hasta a buscar la casa donde habían vivido Bouvard y Pécuchet. Qué diferencia con Henry James. Cuando a James le contaban una historia que le parecía que le daba tema para un cuento, una vez que había oído lo esencial acallaba a los narradores: no quería oír demasiadas explicaciones ni detalles; con lo esencial trabajaba su mente y un tiempo después producía un cuento. Un método más lúcido que el de Flaubert”.

1953
Domingo, 30 de agosto. Hablamos de Shakespeare. Dice que en literatura fue un amateur, the divine amateur; lo compara con Dante, verdadero literato. Recordó que las piezas de teatro no se consideraban literatura: las escribían de cualquier modo, con argumentos ajenos y hasta confusísimos. […] Bioy: “Tal vez si se hubiera cultivado y esmerado, quizá habría perdido esa inflamada y feliz elocuencia, que es probablemente la mejor de sus virtudes. Cuando quiere ser un escritor, en los sonetos, se pierde en antítesis y en sutilezas fútiles”.

Domingo, 10 de noviembre. Hablo con Borges. Ayer estuvo en casa de Ricardo Rojas, con la comisión de la Sociedad de Escritores; había allí mucha gente, que iba a saludar a Rojas, porque se cumple el cincuentenario de la publicación de su primer libro. Borges: “La casa parece un museo: un museo dedicado a él mismo […] Aquello era muy oscuro. Le di la mano y comprendí que había cometido una gaffe. Había que abrazarlo. ¿Te das cuenta? Abrazarlo porque hace cincuenta años que publicó un libro del que debería avergonzarse. ¿Viste los sonetos que publicó hoy en “La Nación”? Son pési-
mos. La gente dice que son malos porque son grandilocuentes. Es difícil ser grandilocuente: hay que saber serlo. éste lo es del modo más sonso”.

1954
Martes, 7 de diciembre. [Borges] Comenta: “La gente dice que la Historia de la filosofía (o el Diccionario) de Ferrater Mora es bueno porque figuran en él las filosofías de España y de la América latina. Es una idea muy casera. Buscan a Francisco Romero y lo encuentran. Es como si se alegraran de encontrar en una enciclopedia de medicina a la Madre María… La gente que elogia ciertas Historias de la literatura en diez tomos, diciendo “todo está” y “el autor lo sabe todo”, suelen señalar, en la misma frase, que hay un volumen suplementario sobre la literatura nacional, escrito por [Roberto] Giusti u otra autoridad indígena. Es como una fotografía a la que le pegaran un pedazo para añadir personas que no salieron, o un cuadro alegórico al que se le agregara, para exponerlo en Buenos Aires, las figuras de San Martín y de Belgrano. Ha de haber una edición bantú, con un tomo sobre la literatura bantú, firmado por una autoridad caníbal, desnuda y retinta”.

1955
Martes, 14 de junio. Hablamos de Proust. Yo le dije que lo que me parecía muy acertado en Proust era la inseguridad de la posición -social, económica- de la gente. “En la primera parte de una frase -exageré- se insiste sobre la solidez de una persona; en la segunda parte, se muestra un precipicio por el que esa per-
sona puede desmoronarse. Se muestra la fragilidad de las fortunas, de las posiciones sociales”. Borges: “Sí, está muy bien. Muestra los seres dependiendo unos de otros. Describe una sociedad en la que todo tiene importancia, en la que los seres pueden progresar o hundirse por acciones aparentemente intrascendentes. Pero la describe con perspicacia”. Bioy: “Una sociedad horrible frecuentemente es el tema de los novelistas franceses actuales, pero estos libros modernos dan una impresión de sordidez; Proust, no”. Borges: “En Proust siempre hay sol, hay luz, hay matices, hay sentido estético, hay alegría de vivir”.

Jueves, 15 de diciembre. Comen en casa los Mallea, Gustavo Casares, Alicia Jurado, Borges. Gustavo ponderó a España: “Qué lujo. Y qué miseria. En la iglesia de no sé qué pueblito, había que ver la plata del altar y las diademas de la virgen y uno salía ¡y qué miseria! La gente no había cambiado: era la misma del tiempo del Greco. Había un cura flaco, vestido de negro, y seguido de otro cura, de colorado, y de no sé cuántos monaguillos. Y estaban -están por todas partes en España- los enanos y las meninas de Velázquez: los quasimodos más horrorosos. El dominio de la iglesia es impresionante: tienen a la gente en un puño, se meten en todo y embuchan el dinero”. Borges: “Enumera horrores como si fueran ventajas y virtudes”. Helenita Mallea: “A María Elena Walsh la corrieron porque bajó de pantalones. Qué maravilla un pueblo que conserva así la manera de ser”. Borges: “Entre los esquimales encontrará aún más prejuicios”. Helenita: “No me hable de esquimales: viven en lugares fríos y a mí el frío -brrrrr- me horroriza”. Hablaron de lugares en donde uno viviría; yo mencioné Inglaterra, Francia, Italia, Suiza, España; Borges estaba de acuerdo: Inglaterra, Suiza, España le gustaban para vivir, pero “¿quién puede vivir fuera de Buenos Aires?”, agregó.

1956
Sábado, 18 de agosto. Comen en casa Borges y [José] Bianco. Borges comenta el discurso de Aramburu, en Salta. Dice que lo aplaudieron mucho cuando declaró que los militares no debían gobernar. Borges: “Este aplauso: ¿no es una gaffe? ¿Cómo aplaudir su opinión sin sugerir que él, como militar, no debe estar en el gobierno? Evidentemente, el lenguaje de los aplausos es demasiado tosco para expresar tales matices”. Le conté que los bolivianos (según la fama) responden los vivas o mueras con el grito de “¿Por qué no?”. Borges se rió mucho y propuso otras fórmulas para muchedumbres: “Tal vez” o “Hipótesis atendible”. También dijo: “Parece que un general, que estaba conspirando, se alegró mucho cuando un general lo arrestó. Aspiraba a ir a la presidencia; ahora va a la cárcel, muy contento porque tuvieron la atención de mandarle un general. Qué suerte que sea un imbécil”. En el Buenos Aires Herald dicen que este fiero general estaba borracho cuando lo apresaron; alguien, que lo conocía, observó: “Ha de ser cierto. Se emborrachó para sacarse el miedo”. Borges: “A lo mejor va a seguir contento cuando lo fusilen. Aunque no lo fusilarán: esos fusilamientos han puesto tan triste a todo el mundo. Antes no se fusilaba, solamente se torturaba”.

Miércoles, 18 de julio. Me habla la madre de Borges: Martínez Estrada atacó a Borges, llamándolo “turiferario, vendido y envilecido”, porque ha elogiado al gobierno. él se queja, con orgullo, de su pobreza, que le impide fumar… Parece que Borges piensa contestar impersonalmente, con respeto por el escritor. ¿Por qué esa ficción, si sabe que es un hombre equivocado y tortuoso?

Domingo, 22 de julio. Borges: “En una reunión el conde pederasta y escritorzuelo Witold Gombrowicz declara: Yo voy a decir un poema. Si en cinco minutos nadie propone otro tendrán que reconocer que soy el más gran poeta de Buenos Aires”. Recita:
Chip Chip llamo a la chiva
(Scherzo, no desprovisto de ironía, porque chip chip se usa para llamar a las gallinas)
mientras copiaba yo al viejo rico
(parte descriptiva. No significa -aclara Borges- “remedaba yo al viejo rico” sino “copiaba a máquina lo que el viejo rico dictaba”).
Oh rey de Inglaterra ¡viva!
(Castañeteos. Exaltación patriótica)
El nombre de tu esposo es Federico.
(Dénouement aristotélico).
Córdova Iturburu trató de leer algo, pero no encontró las papeletas. Gombrowicz se declaró rey de los poetas.

Miércoles, 12 de diciembre. Habló de Roberto Arlt: “Era muy ingenuo. Se dejaba engañar por cualquier plan, por descabellado que fuera, para ganar mucha plata, a condición de que hubiera en él algo deshonesto. Por ejemplo se interesó en el proyecto de instalar una feria para rematar caballos, en Avellaneda. El verdadero negocio consistiría en que clandestinamente cortarían las colas de los caballos, venderían la cerda y ganarían millones. Era comunista: se entusiasmó con la idea de organizar una gran cadena nacional de prostíbulos, que cos tearían la revolución social. Era un malevo desagradable, extraordinariamente inculto. No sabía hacer absolutamente nada. Me explicaron que sólo en El Mundo supieron aprovecharlo. Le encargaban cualquier cosa y después daban las páginas a otro para que las reescribiera. Dicen que reuniendo sus aguafuertes porteñas, que son trescientas y pico, podría hacerse un libro extraordinario. Imaginate lo que será eso. Las escribía todos los días, sobre lo primero que se le presentaba. Menos mal que algún otro las reescribió. Me aseguran que después se cultivó, leyó a Faulkner y todo eso lo demostró en un artículo de dos páginas, algo magnífico, en que estaba todo. “Sobre la crisis de la novela”: qué título. Ya te podés imaginar la idiotez que sería eso. Lo que pasa, según Arlt, es que la gente no comprende lo que es la novela, por eso hay crisis de novelas. En la novela cada personaje debe tener un destino claro, como el destino del tigre es matar. ¿Te das cuenta? Tiene que valerse de un animal para significar la sencillez del destino. Más que personajes describiría muñecos”. De Ricardo Molinari dijo: “Amenazó con no seguir escribiendo si no le daban el premio de poesía. Si no le daban el premio, ya verían, él se declararía en huelga y todo el mundo saldría perjudicado”. De Guillermo de Torre dijo: “Recorrió América. No trae de todo el viaje una experiencia memorable, una frase quotable [citable]. Mero énfasis. ¿Se interesó por el papiamento? No. Visitó la Casa de España y el centro de Profesores. únicamente trajo esta observación sobre [Alfonso] Reyes, no sé si memorable: Se ha dejado crecer la barba. Como es de estatura tan baja, parece un gnomo”.

1957
Viernes, 14 de junio. Borges me refiere: “Durante la comida, continuamente Mujica Láinez venía de su asiento a nuestra parte de la mesa. El propósito de estos viajes, que Mujica no ocultó, era tocar la nuca de un muchacho que lo emocionaba. “Se parece a Belgrano”, exclamó Mujica Láinez. “¿Usted, Manucho, admira a Belgrano?”, preguntó Wally Zenner. “¿Cómo no voy a admirarlo? -replicó-: con esos muslos y con esas caderas”. Borges comentó: “Va Ma-
nucho al Museo de Luján y todas las antiguallas reviven. Manucho no mira los cuadros fríamente; es un contemporáneo de lo que está mirando”.

Lunes, 2 de septiembre. Me refiere que Miguel, su sobrino, compró en estos días una segunda biografía de Gardel, de quien es muy devoto. “Ay -exclamó Miguel-, qué golpe. Se llamaba Gardez y había nacido en Provenza”. Borges: “Le contesté que hubiera sido peor que fuera bávaro, o belga, o suizo; que uno pudiera preguntarle: ¿De qué cantón es usted?”. Bioy: “Sin duda il roulait les erres” (en alusión a cómo pronuncian la erre en el sur de Francia). Borges: “Nunca lo vi. Una vez fui con Mastronardi a un cinematógrafo, a ver La batida, con George Bancroft; anunciaron que Gardel iba a cantar al final: nos fuimos sin oírlo, porque no queríamos que el efecto del film se nos arruinara”. Yo dije, y mi padre confirmó, que durante mucho tiempo Gardel cantó vestido de gaucho. Era la época de Gardel-Razzano. Mi padre: “De aspecto, Razzano, a pesar de las dos zetas, era un poco mejor”. Borges: “La cara de Gardel era la típica cara del otario. Malevo, sí, pero malevo sonso. Quien tenía ese mismo tipo de cara, estúpida y abundante, era Florencio Sánchez. Una vez, por cuestiones políticas, detuvieron a un grupo de personas, entre las que estaba Florencio Sánchez. El vigilante lo miró y le dijo: “Vos no. Tenés demasiada cara de otario”. Bioy: “A mí, Gardel nunca me gustó mucho como cantor de tangos. Lo vi y no me dejó ningún buen recuerdo; más me gustaron Azucena Maizani, Sofía Bozán, Rosita Quiroga. De los cantores de antes me gustaba Alberto Vila: cantaba admirablemente “Agua florida”. Hablamos de la posibilidad de hacer una biografía de Gardel, en la que se dijera cosas inconvenientes, como sin darse cuenta (que era provenzal, un troubadour, que se llamaba Gardez, que era el zorzal francouruguayo, etcétera). […]

Miércoles, 25 de septiembre. Borges me dice que el actor [Francisco] Petrone le ha propuesto que hagamos un libreto para filmar el Martín Fierro. Borges: “Tenemos que escribir hacia el tema, no desde. Hay que empezar con algo que muestre que no seguimos el libro, para que el espectador no haga comparaciones. No podemos mantener los versos, porque si no el film parecerá una ópera. Tal vez al final pueden ponerse algunos versos”. Bioy: “Casi fuera del film. Casi a Hernández, en su hotel. Que el film se acepte como la vida de Martín Fierro, que luego versificó Hernández. Nadie cree que esa vida, de ser real, pudo transcurrir en verso”.

Borges: “Es mejor esto que si nos proponen Don Segundo. En Don Segundo todo se reduce a movimientos de hacienda, de acá para allá. Y después está esa relación desagradable entre don Segundo y el relator… Si aceptamos la proposición vamos a tener que trabajar en serio”. Bioy: “Desde luego. No como para los cuentos de Bustos Domecq, últimamente, que trabajábamos muertos de sueño, una noche por mes”. Borges: “Podríamos ir a tu estancia. Podría tal vez filmarse allá algunas tomas. Es mejor describir el campo por fotografías que por frases. Se muestra un ombú y no debe uno escribir la palabra”. Bioy: “No debemos parecernos a Dávalos”. Borges: “Es una lástima que no podamos limitarnos a la Ida”.

Jueves, 26 de septiembre. Hablamos del film sobre Martín Fierro. Borges: “Podríamos empezar un poco antes que el poema”. Bioy: “Las escenas de felicidad, con la china, y cada cual levantándose de mañana a buscar su caballo, en un film nacional, pueden ser muy tontas”. Borges: “Los versos son lindos, pero la escena… es casi la granja modelo. Una solución, serían los dibujos animados”. Mi padre: “Es claro: “Venía la carne con cuero,/ la sabrosa carbonada” y se la ve avanzar por sus propios medios”. Borges: “Se ve a Fierro como un gallo montado en un chancho. Otro problema son los indios”. Bioy: “Aunque el país está lleno de gente aindiada, en nuestro film se les verá el tizne”. Borges: “Petrone dijo: ‘Hay que mostrarlos como sombras’”. Bioy: “La vida en la frontera, será, entonces, una vida ociosa”. Borges: “O si no podemos sugerir que todo lo importante ocurre en los márgenes de la pantalla. ‘Voy a pelear con los indios’. ‘Vengo de pelear con los indios’”. Silvina: “Para indio tienen a Susana Bombal. Martínez Estrada sirve para Martín Fierro”.

Borges: “Para Cruz no sabríamos por quién decidirnos. ¿[Los editores Gonzalo] Losada o [de Sudamericana, Antoni] López Llausás?”. Bioy: “Podrían aprovecharse los pieles rojas de una película norteamericana”. Borges: “Es claro. Hacer una suerte de centón. Tal vez convendrían más los esquimales, porque la gente no los reconocería como pieles rojas. Para el Viejo Vizcacha -el personaje filosófico que interesa a Petrone, ¡qué idea de la filosofía!- habrá algún putito de la sade. Y con Sábato, ¿qué hacemos? Me han dicho que está pobrísimo. Traté de compadecerlo pero no puedo: es difícil compadecerse de Sábato”. Silvina: “¿Y qué tal es, como persona, Petrone? ¿Es antipático?”. Borges: “Antipático, no, pero la conversación con él está llena de desencuentros. En realidad, va a ser muy difícil de hacer el film. Pensá: cuando se vea el ejército, la bandera argentina, y la gente tratando de huir para que no la enganchen. Va a parecer un ataque contra el ejército, en favor del Descamisado…”.

Bioy: “La posibilidad está en el libro”. Borges: “Habría que mostrarlo a Fierro como a un hombre a quien el azar de las circunstancias va convirtiendo en criminal y después se le descorre el velo, comprende lo atroz de su destino y habla. Un personaje de Bernard Shaw es nuestra única posibilidad. Los consejos que da, entonces, deben ser verdaderos, no como los que da el libro, tan de ocasión. De todos modos, no veo cómo vamos a evitar que se vea ese destino como el de un peronista perseguido por la sociedad y el ejército: se verá al ejército en un mal papel y se pensará que es un ataque al ejército de hoy”. Bioy: “Habría que mostrarlo en un mundo tan duro que no se tome como metáfora de otro”. Borges: “Sería un mundo muy duro”. Bioy: “Mostrar un destino individual. Como en las novelas de Faulkner”. Borges: “Sí, hechos que ocurrieron una sola vez; esa sola vez”.

1958
Sábado, 2 de julio: Leemos cuentos para el concurso. Borges: “Cuántas formas del error”. De un cuento: “Con qué minuciosidad y complejidad explica cosas desprovistas de toda importancia”.

1960
Domingo, 6 de noviembre. Come en casa Borges. […] Dice: “Strindberg es pésimo. ¿Cómo pueden compararlo con Ibsen? Una vez, Strindberg publicó la descripción de un almuerzo; su anfitrión, desesperado por el retrato que de él se presentaba, se suicidó. Es que un artista no se resigna a contar exactamente cómo fue un almuerzo en una casa burguesa. Inventa algo”.
Octavio Paz envió a “Sur” un poema de amor, con el verso
tus pedos estallan y se disipan.
Borges: “Se verá a sí mismo como un conquistador de nuevas regiones para la poesía… Qué regiones”. Bioy: “Menos mal que se disipan”. Borges: “Si no, serían esos pedos sin ruido y sin olor, de que hablan los chicos; la idea abstracta… Mejores son los versos de Quevedo

La voz del culo que se llama pedo

Poesía didáctica. Versos de tono explicativo. O aquello de el pedo, ruiseñor de los putos.
¿Vos creés que Quevedo sabía tan poco de putos que imaginaba que para ellos el pedo era una suerte de reclamo, que usaban para llamarse unos a otros? ¿O en las calles se oyen fusilerías de pedos, reclamos de putos llamando a putos? O más bien quiso indicar que eran una voz dulcísima, pronunciada por la parte que les interesaba… On ne peut pas y aller plus loin en vulgarité (no se puede llegar más lejos en la vulgaridad). Una palabra tan noble como ruiseñor, perdida entre pedo y putos. Está escrito con mucha rabia, contra alguien. Les tendría rabia a los putos… Qué bien que una cosa pueda elogiarse por su fealdad. Sin duda la línea es superior al contexto. Quevedo llamaba al culo sima barbada”.

Sábado, 31 de diciembre. Come en casa Borges. Brindamos con champagne. Después de comer, Borges y yo vamos a la ventana de la sala de Silvina, a esperar las doce. Borges: “Esperamos algo que no sabemos bien en qué consiste”. Miro los árboles y los senderos de la plaza, la estatua de Alvear y pienso en la máquina del tiempo de Wells y en que todos somos unas máquinas de tiempo de vuelo de ave de corral. “Qué raro -comenta Borges- que en tantos años como viví no hubiera un momento en que yo haya estado más adelante en el futuro que ahora”.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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