Em Lisboa chateie o Camões, em Buenos Aires, vá cantar ao Gardel! Quem disse isso? Alguém com poucas pulgas, ora!
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Em Lisboa chateie o Camões, em Buenos Aires, vá cantar ao Gardel! Quem disse isso? Alguém com poucas pulgas, ora!

arielpalacios

26 de outubro de 2010 | 22h09

De Gardel a Camões, uma Pulex irritans incomoda muita gente. Muitas Pulex irritans incomodam muito mais.  Ilustração de uma pulga no livro “Micrographia”, do físico, biólogo, geólogo e arquiteto inglês Robert Hooke (1635-1703).

Caras e caros, aqui está nossa periódica coluna sobre as expressões idiomáticas usadas na Argentina (e de aplicação em outros países hispano-falantes).

Andá cantarle a Gardel (Vá cantar ao Gardel): A frase literalmente indica que o interlocutor vá até o cantor de tangos Carlos Gardel e cante para ele. No entanto, é uma ironia, já que a verdadeira mensagem – ao enviar a pessoa ao Gardel, morto desde 1935 (além do paradoxo de cantar para o emblemático cantor do tango) – é “vá reclamar a outra pessoa”, também podendo equivaler a “vá ver se estou na esquina”.

A frase é muito usada no contexto de incredulidade da pessoa “A”, que considera inverossímil (ou insuportável) algum comentário da pessoa “B”. Por isso, “A!” diz a “B” que vá cantar para o famoso intérprete de “Anclao en Paris” e “Mi Buenos Aires querido” (além do divertido fox trot “Rubias de New York”).

Gardel, Carlos. O emblemático cantor de tangos. Ele morreu em 1935. Mas, seus admiradores afirmam que “Gardel cada día canta mejor” (Gardel cada dia canta melhor).

 O “andá a cantarle a Gardel” também seria equivalente à expressão usada em Lisboa “vá chatear o Camões”, em alusão ao poeta zarolho lusitano Luís Vaz de Camões. Evidentemente, o chatear em questão equivale a “encher” e nada tem a ver com manter um chat com o autor do verso “as armas e os barões assinalados que, da ocidental praia lusitana, por mares nunca de antes navegados passaram ainda além da Trapobana”.

Falando em Trapobana, o “andá a cantarle a Gardel…” equivaleria (se alguém dissesse algo assim) a “vá para a Taprobana cantar um fado à Amália Rodrigues e aproveite e cate coquinho na ladeira do Chiado quando desce para o Rossio”, ou ainda o “vá para a Bessarábia” (anos 50 e 60, usado no Brasil). Ou o clássico dos clássicos, “vá para a Cochinchina”, isto é, quando se expressa o desejo de que o interlocutor visite as terras outrora colonizadas pela França e que agora ocupam as áreas meridionais do Vietnã e do Cambodja.

Dentro do círculo vermelho a tão famosa Cochinchina, para onde foram enviadas tantas pessoas ao longo de décadas!

 O “Andá cantarle a Gardel”, no entanto, não possui grau de agressividade elevado, já que contém alta ironia.

Outras expressões que expressam que o interlocutor rume para algum lugar específico possuem cargas agressivas mais elevadas.

É o caso do insulto de convite imperativo “Andá a la puta que te parió!” (equivalente em 100% ao “Vai para a puta que te pariu” aplicado cotidianamente no Brasil e outras terras luso-falantes). Este carece da ironia utilizada no “Andá a cantarle a Gardel”.

O “Andá a la puta que te parió” pode ser tonificado com um reforço não obrigatório. Desta forma, transforma-se na expressão ampliada “andá a la puta que te parió, boludo (para mais explicações sobre o ‘boludo’, ver aqui).

É preciso destacar que o uso do “boludo” aqui aplicado não é uma obrigação (cara/caro leitora/leitor não sinta-se induzido ou forçado a ampliar a expressão original, pois já dizia o brilhante arquiteto Mies van der Rohe “less is more”) nem é o único insulto que pode ser colocado após a vírgula. Existe uma miríade de possibilidades no universo dos epítetos. Outra alternativa é o “andá a la puta que te parió, zopenco” (zopenco equivale a “tonto” e é pouco usado atualmente… mas é sempre uma ocasião de recuperar este insulto, que pode ser encarado como ‘vintage’, não é?). Uma alternativa mais atual (no entanto com menos glamour) é o “andá a la puta que te parió, repelotudo“. Sobre esta palavra, recorra à postagem de meses atrás sobre o “Boludo”. Ali encontrará mais referências sobre o pelotudo e o repelotudo (a segunda palavra é na verdade, uma versão anabolizada da primeira palavra).

Enquanto que em Buenos Aires o insulto de convite imperativo é “vá cantar ao Gardel”, em Lisboa é “vá chatear o Camões”. Acima, o autor dos “Lusíadas”.

 A expressão “andá a la puta que te parió, boludotambém pode ser novamente tonificada da seguinte maneira: “andá a la puta que te parió, pedazo de boludo.

Neste caso a pessoa “A”, que dirige a palavra ao interlocutor, isto é, a pessoa “B”, reforça seu desejo com a palavra “pedazo” (pedaço), que especifica mais ainda o “boludo” em questão.

Paradoxalmente, a frase fica mais sonora e enfática, embora o “pedazo de boludo” indique que não se trata de um boludo 100%, mas sim, um boludo parcial.

Isto é, segundo algumas teorias, poderia significar uma ironia, já que algumas correntes filosóficas indicam que um boludo não pode ser parcialmente boludo. Ou é boludo ou não é boludo. Eu, pessoalmente, discordo de tais posições ortodoxas e considero que podem existir boludos ma non troppo.

De quebra, o “andá…” pode ser também aplicado com uma versão inquisitiva, o “porque no te vas a la puta que te parió?”. Neste caso, a pessoa “A”, em vez de mandar – com o verbo no imperativo (tal como nos anteriores exemplos) – a pessoa “B” para o lugar determinado, ela opta por perguntar se por acaso não iria a esse lugar.

A pergunta é meramente retórica, já que a pessoa “A” não tem curiosidade sobre a eventual ida de “B” à “puta que te parió”. É uma ironia, no fundo.

Ludwig Mies van der Rohe (1886 – 1969) tinha a teoria de “less is more” (menos é mais). No entanto, a arte dos epítetos (especialmente a dos convites imperativos) vai na contra-mão do autor de obras como a “poltrona Barcelona” e a “Farnsworth House” e prefere um modo mais rococó para os insultos.

Ser de pocas pulgas (Ser de poucas pulgas): Pessoa que não suporta que coisa alguma a incomode. A expressão refere-se a alguém que não suporta qualquer incômodo, neste caso as pulgas, mesmo que sejam poucas Pulex irritans, estas irritantes representantes da ordem das Siphonaptera.

Sacar los trapitos al sol (Colocar os trapinhos no sol): Esta é a expressão equivalente na Argentina e outroas países hispano-falantes a “lavar a roupa suja fora de casa”. Utilizada principalmente para aqueles casais ou parentes que discutem em voz alta, divulgando em público características ou fatos comprometedores dos protagonistas. Curiosamente, a frase em português parece referir-se ao ato da lavanderia, enquanto que no caso em espanhol trata-se da colocação da roupa (trapitos, em tom despectivo) no varal para secar.

   E já que falamos em cantar ao Gardel, nada melhor que o Gardel cante para a gente.

“Chorra” (Ladra), um irônico relato sobre uma picareta (que por seu lado era filha de pai e mãe picareta!), aqui.

E o pouco conhecido “Micifuz”, aqui.

E deixando Gardel de lado, passamos para Osvaldo Pugliese. Com sua orquestra, “Derecho Viejo”. Genial Pugliese, cuja foto é levada por milhares de portenhos como “amuleto”. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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