Estudantes rebelam-se contra oposição e governo
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Estudantes rebelam-se contra oposição e governo

arielpalacios

22 de setembro de 2010 | 21h15

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Ruínas ilustradas por Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), o batuta artista italiano do settecento. As escolas portenhas não estão muito longe disso.

blog1dedo2bEstudantes do ensino médio e superior protagonizaram nas últimas semanas inéditos protestos simultâneos contra o prefeito Maurício Macri, da oposição, e do governo da presidente Cristina Kirchner. Na terça-feira da semana passada os estudantes bloquearam vinte ruas em diversos pontos da capital argentina para manifestar-se contra o que denominam de “péssimas condições” da estrutura dos edifícios de escolas e faculdades em Buenos Aires.

Além de colapsar o trânsito portenho, os estudantes ocuparam ao longo dos últimos 38 dias um total de vinte e oito escolas, quatro faculdades e outras seis instituições educativas.

Em um comunicado, a Federação Universitária de Buenos Aires (Fuba) afirmou que a crise da educação pública é responsabilidade do governo municipal e federal.

Os estudantes reclamam do péssimo estado dos antigos edifícios das escolas e faculdades portenhas, a maioria das quais são edifícios neo-clássicos construídos na primeira metade do século vinte.

Segundo eles, desde o início deste ano houve queda de forros dos tetos de escolas, somados à vários anos acumulados de goteiras a granel, a ausência de aquecimento em meio dos piores invernos dos últimos tempos, ausência de quadros-negros e giz, entre outros problemas.

O prefeito Macri prometeu um plano de obras para as escolas, mas os estudantes, céticos, afirmam que não acreditam em suas promessas.

No meio da crise dos estudantes, Macri viajou à Roma, deixando seus secretários a cargo de um conflito que continuou sua escalada. O prefeito só voltou à cidade depois que um desabamento em uma discoteca causou a morte de suas adolescentes. Para complicar, em vez de telefonar às famílias das vítimas, o prefeito enviou condolências via twitter. Moderno, mas pouco adequado no meio de um luto.

A personalidade – e psique – do prefeito foi foco de debates no último mês. Gabriela Cerruti, autora de “El Pibe” (O Garoto), biografia não-autorizada do prefeito, sustenta que Macri “não passa de um homem que quis ser empresário de sucesso, fracassou, e refugiou-se no Boca Juniors e na política para fugir do pai todo-poderoso”. O pai em questão é o empresário Franco Macri, ícone do capitalismo argentino dos anos 90. Macri senior afirmou recentemente que tem afeto pelo filho…mas prefere votar nos Kirchners.

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TIRO CONTRA – A presidente Cristina Kirchner – cuja psique também é foco de debates há alguns anos – também tornou-se alvo das manifestações estudantis na semana passada, quando tentou aproveitar a ocasião para criticar Macri – um dos líderes da oposição – ao declarar “respaldo” aos estudantes.

Os analistas políticos destacaram que o plano da presidente era o de ter influência no novo movimento estudantil, onde a estrutura do governista Partido Justicialista (Peronista) é fraca (no movimento estudantil predominam os partidos da esquerda tradicional, que consideram os Kirchners meros ‘burgueses’ e os militantes estudantis da União Cívica Radical, de centro).

No entanto, o efeito do respaldo da presidente Cristina foi oposto ao que ela previa, já que os líderes estudantis declararam que Cristina Kirchner não os representa. A partir dali, a presidente também começou a ser alvo de críticas dos estudantes.

Alejandro Lipcovich, um dos presidentes da Federação de Estudantes da Universidade de Buenos Aires (Fuba), disparou contra o governo do casal Kirchner: “Néstor Kirchner teve que fazer um comício fechado lá dentro do Luna Park…nós podemos nos manifestar nas ruas, nas praças. Cristina Kirchner faz demagogia barata. Eu digo para a presidente: ‘cala a boca!’.

O chefe do gabinete de ministros do governo Kirchner, Aníbal Fernández, confirmou – irritado – sua oposição à mobilização dos estudantes que ocupam escolas e faculdades: “continuou pensando que essas ocupações não servem para nada”.

A Coordenação de Estudantes Secundaristas (Cues) realizou na quinta-feira uma marcha de protesto que reuniu 40 mil jovens na avenida de Mayo.

Nesse dia comemoraram-se os 34 anos da “Noche de los lápices” (Noite dos lápis), denominação da operação militar, no primeiro ano da ditadura, de sequestro, tortura e assassinato de alunos de segundo grau. Os estudantes haviam sido torturados e assassinados por pedir a redução das tarifas de ônibus para estudantes.

Em meio à crise na cidade de Buenos Aires – e com a imagem pública em queda – o prefeito Macri, do partido de centro-direita Proposta Republicana (Pro) confirmou que será candidato presidencial nas eleições do ano que vem.

Nesta quarta-feira os estudantes tomaram o Colégio Nacional Buenos Aires, o principal da Argentina.

GRADES ANTI-TEENAGERS – Nesta quinta os estudantes secundaristas, junto com setores universitários, realizaram mais marchas de protesto na capital do país. Uma delas foi feita na frente do Ministério da Educação. Ali, no final da tarde, os alunos – principalmente liderados pelos estudantes do Colégio Nacional Buenos Aires, de tendência de esquerda – protestaram contra Cristina Kirchner. Diversos alunos ostentavam cartazes com dizeres alusivos ao estilo “Louis Vuitton” da presidente argentina.

A manifestação foi pacífica. No entanto, o ministro Alberto Sileoni recusou-se a receber os estudantes. O edifício foi protegido dos adolescentes por carros de jatos d’água da Polícia Federal e grades para impedir o acesso dos jovens.

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blogvinhetaanjoscorneta1 E já que falamos dos estudantes, um clássico de Mercedes Sosa sobre estes jovens:

“Me gustan los estudiantes”aqui. 

Outra versão dessa canção escrita pela poetista e cantora chilena Violeta Parra. Nesta caso, por um grupo de Puerto Rico (com um ritmo mais ‘caribenho’). Aqui. 

blog1vinheta71bE Piazzolla, em polonês, por Marta Górnicka, cantando “Ciudades”, aqui. 

 Os tangos em polonês não ficam bem? Aqui.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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