Evita, ícone pop que virou camiseta e musical, sopraria 90 velinhas
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Evita, ícone pop que virou camiseta e musical, sopraria 90 velinhas

arielpalacios

07 de maio de 2009 | 05h17

Se Eva Duarte de Perón estivesse viva, sopraria 90 velinhas nesta quinta-feira, dia 7 de maio. Mas, sua curta vida foi interrompida em 1952 por um devastador câncer. A figura de Evita ainda gera polêmica entre os argentinos, embora cada vez menos. Seu túmulo no cemitério da Recoleta é visitado majoritariamente por turistas estrangeiros.

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Umas das imagens preferidas de Evita pela esquerda peronista

Desde os anos 60 ela é símbolo de “rebeldia” para a esquerda peronista. Sua efígie está presente nas passeatas desses setores em faixas e cartazes. No entanto, nessas ocasiões aparece na versão mais “simples”, sem os vestidos de luxo e sem as jóias que costumava ostentar.

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Um casal de arromba: Evita, com Perón, em retrato oficial

Mas, enquanto esteve viva foi identificada com o Fascismo. Ela apoiou enfáticamente o regime de extrema direita do ditador espanhol Francisco Franco, entre outras ditaduras totalitárias.
Além disso, colaborou com seu marido, o presidente Juan Domingo Perón, a receber criminosos de guerra nazistas, nos anos seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial.

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Evita respaldou o regime de extrema direita de Franco

De quebra, Evita ajudou Perón na desarticulação dos sindicatos socialistas. Ela tornou-se na “protetora” do sindicalismo peronista, que costuma – ainda hoje – apresentar-se como uma “terceira via” entre o “capitalismo yankee” e o “marxismo ateu”.

Evita criou uma fundação, a Fundação Eva Perón, com a qual ajudou centenas de milhares de pessoas com problemas financeiros, de moradia e de saúde.
Seus críticos indicam que ela aplicou políticas assistencialistas, mas nada fez para mudar as estruturas. Seus defensores afirmam que ela, pelo menos, ao contrário de muitos políticos, forneceu ajuda aos setores pobres da população.
Seus críticos retrucam e sustentam que as ajudas dadas aos pobres eram com produtos confiscados de empresas privadas. Seus defensores dão a tréplica e afirmam que os confiscos eram justificáveis, já que as empresas lucravam graças aos baixos salários de seus empregados.

Peronistas de todo tipo tentaram usar a imagem de Evita. O neo-liberal ex-presidente Carlos Menem citava Evita como exemplo a seguir. A presidente Cristina Kirchner cita Evita como exemplo a seguir.

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Cristina Kirchner tenta emular gestos de Evita

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A colombiana Ingrid Betancourt, que nunca pretendeu ser Evita; Cristina Kirchner, que cita Evita constantemente, e Madonna, que lucrou muito graças a Evita

Não somente políticos usaram Evita. Ela também transformou-se em produto comercial. Nas últimas três décadas a temperamental e passional esposa de Perón virou musical, filme (baseado no musical), camiseta, caneca, pôster e até chaveiro. Por enquanto, não se transformou em sabão em pó. Mas, nunca é tarde demais.

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Como sacolejar o esqueleto ao ritmo do musical Evita

“Voltarei e serei milhões”. A lenda diz que Evita pronunciou essa frase segundos antes de morrer. Os “milhões”, indicava o mito, eram os milhões de trabalhadores que viriam reclamar suas conquistas. Mas, na realidade, transformaram-se nos milhões de dólares gerados anualmente por este ícone pop.

MITOS E FATOS:
– Evita não era pobre, como diz a lenda. Sua mãe era a dona de uma pensão na cidade de Junín, na província de Buenos Aires. Viviam de forma austera, mas digna.

– O mito divulgado pelos opositores de Evita indica que ela prostituía-se nos primeiros anos em Buenos Aires. Mas, não existe prova alguma disso.

– Evita não liderou as massas para liberar seu namorado, o então coronel Juan Domingo Perón, detido em 1945 pelo governo militar que integrava (e que temia a crescente popularidade do então denominado “Coronel Kolynos”, por seu permanente sorriso). Após a prisão de Perón, ela refugiou-se na casa de sua mãe, em Junín.

– Evita nunca pronunciou a frase “volveré y seré millones” (voltarei e serei milhões). A frase é apócrifa. Mas, poderia encaixar-se bem na categoria de “se non è vero è ben trovato”, pois adapta-se bem à personalidade da “Mãe dos Pobres”.

– O mito diz que quando ela estava morrendo de câncer, apareceram pichações nos muros de Buenos Aires (e especialmente nos arredores da residência presidencial) com a frase “Viva el cáncer” (Viva o câncer). Não seria uma atitude estranha por parte dos opositores de Evita, que a detestavam. Mas, não há registros sobre a existência dessas pichações. As versões sobre esses grafitos surgiram anos após a morte de Evita.

– O mito, divulgado pelos opositores de Eva Perón, sustenta que ela tinha uma fortuna no exterior, mais especificamente, em bancos suíços. No entanto, apesar das investigações realizadas, nenhuma conta bancária foi encontrada em terras helvéticas.

– Evita, ao contrário do que mostra o musical e filme “Evita”, jamais conheceu o argentino Ernesto ‘Che’ Guevara, transformado em líder guerrilheiro em Cuba anos após a morte de Eva Perón. O Che, inclusive, considerava Evita e seu marido políticos de ‘direita’. E, até considerava que o casal era ‘proto-fascista’.

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Guevara, que não gostava de Evita, teve o mesmo destino da compatriota argentina: transformou-se em todo tipo de produto comercial. Até virou restaurante, o Chef Guevara

– Durante anos, no exterior, existiu o mito de que em cada lar operário argentino havia um “altar” com a foto de Evita e velas acesas embaixo. Isso ocorreu em muitas casas de pessoas pobres após sua morte em 1952. Mas, esse ‘altar’ nunca foi prática generalizada. E deixou praticamente de ser visto a partir dos anos 90.

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Livro disseca imagem de Evita

SEGUNDO SOCIÓLOGO, EVITA ERA ‘A MULHER DO CHICOTE’
Um dos principais sociólogos da Argentina, Juan José Sebreli, publicou recentemente “Cômicos e Mártires – Ensaio contra os mitos”, livro que desatou intensa polêmica, já que nele ousa intrometer-se com os maiores – e intocáveis – mitos da História argentina. O livro – que na Espanha recebeu o prêmio Casamérica – analisa o fenômeno dos mitos do ex-astro do futebol Diego Armando Maradona; o cantor de tangos Carlos Gardel;o líder guerrilheiro Ernesto ‘Che’ Guevara, e a “Mãe dos pobres”, Evita Perón.

“Evita exaltou, de forma significativa, a subordinação da mulher ao homem”, disparou Sebreli, enquanto bebia um ‘cortado’ no café ‘El Olmo’. Durante a entrevista que lhe fiz em fevereiro, ele torpedeou o mito de Evita como paladina do gênero feminino. “Além do voto para as mulheres, ela jamais pensou em reivindicações feministas essenciais, como, por exemplo, o divórcio e a despenalização do aborto”, disse.

Evita é sustentada como mito tanto pela direita como pela esquerda, explicou Sebreli, que indicou que “embora em seu discurso estivesse do lado dos operários, ela respaldou de forma enérgica a repressão às greves realizadas contra o governo de seu marido. Evita, longe de ter sido uma defensora dos operários, ajudou na domesticação do sindicalismo argentino. Ela era a perseguida e a perseguidora, a mulher do chicote”.

Sebreli afirma que, ao contrário da lenda, Evita nunca esteve na mobilização de trabalhadores que no dia 17 de outubro de 1945 foi às ruas pedir a liberação do então coronel Juan Domingo Perón, detido por seus colegas militares. “Evita era ninguém, só era a amante de Perón…Essa imagem dela liderando as massas naquele dia decisivo apareceu anos depois. É preciso desmascarar isso. Evita estava naquele dia na cidade de Junín, com seus parentes”.

“Perón não é mito. Ele é figura histórica. Ninguém se interessa profundamente em Perón hoje em dia, a não ser que seja um historiador. Mas, todos conhecem Evita. É seu jeito de ser, o look. E, de quebra, ainda está ali o musical e o filme sobre o musical. Perón foi um político, mas Evita foi o ornamento estético do fenômeno político do Peronismo. Veja bem: um ornamento estético muito importante”, explica.

Segundo o sociólogo, “Perón pode ser discutido hoje em dia. Mas, Evita é intocável.Quase o mesmo caso do Che e de Maradona. As pessoas fazem poucas piadas paródicas sobre eles. O dia em que começarem as piadas, será o fim de seus mitos”.

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