Ex-ditador Videla: na cadeia até seu último dia de vida
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Ex-ditador Videla: na cadeia até seu último dia de vida

arielpalacios

23 de dezembro de 2010 | 08h13

 

Ex-ditador tentou argumentar – citando Santo Tomás de Aquino – que a ditadura havia feito uma “guerra justa”. Na foto, Videla – acompanhado por uma freira – em visita ao Chile, país na época comandado pelo general Augusto Ramón Pinochet. Nessa época, 1978, a ditadura argentina já havia matado 20 mil do total 30 mil desaparecidos em todo o período do regime militar, além de implantar 540 campos de detenção e tortura (dos mais diversos tamanhos) em todo o país. Paralelamente, Videla ia à missa todas as manhãs.

 ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, de 85 anos, passará o resto de seus dias na prisão. Essa foi a determinação do Tribunal Oral Federal Número Um da cidade de Córdoba, na região central do país, condenou à prisão perpétua o arquiteto do golpe de Estado que em março de 1976 implantou uma ditadura que durou sete anos, ao longo dos quais foram torturados e assassinados 30 mil civis.

O tribunal considerou Videla responsável direto de trinta e um assassinatos (camuflados na época como simulacros de fugas) e cinco torturas ocorridos em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, transformada na época em um campo de concentração de prisioneiros políticos nos primeiros meses do regime militar. Os presos haviam sido detidos meses antes, durante a democracia, antes do golpe de Videla.

Organizações de defesa dos Direitos Humanos, que haviam feito uma vigília ao longo do dia do lado de fora do edifício do tribunal em Córdoba, celebraram com estrépito o anúncio da condenação do ex-ditador. Outros 29 ex-integrantes da ditadura envolvidos nos crimes de Córdoba – entre eles o general Luciano Benjamín Menéndez – também foram condenados.

O prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, estava presente na sala do tribunal.

O julgamento trouxe à tona uma série de depoimentos dramáticos, entre eles os de David Andematten, um dos sobreviventes do centro de detenção UP1, que relatou que os militares estupravam constantemente as mulheres detidas.

Na véspera do veredicto Videla havia feito uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

 

‘O MAL EM SEU ESTADO PURO’ – María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, disse ontem ao Estado – em entrevista telefônica – que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 540 campos de concentração da ditadura”.

Seoane, autora de diversos livros sobre a História recente argentina, sustenta que Videla e seus sucessores na ditadura (os generais Roberto Viola, Leopoldo Galtieri e Reynaldo Bignone) “não foram os mentores intelectuais do golpe, mas sim o braço armado dos grupos econômicos que respaldaram o golpe militar. Eles fizeram as matanças por dinheiro, para implantar seu modelo econômico. Depois, deram uma roupagem ideológica como o ‘combate ao comunismo’ e essas coisas. Mas, no fundo, era tudo por uma questão de dinheiro”.

 

‘GUERRA JUSTA’ E SANTO TOMÁS – “Uma guerra justa, como dizia Santo Tomás de Aquino”. Com estas palavras, Videla defendeu na terça-feira a atuação de seu governo na repressão de civis considerados “subversivos” pela ditadura. Vestido como um civil, com terno jaquetão, Videla falou com voz firme durante 45 minutos no Tribunal Oral Federal Número Um. Seu discurso foi transmitido ao vivo pelos principais canais de TV do país.

Videla insistiu na teoria de que nos anos 70 a Argentina estava sendo assolada por uma  “guerra interna” provocada por “subversivos estimulados pela União Soviética”. Segundo ele, para defender “o tradicional estilo de vida dos argentinos” foi necessário apelar às forças armadas e “aniquilar” os “grupos terroristas”.

Videla argumentou que lei na época permitia “aniquilar” os “subversivos”: “me nego a aceitar a expressão ‘guerra suja’, pois foi uma guerra limpa, defensiva. Como dizia Santo Tomás, há guerras injustas e justas. E esta foi uma guerra justa”.

Videla, sem citar a censura que imperava durante seu governo e o exílio ou prisão dos opositores, ressaltou que a ditadura “contou com adesão majoritária da população, por isso não houve vozes contra

MENÉNDEZ CONTRAFÁTICO – Poucas horas antes do anúncio dos veredictos, outro dos condenados, o general Luciano Benjamín Menéndez, afirmou que há sete anos (em referência ao período em que foram intensificadas as novas investigações sobre os crimes da ditadura) a Argentina está sob a violação sistemática da Constituição. Já são sete anos de autoritarismo!”.

Menéndez, que está em prisão preventiva desde 2008, já acumulava outras quatro condenações a prisão perpétua.

O general fez um jogo de História contrafática e disse que se o Exército Revolucionário do Povo (ERP, uma guerrilha que não tinha mais de mil integrantes, dos quais apenas um terço estava armado) tivesse vencido a “guerra” contra os militares “tudo seria conduzido por um governo totalitário”. Segundo ele, “os subversivos queriam assaltar o poder para transformar a Argentina em um satélite da Rússia. A subversão tinha como objetivo a alma de nosso povo”.

Menéndez sustentou que os “subversivos” dos anos 70 estão “atualmente no poder” na Argentina.

“EL PROCESO” – Videla organizou o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou a presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como “Isabelita”. Na época o general batizou o novo regime de “Processo de Reorganização Nacionla”, popularmente conhecido como “El Proceso”. Ele governou a Argentina durante cinco anos (do total de sete da ditadura).

 

“El Turco” Julián dizia que era o Deus do circuito de centros de torturas. Deus, na ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld, 1860.

‘DEUS DA VIDA E DA MORTE’ PASSARÁ RESTO DE SEUS ANOS NA PRISÃO

 O Tribunal Oral Federal Número 2 da capital argentina condenou à prisão perpétua no final da noite da terça-feira o ex-policial Julio “El Turco” Simón, que operava no circuito dos campos de detenção e tortura de El Olimpo, Club Atlético e Banco, onde foram assassinados ao redor de 1.500 civis, entre os quais velhos e crianças. Os ex-torturadores que operavam neste circuito foram acusados de torturas, sequestros, estupros e assassinatos.

O tribunal também deu veredicto sobre outros dezesseis ex-torturadores que atuaram nesse circuito. Do total, onze foram condenadas à perpétua e quatro a 25 anos de prisão. Um dos réus, Juan “Kung Fu” Falcón, por falta de provas suficientes, foi absolvido.

A “estrela” do grupo era Simón, famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos, com a justificativa de que o fazia “pela Pátria”. Ele ficou notório por seu sadismo extremo com os prisioneiros judeus (aos quais empalava com um cabo de vassoura) e deficientes físicos (que costumava jogar do alto de uma escada).

Simón ostentava uma braçadeira com uma suástica durante as sessões de tortura, enquanto ouvia fitas de marchas alemãs e discursos de Adolf Hitler.

BANHEIRO – Durante a leitura de sua sentença Simón quis sair da sala do tribunal. No entanto, os juízes não permitiram que se ausentasse durante a leitura. Simón retrucou que necessitava ir ao banheiro: “mas estou a ponto de urinar em minhas calças!”. A juíza Maria Garrigós de Rébori deu a tréplica: “não pode sair da sala”.

Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como “Deus da vida e da morte”.

CÓNDOR – Outro integrante do grupo é o ex-agente de inteligência Raúl Guglielminetti, um dos principais homens do “Plano Cóndor”, como foi denominado o sistema de captura e intercâmbio de prisioneiros políticos e informação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

Guglielminetti adquiriu notoriedade nas forças de segurança quando – entre 1974 e 1975 – foi o braço direito de Aníbal Gordon, chefe da organização para-militar “Triple A” (Tríplice A). Após o golpe de 1976 ele transformou-se no chefe do poderoso Batalhão 601 de Inteligência. No início dos anos 80 Guglielminetti foi enviado pelos militares para colaborar com os “contras” da Nicarágua, onde especializou-se na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Guglielminetti foi condenado a 25 anos de prisão.

Além deles também sentou no banco dos réus Ricardo Taddei, que simulava ser um sacerdote católico para ouvir confissões dos prisioneiros, aos quais posteriormente “absolvia” ou “castigava”. O ‘padre’ foi condenado a 25 anos de prisão.

Convescote de ditadores: os colegas Videla e Pinochet em 1978.

CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

1976-1983  – Ditadura Militar

1983 – Volta à democracia

1985 – Início dos julgamentos aos militares

1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’

1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’

1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares

1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80

2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.

E, como fazemos tradicionalmente, recordamos de forma esquemática algumas características da ditadura argentina:

MODALIDADES DE ASSASSINATOS

Formas de assassinar civis, por parte dos militares, durante a Ditadura:

– Jogar pessoas vivas, desde aviões, sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

– Juntar prisioneiros, amarrados, e dinamitá-los.

– Fuzilamento.

– Morte por terríveis torturas

 MODALIDADES DE TORTURAS

– Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

– Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

– Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

– O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS
– Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.
 
– Os militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis (segundo declarações do próprio general e ex-ditador Reynaldo Bignone, à TV francesa)
 
– Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.
 
BEBÊS
– Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)
– 102 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

– Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares. 

– Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

– Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

– Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

– A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

– A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

– A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

– Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

– Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

– Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

– No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

– A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.

E o humor ácido de Quino sobre os regimes ditatoriais:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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