Ex-integrantes da ditadura argentina serão julgados por plano de roubo de bebês (e genes & subversão, o tigre e o pequeno Jesus, além do sequestrador morto com sêmen no reto)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ex-integrantes da ditadura argentina serão julgados por plano de roubo de bebês (e genes & subversão, o tigre e o pequeno Jesus, além do sequestrador morto com sêmen no reto)

arielpalacios

27 de janeiro de 2011 | 12h47

Serpentes atacam os condenados por roubo”, ilustração de Gustave Doré(1832-1883) para a a área do “Inferno” da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri (1265-1321).

O Tribunal Federal Número 6 da capital argentina anunciou que no dia 28 de fevereiro começará o julgamento de ex-integrantes da ditadura militar (1976-83) envolvidos no planejamento do sequestros de bebês – popularmente chamado de “roubos de crianças” – durante os sete anos de regime militar. Nesse dia sentarão no banco dos réus em Buenos Aires sete acusados, entre os quais os ex-ditadores Jorge Rafael Videla (autor do golpe de 1976 e primeiro presidente da ditadura) e Reynaldo Bignone (último ditador, antes da volta da democracia).

Processos contra militares envolvidos no sequestro de bebês durante a ditadura não são uma novidade na última meia década na Argentina, já que mais de 30 casos foram levados aos tribunais. No entanto, esta será a primeira vez que o sequestros serão considerados como parte de um plano geral de apropriação das crianças dos desaparecidos políticos para entregá-los a famílias “confiáveis” para a ditadura, que educariam as crianças.

No total, neste julgamento, participarão 80 testemunhas que prestarão depoimento sobre o funcionamento de sete maternidades clandestinas.

“Cáspite!” poderia ter exclamado Karl Wilhelm von Nägeli (1817-1891) ao ouvir a teoria do general Camps sobre genética e subversão. Von Nägeli era um botânico suíço que descobriu os cromossomos. Na ilustração, o cientista, autor de “Pflanzenphysiologische Untersuchungen”.

GENES & SUBVERSÃO – Um dos principais ideólogos do regime militar, o general Ramón Camps, que morreu em 1994, argumentava durante a ditadura que os filhos dos desaparecidos carregavam “genes de subversão”. Segundo ele, para eliminar essa característica precisavam ser criadas por famílias que defendessem o estilo de vida “ocidental e cristão”.

“Os subversivos educam seus filhos na subversão…por isso essa coisa devia ser detida. São subversivos todos aqueles que não se preocupam de fazer de seus filhos bons argentinos”, disse Camps em 1983 à revista espanhola “Tiempo”. Na entrevista o militar indicou que tinha alguns pontos de coincidência com Adolf Hitler, admitiu ser o responsável de 5 mil desaparecidos e de ter aplicado a tortura como método costumeiro.

Ex-ditadores Videla e Bignone sentarão no banco dos réus. Nesta caricatura de Hermenegildo Sábat o general Videla está à extrema esquerda, enquanto que Bignone está na extrema direita. No meio, os já falecidos ex-ditadores Viola e Galtieri.

BEBÊS – As estimativas das Avós da Praça de Mayo indicam que durante a Ditadura ao redor de 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas. Desse total, nos últimos 34 anos foram recuperadas – ou identificadas por suas famílias biológicas – apenas 102 filhos. O paradeiro dos outros 400 bebês é desconhecido.

Grande parte das crianças nasceram em maternidades clandestinas dentro dos centros de tortura da ditadura. Após o parto as crianças eram entregues a famílias de militares sem filhos, policiais ou civis aliados da ditadura. As mães, após a entrega de seus bebês, eram assassinadas pelos militares.

Desde o final dos anos 90 as avós da Praça de Mayo contam com um banco de dados genético para cotejar as amostras de DNA das famílias dos desaparecidos e dos adultos (atualmente na faixa dos 30 aos 34 anos) suspeitos de terem sido sequestrados quando eram recém-nascidos.

O TIGRE E O PEQUENO JESUS – Também estará no banco dos réus o capitão de corveta Jorge ‘Tigre’ Acosta, famoso pelos requintes de crueldade que aplicava aos civis detidos, uma das “estrelas” da ESMA. Ele era um dos principais sequestradores dos bebês de prisioneiras da ESMA. Calcula-se que em sua maternidade clandestina nasceram mais de cem bebês.

Acusado do seqüestro de bebês, torturas e assassinatos, Acosta era apelidado de “tigre” por sua ferocidade. Segundo testemunhas, o capitão de corveta falava sozinho à noite, em delírio místico. O próprio Acosta explicava que conversava com “Jesucito” (O pequeno Jesus), ao qual peguntava qual dos prisoneiros deveria torturar no dia seguinte. Acosta foi um dos criadores dos “vôos da morte” (vôos sobre o rio da Prata ou o mar, desde os quais eram jogados os prisioneiros, ainda vivos).

 

E falando em tigres, a “Chasse au tigre”, de Eugène Delacroix (1798-1863). O quadro, que mostra um feroz tigre que ataca um cavalo e cavaleiro, está no Musée d’Orsay.

FEBRES, SEQUESTRADOR AUSENTE POR MORTE (E O CASO PECULIAR DE SÊMEN NO RETO)

 

Morto por cianureto, Héctor Febres, conhecido por seu sadismo,tinha sêmen no reto quando faleceu.

Um dos ausentes do julgamento sobre sequestro de bebês será ex-Chefe da Guarda Costeira Héctor Febres, notório por seu extremo sadismo, que o levou a torturar bebês e crianças para arrancar confissões dos pais, presos políticos.

Febres morreu no dia 10 de dezembro de 2007, o dia internacional dos Direitos Humanos, que também coincidiu com a posse da nova presidente, Cristina Fernández de Kirchner. Naquele dia a Justiça anunciou que o ex-torturador havia falecido por uma dose cavalar de cianureto.

ESPERMATOZÓIDES MISTERIOSOS & DITADURA – A segunda surpresa surgiu dias depois, quando o jornal “Perfil” denunciou que a autópsia também registrou a presença de sêmen no reto de Febres.

As suspeitas concentram-se sobre uma misteriosa visita masculina que teria jantado com Febres em sua cela na prisão da Guarda-Costeira, onde aguardava o julgamento. Os registros sobre a identidade do homem que o visitou desapareceram. A suspeita é que ele poderia ser o dono do sêmen encontrado no corpo de Febres, além de ter sido o responsável de ter entregue o cianureto (para um caso de suicídio) ou de tê-lo colocado na bebida do ex-torturador (no caso de assassinato).

Às especulações sobre o cianureto acrescentam-se dúvidas sobre a vida sexual do ex-torturador (e de eventuais privilégios concedidos por parte dos carcereiros para que o prisioneiro tivesse permissão para visitas com o fim de coito). Não houve conclusões sobre as hipóteses de relação física consentida (sem preservativos) ou a de que tenha sido violado horas antes de seu falecimento.

As circunstâncias da morte de Febres estão rodeadas de mistério. Ele faleceu cinco dias antes do veredito de seu primeiro julgamento (este teria sido o segundo), fato que levou os organismos de defesa dos Direitos Humanos a suspeitar que foi assassinado por ex-colegas seus como “queima de arquivo”.

As ONGs consideram que Febres – que, ao que tudo indica, seria condenado a 25 anos de prisão – pretendia “contar o que sabia”, especialmente sobre o paradeiro de bebês seqüestrados durante o regime militar.

“SELVA” – Febres, uma das principais figuras da ESMA, era famoso por seu desenfrenado sadismo. Sobreviventes relatam que, quando aplicava choques elétricos nos prisioneiros, ficava “alucinado” e gargalhava enquanto ouvia os gritos dos torturados. Um dos sobreviventes relatou como Febres lhe pediu gentilmente que consertasse o aparelho de choques elétricos, que logo depois utilizaria no próprio prisioneiro.

Na ESMA os torturadores costumavam ter apelidos referentes a animais. Esse era o caso do capitão Jorge Tigre” Acosta e do tenente Alfredo Corvo” Astiz. Mas, Febres era chamado de “Selva”, já que “era o conjunto de todos os animais”. 

E falando em selva, “O leão e o antílope”, de 1905, por Henri Rousseau.

  

 E, saindo do assunto espermático, passando para o musical, para aliviar um pouco a leitura dos terrores cometidos pelos ex-integrantes da ditadura, de Giacomo Puccini, o “Agnus Dei”. Aqui.

E também de Puccini, a irônica ária “Quando m’en vo”, de “La Bohème”. Com a belíssima Anna Netrebko, aqui.

E com Bryn Terfel, “Non piu andrai farfallone amoroso”, das “Bodas de Figaro”, de W.A.Mozart. Aqui.

E nada  a ver com os estilos acima, Fred Buscaglione canta o swing boogie “Teresa non sparare”, hit dos anos 50 na Itália, aqui.

E mais uma versão do “Teresa non sparare”, com a Maxentia Big Band, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.