(Ex-)presidente Kirchner deixa de existir e cria vácuo de poder na Argentina
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(Ex-)presidente Kirchner deixa de existir e cria vácuo de poder na Argentina

arielpalacios

28 de outubro de 2010 | 07h28

Néstor Kirchner e Cristina Kirchner. A foto, da presidência da República, mostra o casal na posse presidencial de Cristina, em dezembro de 2007. A foto, segundo analistas, ilustra bem a presença de Kirchner no governo de Cristina. No início do governo de Cristina tudo indicava que seria uma presidência bicéfala. Mas, rapidamente a população percebeu que ele era o verdadeiro poder no governo da esposa.

Desde as 9:15 horas da manhã desta quarta-feira a política argentina vive um cenário de total incerteza. Nesse instante faleceu o ex-presidente Néstor Kirchner, considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner. O ex-presidente estava em El Calafate, no extremo sul da Argentina, passando o feriado nacional com sua esposa quando passou mal de madrugada, enquanto estava no meio de uma reunião em sua casa. Às 7:00 horas – em uma maca, acompanhado pela presidente Cristina – entrou no hospital José Formenti. Pouco mais de duas horas depois, apesar das tentativas dos médicos em reanimá-lo, o homem mais poderoso da Argentina deixou de existir. Oficialmente, segundo seu médico, Luis Bonuomo, Kirchner teve uma “parada cardíaca com morte súbita”. Sua viúva, a presidente Cristina, terá pela frente a dura tarefa de ocupar o vácuo político que seu falecido marido deixa. Kirchner centralizava as decisões do governo, reunia-se com os ministros da própria esposa, empresários e sindicalistas.

Esse intenso protagonismo havia gerado diversos curto-circuitos entre os cônjuges. Nos últimos dois meses houve uma troca de farpas em público sobre quem seria o candidato presidencial do governo nas eleições do ano que vem. Aliados de Kirchner que eram ministros de sua esposa indicaram que o candidato seria o “Pinguim” (apelido do ex-presidente). Cristina, visivelmente irritada com seus próprios ministros, respondeu durante um comício: “e porque não pode ser a pinguim-fêmea?”. Segundo o analista político Rosendo Fraga “sem Kirchner, Cristina poderá assumir o poder”.

O país, que estava paralisado pelo feriado para a realização do censo nacional, estava surpreso ontem pela notícia da morte de Kirchner. O clima em Buenos Aires era o de morte de um presidente e não de um ex-presidente. Segundo fontes, o clima no âmbito do governo era de “total devastação e estupefação”.

“É um país que parece condenado a viver entre a tragédia e o drama”, afirmou Eduardo van der Kooy, colunista político do jornal “Clarín”.

Os analistas destacaram ontem que a morte de Kirchner abre para a presidente Cristina a possibilidade de reduzir os decibéis dos conflitos desatados por seu marido e tentar aplicar políticas menos radicalizadas. A alta dos bônus da dívida pública argentina indicavam ontem à tarde que o falecimento do confrontativo Kirchner era encarado pelos mercados como uma notícia positiva para a economia da Argentina.

Humoristas ironizaram durante estes anos a forma de governar do casal Kirchner. Montagem fotográfica mostra Néstor como Cristina e vice-versa.

GOVERNABILIDADE – Para evitar rumores sobre problemas de governabilidade o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, convocou uma reunião de emergência da principal central sindical do país (que é a maior base de apoio social do governo) e declarou “apoio para que o modelo econômico continue”.

Nos organismos de defesa dos direitos humanos o clima era de tristeza. “Morreu um irmão”, disse a presidente das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carloto, cuja organização foi beneficiada com o respaldo de Kirchner na investigação dos crimes da ditadura militar (1976-83).

“Cristina, você não está sozinha” era um dos vários cartazes colocados por jovens simpatizantes do governo Kirchner nas grades de proteção da Casa Rosada instaladas na Praça de Mayo, no centro portenho.

Líderes da oposição e empresários, que haviam mantido duros confrontos com Kirchner nos últimos anos ontem deixaram de lado as divergências e ressaltaram seu “pesar” pelo falecimento do ex-presidente. O ex-presidente Carlos Menem (1989-99), que disputou contra Kirchner as eleições presidenciais de 2003, destacou que Kirchner era uma pessoa “trabalhadora”. No ano passado Menem chamou Kirchner de “anti-Cristo da economia argentina”. Mas, desde o início deste ano Menem favoreceu os Kirchners com suas abstenções ou ausências no Senado em votações cruciais para a oposição (setor que Menem formalmente integrava).

VELÓRIO E FUNERAL – O ministro do Trabalho, Carlos Tomada, anunciou ontem que o velório de Kirchner será realizado nesta quinta-feira a partir do meio-dia na Casa Rosada, o palácio presidencial. Segundo Tomada, que foi ministro no governo do ex-presidente (e foi herdado por sua esposa), o velório durará 48 horas e contará com a presença de diversos chefes de Estado da região.

O corpo de Kirchner ficará no salão recentemente batizado de “Salão dos Patriotas latino-americanos”, onde estão pendurados quadros dos presidentes Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas, de Tiradentes, do líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara e do libertador venezuelano Simón Bolívar.

O enterro de Kirchner seria em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz e cidade natal do ex-presidente. Informações extraoficiais indicavam ontem que o enterro seria no sábado.

Seu filho Máximo, que estava na capital da província, Río Gallegos, após saber da internação de seu pai partiu imediatamente para El Calafate. Sua filha Florencia, que estuda cinema em Nova York, preparava-se para partir rumo à Buenos Aires.

O presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, expressou ontem em Montevidéu estupefação pela morte de Kirchner: “é incrível como a vida vai embora, não é? A vida vai em um segundo…”.

Cartaz ao estilo de Andy Warhol convocava juventude para comício de Kirchner no dia 14 de setembro. Dois dias antes, no domingo 12, foi inesperadamente submetido a uma angioplastia. Mas, Kirchner não cancelou o comício. Acompanhado de Cristina KLirchner, foi ao Luna Park. Os médicos e os jornais indicaram que era uma “loucura” para sua saúde. Os Kirchners responderam: “é um exagero, está tudo ótimo!” Um mês e meio depois Kirchner morria.

HIPERATIVIDADE E SAÚDE – Analistas e políticos recordaram ontem os diversos alertas que a saúde de Kirchner havia dado nos últimos anos. Em 2004 ele foi internado às pressas por uma grave hemorragia gastrointestinal que o colocou à beira da morte. O então presidente ficou em repouso somente duas semanas e voltou à frenética atividade política. Nos anos seguintes Kirchner teve que manter uma rigorosa dieta de arroz, verduras e frango que começou a deixar de lado no ano passado no meio das tensões políticas.

No início deste ano, em fevereiro, Kirchner foi internado para uma cirurgia de obstrução da carótida. Apenas três dias depois Kirchner – ignorando recomendações médicas – mantinha reuniões em seu quarto de hospital com os ministros de sua esposa, dando ordens sobre como governar.

Os médicos pediram a Kirchner que suavizasse seu ritmo de trabalho. Kirchner respondeu os pedidos com piadas. “Não posso fazer nada. Ele é o presidente”, costumava lamentar seu médico pessoal, Luis Bonuomo.

Em setembro passado Kirchner foi novamente internado, desta vez para uma angioplastia. Kirchner entrou na sala de operações de madrugada e no mesmo dia, à noite, recebeu a alta. Trinta e sete horas depois participava de um comício ao lado de sua esposa Cristina no Luna Park, em pleno centro portenho. Na ocasião, o jornalista, médico e escritor Nelson Castro, alertou: “a fome de poder de Kirchner o leva a ignorar o estado de sua saúde”.

Nos últimos dias Kirchner manteve a costumeira tensão política em níveis elevados. Ele havia protagonizado uma saraivada de acusações contra a mídia crítica do governo de sua esposa, principalmente o jornal “Clarín”, além de desferir acusações de “desestabilização” contra os líderes da oposição. Também retrucou críticas de organismos internacionais sobre a economia argentina, além de lidar com a crise política gerada pelo assassinato de um militante da esquerda, Mariano Ferreyra, na semana passada, por parte de sindicalistas vinculados ao governo. Na terça-feira, sem pausas, Kirchner participou de um comício na cidade de General Lamadrid. Ontem o ex-presidente não contava com agenda definida de trabalho, já que o país estava paralisado para o censo nacional. Esse seria seu dia de descanso.

No círculo íntimo do poder, Cristina Kirchner fica sozinha. Ela perdeu seu principal fator de poder, o marido e antecessor, Néstor Kirchner.

FUNERAL DE KIRCHNER IMPLICARÁ EM ‘TRÉGUA POLÍTICA’

A morte do ex-presidente Néstor Kirchner implicaria em um período de “trégua política” entre o governo da presidente Cristina Kirchner e a oposição. Segundo o analista político Carlos Fara, a expectativa é que a morte de Kirchner ocupe a agenda até o final deste ano. Em entrevista ao Estado ontem, o sociólogo, que também é analista de opinião pública, sustentou que a morte de Kirchner cria novas “equações do poder” no país.

Estado – O que implica a morte de Kirchner para o governo de sua esposa?

Fara – É um abalo. Mas, é uma situação muito menos complicada de lidar do que teria sido em um cenário como o de meados do ano passado, quando os Kirchners haviam sofrido uma pesada derrota parlamentar. A presidente Cristina, nos últimos meses, conseguiu recuperar certa popularidade. Não existiam mais dúvidas sobre sua governabilidade, tal como havia ocorrido no ano passado. E além disso, haverá uma certa “trégua política” entre o governo e a oposição com a morte de Kirchner.

Estado – Acredita que Cristina Kirchner poderia ser a candidata presidencial em 2011?

Fara – Isso seria o mais natural. Mas também acho que a equação natural do ano que vem contemplava que havia duas figuras muito fortes. A ideia era que um Kirchner disputaria a presidência, enquanto que outro Kirchner seria candidato ao governo da província de Buenos Aires (que possui 40% do eleitorado nacional e é responsável por um terço do PIB). Essa situação foi modificada com a morte de Néstor Kirchner. A equação de poder muda…

Estado – O peronismo costuma fazer intenso uso de seus mortos e dos funerais. Kirchner morto pode servir ao poder de sua viúva?

Fara – Temos que esperar para ver como será a utilização. Mesmo sem uso deliberado, a morte de Kirchner transforma-se em um fato político de grande peso. Na opinião pública, sem dúvida, transforma-se em um fato político importante. Nos próximos dias a imagem do falecido Kirchner e também da esposa tende a aumentar. Os Kirchners já estavam conseguido nos últimos meses uma certa recuperação da imagem, graça à reativação da economia.

Estado – Existem paralelos com a morte de Perón em 1974?

Fara – Não foi como Juan Domingo Perón, que morreu em 1974 idoso, com muitos problemas de saúde e de cama dias antes de sua morte. Kirchner estava em plena atividade política, com 60 anos. E, Cristina Kirchner não é como Isabelita Perón, viúva de Perón que assumiu o governo após sua morte por ser sua vice-presidente. Isabelita era fraca, coisa que Cristina não é. E a democracia naquela época estava mergulhado em uma série de problemas e não estava consolidada. Atualmente o cenário é diferente, pois a democracia é sólida e não existem militares que pretendam alterar a institucionalidade, tal como nos anos 70 quando morreu Perón. Levará um bom tempo para que a oposição e o governo “processem” a morte de Kirchner.

Estado – Como a oposição e a opinião pública lidará com este cenário?

Fara – A condescendência com o governo deve ser grande nos próximos meses. Até o final deste ano a agenda política estará embalada com a morte de Kirchner. Os casos de corrupção terão menos incidência na opinião pública. Esta entrará em um compasso de processar de forma diferente tudo o que ocorra daqui para a frente com a presidente, uma viúva. Passarão muitos meses até que a situação política possa voltar a algo que chamaríamos “normal”…

Argentinos diziam que a fórmula funcionava assim: Cristina no governo, Néstor Kirchner no poder. 

HIPERATIVO E SEM PAPAS NA LÍNGUA

Deputado federal, secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unsaul), presidente do Partido Justicialista (Peronista) e candidato virtual do governo da presidente Cristina Kirchner às eleições do ano que vem. Estes eram os cargos que o ex-presidente exercia e acumulava até ontem (quarta-feira) de manhã, quando faleceu em El Calafate, seu refúgio preferido para os feriados e fins de semana. Kirchner, famoso por ser centralizador e por sua hiper-atividade, também ocupava o posto daquilo que os líderes da oposição chamava de “primeiro-cavalheiro”, por ser o marido da presidente. No entanto, era apenas uma ironia para indicar que Kirchner, apesar do prefixo “ex” de seu título, era o verdadeiro poder no governo de sua esposa.

Ao longo dos últimos sete anos Kirchner marcou a política argentina com a modalidade de “bater e depois negociar”. Esta fórmula transformou-se na base de seu modus operandi. A intensa utilização deste axioma foi denominada “estilo K”. Famoso por suas maneiras sem papas na língua e a política do confronto permanente, Kirchner utilizou essa fórmula contra o Fundo Monetário Internacional (FMI), os credores privados, as empresas privatizadas de serviços públicos, militares, ruralistas, mídia, Igreja Católica, partidos da oposição, redes de supermercados, companhias de combustíveis, exportadores de carne bovina e a Fiesp, entre outros. A fórmula gerou um grande círculo de inimigos. Mas também permitiu-lhe acumular poder e popularidade nos setores da centro-esquerda.

A hegemonia kirchnerista foi acompanhada de uma miríade de escândalos de corrupção. Kirchner foi acusado de enriquecimento ilícito, de favorecer empresários amigos e de negócios obscuros com o governo do presidente Hugo Chávez. Facilmente irritável com os grupos não alinhados com seu governo, Kirchner aplicou fortes pressões contra a mídia que criticava sua gestão.

Menem e Kirchner nos anos 90. Na época, Kirchner era seu intenso aliado. No final da década estavam afastados. Em 2003 foram rivais nas urnas e disparavam pesadas críticas bilaterais. Em 2010 Menem foi elemento crucial para que os Kirchners conseguissem vencer ajustadas votações no Senado.

CARREIRA – Kirchner nasceu em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz, em 1950. Nos anos 70 estudou Direito em La Plata, província de Buenos Aires. Ali conheceu a estudante Cristina Fernández, que tornaria-se namorada e posterior esposa. Juntos militavam na Juventude Peronista, embora sem grande protagonismo. Mas, com o golpe de estado de 1976, o casal, já formado, preferiu deixar a militância de lado e mudou-se para Río Gallegos. Enquanto grande parte de seus colegas de militância partiam para o exílio – ou morriam nos cárceres da ditadura – os Kirchners prosperaram trabalhando como advogados especializados na execução de hipotecas.

Com a volta da democracia Kirchner foi eleito prefeito de Río Gallegos em 1987. Em 1991 foi eleito governador. Ao longo da maior parte dos anos 90 Kirchner respaldou ativamente as privatizações do governo do então presidente Carlos Menem. Mas, no final da década estava afastado de Menem e tentava criar um espaço político próprio dentro do peronismo, sem sucesso.

As ambições de Kirchner encontraram uma possibilidade de êxito em 2002 quando o então presidente provisório Eduardo Duhalde, desesperado para encontrar um candidato que pudesse enfrentar seu arqui-inimigo Carlos Menem nas urnas, optou pelo governador patagônio.

Desconhecido até o momento, Kirchner impressionou por sua forma desajeitada, mal-vestido, falta de carisma, além de ser o dono de uma protuberante nariz, estrábico e falar com a língua presa.

PRESIDÊNCIA – Em 2003 Kirchner foi às urnas no primeiro turno das eleições presidenciais e ficou em segundo lugar, com 22% dos votos. Seu rival Menem ficou em primeiro, com 24%. No entanto, nas semanas seguintes, durante a campanha para o segundo turno, as pesquisas indicavam que ao redor de 70% dos eleitores votariam em Kirchner como um voto anti-Menem. “El Turco”, como Menem era chamado popularmente, desistiu da segunda fase eleitoral. Desta forma, com menos de um quarto dos votos, Kirchner foi empossado presidente. Ele foi o presidente menos votado de toda a História argentina.

Tudo indicava que Kirchner seria um presidente fraco, sem poder próprio, que dependeria de seu padrinho Eduardo Duhalde. No entanto, no primeiro ano e meio de seu governo conseguiu desvencilhar-se da imagem de “marionete” ao criar uma esfera própria de poder.

Simultaneamente, conseguiu recuperar a economia argentina, que cresceu de forma exponencial, reduzindo a pobreza e o desemprego até 2007, quando a política econômica a curto prazo acabou trazendo à tona novamente os problemas sociais e a redução de investimentos.

Em 2007 “El Pingüino” estava no pináculo de seu poder. Ele tinha a obediência de 19 dos 23 governadores, controlava o Senado, a Câmara de Deputados, tinha influência na Corte Suprema de Justiça e contava com o respaldo da maior parte da mídia argentina.

Com o poder no apogeu, tomou a decisão inédita no mundo de colocar sua própria esposa como candidata à sucessão presidencial. Com seu respaldo e toda a máquina do governo, elegeu Cristina Kirchner.

Humoristas retratavam Kirchner como um ambicioso ‘Napoleão’. Ilustração do cartunista El Niño Rodríguez mostra um napoleônico Kirchner com pantufas. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

DECLÍNIO – Mas, nos primeiros meses de 2008 diversos setores começaram a exibir resistência à política dos Kirchners. Primeiro foram os ruralistas, que deslancharam uma série de greves. Depois foi o próprio vice de Cristina, Julio Cobos, que rachou com o casal e transformou-se em presidenciável. Na sequência Kirchner intensificou seus ataques aos meios de comunicação e deflagrou uma guerra pessoal contra o Grupo Clarín, o maior holding multimídia da Argentina.

No ano passado Kirchner sofreu uma derrota histórica ao perder as eleições parlamentares na província de Buenos Aires para o empresário Francisco De Narváez, um novato na política.

Em fevereiro Kirchner foi internado por obstruções na carótida, fato que gerou especulações sobre sua permanência no poder. Em setembro passou por uma nova cirurgia. No entanto, menos de 48 horas após sua operação, participava de um comício e deixava claro que sua intenção era radicalizar o discurso político e disputar as eleições presidenciais do ano que vem.

No entanto, a queda de sua imagem e as fraturas crescentes nas fileiras kirchneristas indicavam que Kirchner teria graves problemas para conseguir a vitória nas urnas em 2011 e assim prolongar a permanência do casal no poder. Todas as especulações dos analistas políticos sobre as chances que o ex-presidente teria nas urnas foram arquivadas ontem com sua morte, ocorrida doze meses antes das eleições presidenciais. 

Néstor Kirchner. embora não tivesse cargo oficial no governo da esposa, acompanhava sempre a presidente Cristina na Casa Rosada.

 

No dia 6 de maio de 2003 Kirchner já havia passado pelo primeiro turno das eleições presidenciais e faltavam poucas semanas para enfrentar Menem no segundo turno. Esse dia, uma terça-feira, fiquei fazendo plantão na porta do prédio onde os Kirchners moravam quando estavam em B.Aires, na esquina das ruas Uruguai e Juncal. Me acompanhava Carmen de Carlos, correspondente do ABC de Madri.

Depois de quatro horas de espera (bom…estava esperando dentro de um café que estava na esquina em diagonal) finalmente apareceu caminhando Néstor Kirchner, acompanhado de Cristina, o então assessor Alberto Fernández (que mais tarde seria seu braço-direito na área política) e um office boy.

Nos aproximamos rapidamente. Eles levaram um susto. Expliquei que era correspondente brasileiro. Minha amiga espanhola explicou que era jornalista de Madri, etc. “Olhe, não temos tempo…” começaram a dizer. “Mas o sr. vai ao Brasil reunir-se com o presidente Lula… precisa falar com a imprensa brasileira!”, disse eu. “E os investimentos espanhóis no país”, exclamou Carmen. 

Kirchner e Fernández olharam-se. Nesse instante, Cristina interrompeu e disse: “ok, tudo bem. Podem subir. Mas só terão 15 minutos… o tempo para que eu me maquie e me arrume, pois temos que sair para um jantar”.

Subimos e sentamos com Kirchner na biblioteca do apartamento. Fernández olhava da porta. Cristina foi ao quarto arrumar-se. Tive sorte, pois em vez dos 15 minutos que ela indicou (sete minutos e meio para cada um de nós), demorou quase 40 minutos para a maquiagem e vestir-se. Assim, graças à vaidade da então senadora e futura sucessora presidencial, pudemos alongar nossas respectivas entrevistas.

Aqui estão os principais pontos de minha entrevista, publicada no dia seguinte.

Durante a campanha, consegui falar com Kirchner brevemente duas vezes mais.

No entanto, a partir do momento da posse – e pelo resto de sua presidência – Kirchner fechou-se e decidiu que evitaria entrevistas com a mídia brasileira e do resto do mundo.

 KIRCHNER DIZ QUE LULA GEROU ESPERANÇAS DE MUDANÇAS NA ARGENTINA

Se as pesquisas de opinião pública não errarem, o homem que desembarcará hoje (quarta-feira) em Brasília, para reunir-se com o presidente Luis Inácio Lula da Silva, será em um futuro muito próximo o presidente dos argentinos. Por enquanto, ele é o candidato Néstor Kirchner, governador da província de Santa Cruz.

Para os inimigos, um “títere” do presidente Eduardo Duhalde. Para seus amigos, o “vento” de mudança que o país precisa, para “sepultar” o modelo econômico neo-liberal estabelecido pelo ex–presidente Carlos Menem.

É o próprio “El Turco” que Kirchner enfrentará no segundo turno das eleições, no dia 18 de maio. As pesquisas afirmam que Kirchner – até o ano passado um ignoto governador patagônico para a maioria da população – vencerá o segundo turno das eleições com 60% dos votos. O derrotado Menem não passaria de 26%.

Menem, de centro-direita, prega relações intensas com os EUA. Kirchner, de centro-esquerda defende uma aliança com o Brasil. Menem aprofundaria o modelo neo-liberal. Kirchner pretende um Estado mais presente.

Em seu apartamento no bairro de Recoleta, em uma sala cheia de livros com aparência de lidos, onde se destacavam uma longa estante com as obras completas do general Juan Domingo Perón (fundador de seu partido, o Justicialista, mais conhecido como “Peronista”) Kirchner conversou com o Estado sobre seus planos e a viagem ao Brasil, país sobre o qual comenta em voz baixa, quase com vergonha: “Nunca estive ali, sequer de férias. Esta será minha primeira vez”. 

Estado: Analistas afirmavam no ano passado que a vitória de Lula no Brasil teria influências na Argentina. Considera que o governo Lula gerou esperanças neste país de que as mudanças eram possíveis e que isso influenciou seus eleitores?

Kirchner: Acredito que a vitória de Lula pode ter tido influência. Lula mostrou que é possível criar um modelo diferente, racional e responsável. Considero que junto com Lula e o presidente do Chile, Ricardo Lagos, podemos construir um espaço latino-americano. Desta forma, o mundo nos verá de forma diferente, e não mais como republiquetas. Se for eleito, quero trabalhar intensamente com Lula. A Argentina e o Brasil possuem grande responsabilidade histórica. Os que estiverem no comando dos dois países precisam estar à altura dos tempos e da História.

Estado: Seu rival, Menem, prega relações “carnais” com os EUA…

Kirchner: Quero ter uma relação séria e responsável com os EUA. Mas não tenho medo do governo americano. Nem me preocupa o que a embaixada americana pode pensar, como fizeram alguns presidentes no passado…

Estado: E as preocupações com a governabilidade? Dizem que o sr. é um “títere” do presidente Duhalde, e que sem ele, não estaria tão perto de vencer…

Kirchner: Bom, antes de tudo, é preciso ganhar as eleições. Sou um homem prudente e sério, e não me atrevo a afirmar que vou ganhar em um período que ainda é pré-eleitoral. Outra coisa: não sou candidato de Duhalde.

Estado: Mas o sr. diria que está no ponto onde está graças ao presidente? Analistas dizem que seu eventual governo poderia ser condicionado por Duhalde.

Kirchner: Duhalde apoiou muitos outros candidatos antes de mim, mas eles não conseguiam o respaldo da sociedade. Com Duhalde tínhamos pontos de convergência e de divergência. Mas estávamos de acordo que era fundamental criar uma alternativa contra tudo aquilo que o “menemismo” representava. Mas fui eu sozinho que comecei este espaço presidencial, tendo apenas 2% nas pesquisas. Aí, comecei a articular com Duhalde, mas também pessoas de outros partidos de centro-esquerda, setores independentes, sindicatos e associações de pequenos e médios empresários. Agradeço a Duhalde e todos esses setores pela confiança que possuem em mim. Mas quero deixar bem claro: uma coisa é estar agradecido e a outra é ter que “pagar a conta”. Sou um homem de profundas convicções e não estou disposto a renunciar a elas…

Estado: O sr. foi um constante anti-menemista ao longo da última década?

Kirchner: No começo, Menem foi um dos líderes que chegou com mais esperanças para os setores populares. Começou o governo até bem, fez coisas importantes como a estabilidade econômica. Mas depois teve uma grande mutação e fez este projeto de exclusão econômica, além de espalhar a corrupção.

Estado: Menem comportou-se com o país como um barão com seu feudo?

Kirchner: Eu não acho que quem torna-se presidente, vira dono da Argentina. Mas Menem, sim.

Estado: Menem denunciou fraude no primeiro turno das eleições. Isso é correto?

Kirchner: Acho que não ocorreu. Alguns políticos argentinos carecem de maturidade. São como crianças. Quando os resultados não são do jeito que alguém quer…esse alguém começa a espernear e gritar que houve fraude.

Estado: Há um ano estava na rabeira das pesquisas. Imaginou chegar até aqui?

Kirchner: Tempos atrás, minha ideia era me candidatar em 2007. Havia outros candidatos com mais chances. Não imaginava que seria candidato agora, em 2003.

Estado: O sr. era daquelas crianças que sonhavam ser presidente?

Kirchner: Quando era um menino queria ser só governador. Quando me tornei governador comecei a ver o que acontecia com a Argentina: as catástrofes causadas por Menem e o ex–presidente Fernando De la Rúa. Então, decidi que devia ser presidente. Com Duhalde, o país já começou a se reativar. Daqui a pouco tempo, a Argentina vai recuperar as esperanças perdidas.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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