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Feliz aniversário, señora Welch! Ou: a genética boliviana no dia universal do umbigo

Este post, a modo de eferméride-homenagem onfalófila-sul-americana, é um remake do original de 2010.

arielpalacios

05 de setembro de 2014 | 08h24

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blog1dedo2bRaquel Welch – sex symbol durante décadas – completa nesta sexta-feira, dia 5 de setembro, 74 anos de idade.

Seu umbigo – que obviamente, também celebra sete décadas de existência – foi considerado o mais perfeito da História universal por diversos especialistas em onfalomorfologia. Isto é, a morfologia do umbigo. O umbigo da sra. Welch é classificado como um representante do formato de “grão de café” (mais latino-americano ainda, embora o café seja originário da África).

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blog1dedo2bMas, o que tem a ver a señora Welch – dona de curvas superlativas, distante das anoréxicas que pululam atualmente – e seu emblemático umbigo com este blog?

“Os Hermanos” é dedicado costumeiramente à Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Muito escassamente nos referimos à Bolívia (já que não é minha área tradicional de cobertura). Mas, nesta ocasião de efeméride umbilical, voltamos à terra das ruínas de Tiahuanaco, do presidente Evo Morales e do playboy, milionário e diretor de cinema Antenor Patiño (o “rei do estanho”), já que Raquel Welch é na verdade “Jo Raquel Tejada”, filha do boliviano Armando Carlos Tejada Urquizo (1911-1976).

Isto é, o umbigo considerado por muitos como o mais perfeito do planeta existe graças (em parte) à genética boliviana!

O ensaísta mexicano Gutierre Tibón, na breve mas impactante obra “El ombligo como centro erótico” (editada pelo prestigiado Fondo de Cultura Económica), chama o umbigo da sra Welch de “yankee-boliviano” e destaca o excelso formato desta parte da anatomia da atriz.

Bom, já que falamos em México, a própria palavra, no idioma náhuatl significa “no umbigo da lua”.

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Hieróglifo de Xicco, antigo centro cerimonial no México. Foi interpretado como um umbigo que simboliza o centro do universo.

Armando Tejada Urquizo partiu da Bolívia aos 17 anos. Migrou para a Califórnia, onde estudou especializou-se na área de engenharia aeronáutica.

Por parte materna é filha de Josephine Sarah Hill (1909-2000), descendente do presidente John Quincy Adams (o sexto presidente dos EUA, que governou entre 1825 e 1829).

Raquel nasceu em Chicago no dia 5 de setembro de 1940. O Welch apareceria em seu nome anos depois, quando casou-se com seu primeiro marido, James Westley Welch.

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Raquel, no papel de uma inverossímil – mas fantástica – mulher da idade da pedra. Nas fotos acima e embaixo.

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No filme “The Shawshank redemption” um prisioneiro – interpretado pelo ator Tim Robbins – fez um túnel cuja entrada estava coberta por um poster de Raquel Welch (a cena em questão, quando o diretor da prisão descobre o poster, aqui ). Em 2007, prisioneiros da vida real fizeram o mesmo (mais detalhes desta fuga, aqui). No filme, Tim Robbins, à revelia dos guardas, tranca-se na sala dos alto-falantes da prisão para colocar para todos os prisioneiros a “Canzonetta sull’aria”, da ópera Le nozze di Figaro, de Wolfgang Amadeus Mozart. Neste link cantam Renata Scotto, no papel da ‘Contessa’ e Mirella Freni, no papel de ‘Susana’. Aqui. E a cena do filme, com o Tim Robbins, aqui.

blog1vinheta55b Esta contribuição de gens provenientes do planalto boliviano ficaria conhecida em todo o planeta com o filme “Um milhão de anos antes de Cristo” (não era sua estreia no cinema, mas foi o filme que a fez famosa).

Ali, ela ostentava um inverossímil biquíni de pele, interpretando uma (mais ainda inverossímil) cenozoica mulher do tempo das cavernas (em uma sui generis cronologia paleontológica típica de Hollywood que assustaria qualquer arqueólogo). O umbigo de Welch perdurou nos corações e mentes dos espectadores mais além da breve frase que pronunciou na ocasião: “Me Loana… you Tumak” (Eu Loana… você Tumak).

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Em 1966 Raquel Welch foi a mulher mais fotografada em todo o planeta pela mídia

blog1vinheta55b Welch só visitou a terra natal de seu pai há 14 anos, no ano 2000.

Ela afirma que é “Raquel” (em espanhol) e não “Rachel” (versão em inglês) pois recebeu o nome em homenagem à sua avó materna, Raquel, que conheceu quando tinha 32 anos.

Em suas bem-humoradas memórias, intituladas “Beyond the cleavage” (Mais além do decote), Welch recorda como sua mãe guardava as fotos que ela havia feito durante os dois anos que havia residido em La Paz com seu marido, pouco depois de casar e logo antes de Raquel nascer (a atriz é sobrinha de Lidia Gueiler Tejada, ex-presidente da Bolívia entre o 16 de novembro de 1979 e o 17 de julho de 1980. Ela foi presidente interina do país, eleita pelo Parlamento. Lidia Gueiler Tejada foi a única presidente da História da Bolívia … e a segunda na História latino-americana, depois de Isabelita Perón, que havia governado a Argentina entre 1974 e 1976).

Raquel Welch quase foi escolhida para fazer “Barbarella”. Mas, em seu lugar foi colocada a jovem Jane Fonda, que ostentava modelitos nos quais também exibia seu umbigo, embora, com menor transcendência internacional do que o já citado integrante da anatomia “yankee-boliviana”.

A atriz quebrou preconceitos ao protagonizar no filme “100 rifles”, de 1969, a primeira cena de sexo interracial do cinema dos EUA com o ator afro-americano Jim Brown (o primeiro beijo interracial em uma série de TV foi no capítulo 67 da terceira temporada de Star Trek, entre William Shatner – o capitão James T.Kirk – e a atriz Nichelle Nichols, a personagem Nyiota U.Uhura).

Welch, esse festival de curvas e sex-appeal foi batizada (muito antes de Elle Mc Pherson) de “The Body” (O Corpo). Nos anos 60 foi a sex symbol par excellence, depois do falecimento de Marilyn Monroe.

COLÔMBIA – Meu amigo Felipe Machado, jornalista, blogueiro e escritor, foi inquirido por “Os Hermanos” sobre umbigos de destaque desde a virada do século. Felipe matutou brevemente e respondeu: “o da Shakira”. Segundo ele, a cantora colombiana descendente de libaneses e catalães possui uma cintura supimpa que serve de moldura a um batuta umbigo. Algo assim como o sorriso de Mona Lisa dentro do quadro geral de Da Vinci, Leonardo.

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Shakira, um umbigo latino com carga genética do Oriente Médio

Desta forma, Shakira faria que o umbigo comme il faut fique ainda dentro de nossa esfera latino-americana (se for o caso de ufanar-se de nossos umbigos regionais). Shakira ainda tem como valor agregado seu know-how em danças do ventre, resultado de sua herança cultural do Oriente Médio.

Ela teve sucesso de forma quase simultânea a um novo fenômeno na moda destacado por Desmond Morris, o antropólogo americano, que sustenta que o mundo ocidental, que tradicionalmente havia coberto o ventre das mulheres ao longo dos séculos (pelo menos, na vida cotidiana) começou, a partir dos últimos anos (1998, para ser exato, segundo o próprio sustenta) a instalar (nas mulheres) os jeans de cintura baixa, de forma a revelar de forma persistente o umbigo.

Morris também destaca que a organização “Observatório do umbigo”, nos EUA, classifica os umbigos em 10 tipos diferentes, entre os quais, o já citado tejada-welchiano “grão de café”.

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A bela Onfalia e seu umbigo. E Hércules. Quadro de François Boucher, de 1735. Museu Pushkin, Moscou.

blog1vinheta71bREFERÊNCIAS UMBILICAIS

Onfalia (ou Ónfale, ou ainda  ?????? ), era na mitologia grega filga de Iardanos e esposa de Tmolos, rei de Lídia (região na Ásia Menor). Quando seu marido foi bater alcatra na terra ingrata – tal como dizemos lá em Londrina – Onfalia seduziu o semi-deus Hércules. Este, ficou totalmente submetido aos encantos da rainha recém-empossada. Seu umbigo havia deixado Hércules fascinado. O nome dessa sex symbol helênica vinha de “omphalos” (umbigo). Isto é, Onfalia era a tal do (belo) umbigo.

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Mais Onfalia, exibindo seu umbigo. E o Hércules. “Hércules e Onfalia”, de François Lemoyne. Obra de 1724. Museu do Louvre, Paris.

Na Bíblia, o único trecho hot deste livro sagrado é o “Cântico dos cânticos”, atribuído ao rei Salomão, famoso por seu apreço pelo belo sexo. E ali, para exaltar a estonteante Sulamita, o monarca indica: “teu umbigo, como cálice redondo, ao qual nunca lhe falta o licor”.

Mário Quintana, querido falecido poeta gaúcho, cita o umbigo em um de seus poemas:

O teu querido umbiguinho,

Doce ninho do meu beijo Capital do meu desejo,

Em suas dobras misteriosas, Ouço a voz da natureza

Num eco doce e profundo,

Não só o centro de um corpo,

Também o centro do mundo 

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Um prato de tortellini, a pasta que representa o belo umbigo. De Vênus ou de Lucrécia Borgia, tanto faz (foto da Wikipedia)

TORTELLINI (OU A ONFALOFAGIA) – Os tortellini são a pasta recheada, originária de Bologna e Modena. Esta massa, que emula o formato de um umbigo, tem uma lenda que indica que ela surgiu quando uma noite em pleno Renascimento, depois de uma batalha entre tropas de Bologna e Modena os deuses Baco e Marte, acompanhados pela deusa do amor e da beleza, Vênus, fizeram um pit-stop em uma taverna à beira de uma estrada.

Na manhã seguinte, Baco e Marte saíram para esticar suas olímpicas pernas, enquanto deixavam Vênus dormindo. A deusa depois acordou e, não vendo seus partners, começou a chamar alguma pessoa. Apareceu o dono da taverna, que, ao ver a deusa – e impressionado com tanta beleza – voltou à cozinha e, pegando um pouco de farinha de trigo, fez uma massa com o formarto do umbigo da deusa. Assim, segundo diz a lenda, nasciam os tortellini.

Outra lenda indica que não era Vênus a protagonista da cena que propiciou o surgimento dos tortellini, mas sim Lucrécia Bórgia, uma das mais famosas representantes do jet-set do Renascimento. O taverneiro em questão teria espiado La Borgia pela fresta da fechadura, podendo vislumbrar somente seu umbigo.

Atualmente, Castelfranco Emilia, no meio do caminho entre Modena e Bologna, celebra a festa dos tortellini.

Em resumo: a próxima vez que o caro/a leitor/a comer um prato de tortellini, estará deglutindo símbolos eróticos. Em resumo, parte 2: onfalofagia.

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Em todo seu esplendor, a deusa Vênus, segundo o genial Sandro Boticelli (1445-1510). O quadro chama-se “Nascita di Venere” (O nascimento de Vênus). Foi pintada em 1484. Está na Galeria Uffizi, em Florença, Itália. O umbigo é o foco do quadro. Obviamente.

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ANONFALIA (a ausência do umbigo): Assunto debatido por teólogos na Idade Média no qual discutia-se se Adão e Eva tinham ou não umbigo. Já que não tinham pais e mães biológicas (nem sogros, teoricamente, muito menos cunhados e cunhadas), não teriam umbigos (pois não haviam nascido de partos).

Vários pintores da Idade Média e do Renascimento também depararam-se com esse dilema. Sempre estava o risco de que algum representante da Igreja não gostasse da representação pictórica dessas famosas duas primeiras pessoas, que, por uma questão de roteiro bíblico precisavam ser exibidas nuas. E portanto, tinham que mostrar se tinham ou não umbigos.

Também pairava a questão: se Adão e Eva eram pintados com umbigos… e se haviam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, logo Deus deveria ter umbigo. E se tinha umbigo, quem havia dado luz  a Deus?

Os turcos, muçulmanos (Adão e Eva também fazem parte da teologia muçulmana), conseguiram criar uma lenda que explicava o problema do primeiro umbigo. A explicação era que, Satã havia ficado furioso quando Alá criou o primeiro ser humano e cuspiu na direção do ventre de Adão. Sua saliva caiu no centro da barriga do primeiro homem. Mas, Deus rapidamente limpou a mancha causada em Adão. No entanto, a saliva cuspida pelo demônio deixou um pequeno buraco… e assim surgiu o primeiro umbigo.

blog1vinheta71bAnonfalia e humor: Uma piada britânica no início do século XX seguia esta linha teológica. A piada indicava que um dia Sherlock Holmes morria e ia para o Céu. Nas portas do Paraíso era recebido, como corresponde, por São Pedro. E ali começava o diálogo:

– Bem vindo, sr. Holmes. Lhe aviso que o deixarei entrar se, no meio dos bilhões de pessoas que aqui estão, descobrir quais delas são Adão e Eva.

– Elementar, caro São Pedro…são as únicas pessoas que não possuem umbigo.

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Holmes explica não a São Pedro, mas sim a Watson, algumas de suas deduções. Ilustração do emblemático Sidney Paget, na revista britânica Strand. Um de meus atores preferidos que interpretaram o detetive era o falecido Jeremy Brett,  que além de brilhante ator era cantor. Neste link ele canta Da geh ich zu Maxim (em inglês) da opereta “A Viúva Alegre”, de Franz Léhar. A letra é uma ácida ironia sobre o dolce far niente dos diplomatas. Aqui.

blog1vinheta62 Omphaloskepsis: em grego, contemplação do umbigo próprio como ajuda para meditação.

blog1vinheta62 Onfalocêntrico: pessoa que olha para o próprio umbigo. Egocêntrico.

blog1vinheta62 Onfalamomancia: a arte de adivinhar o futuro dos bebês pelos nós e contornos do umbigo.

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Mais uma vez, feliz dia do umbigo! E feliz aniversário, señora Raquel!

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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