Feliz “Dia Nacional del Hijo de Puta” (e um pouco de Shakespeare e Reinhard Keiser)
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Feliz “Dia Nacional del Hijo de Puta” (e um pouco de Shakespeare e Reinhard Keiser)

arielpalacios

02 de agosto de 2014 | 21h56

Em 2011 a revista satírica argentina “Barcelona” lançou a iniciativa de declarar o dia 2 de agosto como o “Dia do filho da puta”.

A efeméride pretendia honrar o ex-ditador e general Jorge Rafael Videla (nascido em 1925 nesse dia), considerado pelos jornalistas da redação da publicação como emblema dos filhos da p.. da Argentina.

No twitter o hashtag #DiaDelHijoDePuta faz grande sucesso nessa época do ano durante as convocações na web para festejar o dia, com declarações de “feliz dia do filho da p…” a parentes, chefes, empresários, políticos, entre outros.

Videla morreu no dia 17 de maio do ano passado, sentado em seu vaso sanitário da cela da prisão de Marcos Paz, onde cumpria prisão perpétua pelo seqüestro, tortura e assassinato de civis.

  

Família Videla escondeu durante décadas a existência de um filho com problemas mentais. O ditador permitiu o assassinato das freiras que ajudaram o menino Alejandro Eugenio Videla. Quando esta foto foi feita para a revista “Parati” Alejandro Videla não existia mais. E se existisse, não estaria nela.

O ex-ditador Jorge Rafael Videla permitiu a morte das freiras que haviam criado um filho seu que padecia problemas mentais. As freiras, assassinadas na Escola de Mecânica da Armada (Esma) em 1977, haviam tomado conta de Alejandro Videla, que nasceu em 1951 com elevado grau de problemas. Aos doze anos o garoto – uma década e meia antes de Videla transformar-se ditador – foi confinado em um lar religioso por ordem de seu pai, que padecia profunda vergonha de ter um filho com essa condição.

Alejandro morreu no dia 1 de junho de 1971 por causa de um edema pulmonar gerado por insuficiência cardíaca. Tinha apenas 19 anos.

Enquanto Alejandro esteve vivo os Videla jamais admitiram a existência dessa criança em público.

Em 2005 Jean-Pierre Lhande, presidente da Associação de Parentes e Amigos dos Desaparecidos Franceses, não teve papas na língua ao referir-se ao caso: “a Congregação das Irmãs das Missões Estrangeiras, que foi criada na França por uma freira argentina, a Madre Dolores, criou o filho com problemas mentais de Videla. E ele era presidente quando as freiras desapareceram e mesmo assim, não fez absolutamente nada. Estas freiras criaram seu filho em Castelar (província de Buenos Aires) durante anos!”.

A existência de Alejandro tornou-se pública quando os jornalistas María Seone e Vicente Muleiro detalharam sua história em “O Ditador”, a primeira biografia sobre Videla.

Segundo os autores, as duas freiras haviam sido “amáveis, piedosas e solidárias com essa desgraça familiar dos Videla”. Além disso, as dedicadas freiras esforçaram-se em ensinar Alejandro a ler com o método Blequer, para crianças com baixo coeficiente mental.

As freiras eram as francesas Léonnie Duquet e Alice Domon. Duquet foi seqüestrada em dezembro de 1977 por um comando liderado pelo então tenente (e posteriormente capitão) Alfredo Astiz, conhecido como “o anjo loiro” ou “o anjo da morte”.

As duas freiras francesas na pista do aeroporto de Ezeiza no início dos anos 70.

Astiz torturou Duquet com choques elétricos, especialmente nos genitais. O crime da freira, segundo os militares, era o de ajudar favelados e participar de grupos de defesa dos Direitos Humanos. Depois de uma semana de ter sido torturada nua sobre uma cama, Duquet, de 61 anos, foi jogada desde um avião sobre o Rio da Prata.

Videla soube da detenção das freiras enquanto elas ainda estavam presas na Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o maior centro de detenção e torturas da ditadura argentina.

No entanto, segundo relatos, não se incomodou quando soube que as mulheres que haviam tomado conta de seu filho estavam sendo torturadas e corriam risco de vida. Ele só mostrou perturbação quando soube que a detenção das freiras já era de conhecimento do jornalismo internacional. Nesse momento, exclamou, referindo-se aos militares que as haviam seqüestrado serem discretos: “além de animais, são ineptos”.

Na época da revelação da existência de Alejandro, a esposa do ex-general, Raquel Hartridge de Videla, declarou que nunca havia tido um filho com problemas mentais.

Alejandro, que sofria de oligofrenia e epilepsia, escondido do resto da sociedade e dos amigos da família, morreu de forma anônima, abandonado pela família.

Acima, o anúncio da Revista Barcelona promovendo o dia de homenagem a Videla. E aqui embaixo, manifestação em Madri na qual uma trabalhadora do sexo indica que discorda do epíteto mundial exclamado quando alguém quer criticar um homem do poder pelas vias maternas.

DESAPARECIDOS

– Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.

A Comissão Nacional de Pessoas Desaparecidas (Conadep) reuniu o registro de 9 mil denúncias de pessoas desaparecidas.

– Os militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis (segundo declarações dos ex-ditadores Reynaldo Bignone e Jorge Rafael Videla)

– Segundo os militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.

BEBÊS

– Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)

– 109 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas.

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES

Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica.

Fiascos Militares:

– Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drasticamente o profissionalismo dos militares.

– Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

– Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

– Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

– A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

– A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

– A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

– Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

– Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

– Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

– No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

– A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

Na política externa a Ditadura também mostrou um comportamento peculiar:

– Acreditou que os EUA ficariam de seu lado na Guerra das Malvinas, já que a Ditadura havia sido um bastião anticomunista na América do Sul e até havia colaborado na guerrilha dos ‘contras’ na América Central. Os militares argentinos não levaram em conta que pesaria mais a velha aliança EUA-Grã Bretanha por motivos históricos e pela participação na OTAN.

– A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.

FILHO DE P…, SHAKESPEARE E ÓPERA

Alguns dicionários europeus citam a expressão “filho da p…” no século 17. Aliás, aparece em “Rei Lear”, de William Shakespeare, em 1605 E o bardo de Stratfor-on-Avon usa mesma expressão duas vezes em um parágrafo. Mas, por uma questão de edição e elegância, para não repetir o termo clássico, usa um substituto. Isso ocorre na parte da peça quando o personagem Osvald pergunta ao Duque de Kent o que acha dele.

E o duque responde: “Um canalha, um patife, um comedor de restos; um velhaco arrogante, estúpido, indigente, que tem apenas três roupas e meias fedorentas, um filho da puta covarde, sem sangue no fígado, que foge da luta e se queixa à justiça, trapaceiro afeminado e sabujo. Um escravo que herdou apenas um baú, que presta serviço numa alcova, um alcoviteiro; no fim, uma mistura de canalha, mendigo, covarde, rufião, filho e herdeiro de uma cadela bastarda a quem eu espancarei até que estoure em berros, se negar a menor sílaba do que eu disse agora”.

Além dos clássicos da literatura, a expressão em alemão, “Hurensohn”, já aparecia em 1710 na ópera “Croesus”, de Reinhard Keiser.

Alguns especialistas sustentam que o insulto perdeu sua força nos últimos anos em todo o mundo, devido a seu intensivo uso cotidiano. Inclusive, porque ocasionalmente ele é usado como elogio.

Isso já acontecia no século 16, quando Miguel de Cervantes, em seu livro “O Quixote”, coloca na boca de seu personagem Sancho Pança uma explicação na qual indica que, eventualmente, a expressão não é um xingamento, mas sim um elogio.

Mas, vários lingüistas consideram que o uso desse clássico das injúrias mantém seu poder. O que importa nesse impropério, ressaltam, é o tom com o qual é pronunciada. O lingüista espanhol Guillermo Sheridan sustenta que é um insulto que tem várias vias:

a) Insulta-se o adversário por ser “filho” da supracitada…Mas, por metonímia, insulta-se a mãe, por motivos óbvios, e o pai, já que está casado com essa profissional. 

b) É um insulto que implica em continuidade no tempo, já que o filho da supracitada profissional foi ao nascer, continua sendo no presente e continuará sendo no futuro.

E voltando ao idioma espanhol: a pressa do mundo moderno fez que em vários países hispano-falantes a expressão original tenha se contraído, em algo que soa como “Jópú”.

E encerrarramos com “Croesus”, de Reinhard Keiser:

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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