‘Flor de bolonqui’
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‘Flor de bolonqui’

arielpalacios

08 de janeiro de 2010 | 13h20

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O governo da presidente Cristina Kirchner está, por contra própria, no meio daquilo que os argentinos chamam de “flor de quilombo”. Isto é, traduzindo livremente, “um imbróglio federal” ou um “abacaxi atômico”.
A palavra “quilombo” é utilizada no lunfardo (gíria) portenho. Em seu uso no século XIX referia-se aos quilombos rebeldes surgidos no Brasil. Mas, com o passar do tempo o significado original foi perdido e transformou-se em sinônimo de bordel. Nos últimos 50 anos mutou novamente e passou a equivaler a bagunça ou imbróglio de considerável magnitude.
E a palavra “bolonqui” é mais uma adaptação do lunfardo, que também coloca várias palavras “al revés” (ao contrário). No denominado ‘vesre’ (a palavra espanhola “revés” ao contrário), “bolonqui” é uma forma de dizer “quilombo”.

A palavra ‘flor’, neste caso, é usada para ressaltar a magnitude do imbróglio.
Flor de Bolonqui poderia ser “Um colossal abacaxi”.
mnaobaixco
RESUMO DA ÓPERA (de dimensões wagnerianas mas com um touch buffo de Gioacchino Rossini):

DRAMATIS PERSONAE –
Cristina Elisabet Kirchner, presidente da República que gosta do apelido de ‘Rainha Cristina’

Néstor Kirchner, ex-presidente da República, mas considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, que coincidentemente, foi sua sucessora

Martín Redrado, presidente ou ex-presidente do Banco Central,neo-liberal colocado no cargo pelos Kirchners em 2004 e que durante seis anos concordou com a política econômica do casal presidencial

Miguel Ángel Pesce, presidente do BC ou quase presidente do BC, melhor, presidente paralelo do Banco Central, designado por Cristina Kirchner para ser presidente temporário da entidade

Mario Blejer, ex-presidente do BC argentino, ex-funcionário do FMI, ex-diretor do Banco da Inglaterra, convidado para ser novamente presidente do BC (mas ainda não aceitou… ou algo assim)

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Redrado, figura central deste imbroglio

mnaobaixco
LINHAS GERAIS DO LIBRETO
Quarta-feira, dia de Reis. Cristina E. Kirchner começa a manhã exigindo a renúncia do presidente do Banco Central, Martín Redrado, que até poucos dias, havia sido bastante obediente às ordens do governo.

Por trás da crise entre Redrado e a presidente Cristina está a decisão do governo de usar reservas do BC para o pagamento da dívida pública que vence em 2010.
Nos dias prévios Redrado havia dado sinais de que não concordava com o “Fundo Bicentenário”, um projeto do ministro da Economia, Amado Boudou, homem de confiança da presidente Cristina, que pretendia usar as reservas do BC para o cancelamento da dívida de US$ 6,5 bilhões relativos a parte dos títulos da dívida pública que vencem neste ano.

O uso das reservas provocaria uma redução das reservas do BC dos atuais 47,98 bilhões para US$ 41,48 bilhões.

Mas, a gota d’água havia ocorrido entre a terça-feira à noite e a quarta-feira de manhã, quando surgiu a notícia de que Redrado se reuniria com dois importantes líderes da oposição, o senador Gerardo Morales e o deputado Ernesto Sanz, da União Cívica Radical (UCR). Morales e Sanz pretendiam saber da própria boca de Redrado se ele era – ou não – a favor do uso das reservas do BC.

Cristina, sem esperar uma resposta de Redrado – e com a certeza que o jovem presidente da entidade não ousaria desafiar o poder dos temperamentais e vingativos Kirchners – até havia convidado o ex-presidente do BC, Mario Blejer, para assumir o posto vazio.
Mas, o posto não estava vazio…o presidente do BC (isto é, Redrado) deixou claro que não renunciaria.

Tensão crescente entre a Casa Rosada e o Banco Central ao longo do dia.
Entram em cena os partidos de oposição (do lado de Redrado) os sindicatos (do lado da presidente Cristina), banqueiros alinhados com os Kirchners. E de quebra, os partidos de esquerda tradicional (contra Redrado e contra Cristina Kirchner). E além deles, entram em cena os mercados assustados com todo o rebuliço.

Na quarta-feira, a inesperada decisão de Redrado – conhecido por evitar ao máximo os confrontos – de resistir à pressões é considerada mais um revés para a presidente Cristina e seu marido, ex-presidente e atual deputado Néstor Kirchner.

Os líderes dos partidos da oposição ficam enfaticamente do lado de Redrado e afirmam que sua eventual remoção deveria ficar a cargo do Senado (tal como a lei manda) onde o governo está em ajustada minoria.

Na quinta-feira Redrado acorda e vai para o prédio do BC. Na porta da casa, afirma que continuará no posto e não vai renunciar.

Mais de 300 funcionários do BC realizaram um “aplaudaço” de respaldo a Redrado na frente do edifício da entidade financeira.

Além deles, Redrado contar com a opinião pública, já que diversas pesquisas indicam que 85% dos internautas não concordam com a remoção do presidente do BC.

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Uf!
Bom, uma pausa, e música para acompanhar o ritmo desta crise: “Liebesbotschaft Galopp”, de Johann Straus.
O link:

maostrasuss A presidente Cristina Kirchner opta pelo denominado “estilo K” de aplicar ordem em seu governo, e sem delongas decide demitir Redrado do Banco Central, passando por cima da autonomia (frequentemente violada, por governos anteriores, inclusive) da entidade financeira.
Convoca todos os ministros para assinar um decreto que implicará na remoção de Redrado. Diversos ministros devem cancelar as férias na praia, interromper o bronzeado e os jogos de cartas com os amigos e voltar à abafada Buenos Aires para colocar a rubrica no documento de Cristina.
Fim da tarde, Redrado é removido do posto por decreto.

A oposição afirma que Cristina Kirchner não pode interferir na autonomia do BC.
O governo diz que sim, pode interferir à vontade.

Na sequência, rumores indicam que Redrado se entrincheirará no prédio do BC. Fontes do governo afirmam que vão enviar a polícia retirar o rebelde presidente do BC dali.

Quase à meia-noite da quinta-feira, Redrado, que ainda estava no prédio do BC, anunciou que “deixa o cargo mas não renuncia” e que recorrerá à Justiça

O país contava na sexta-feira ao meio-dia com dois…ou três presidentes do BC.
1 – Redrado que foi embora mas não renunciou.
2 – Pesce, que tomará posse provisoriamente
3 – Blejer que foi convidado pelo governo. E o governo já anunciou categoricamente que será o presidente definitivo do BC.

SEM BANDA LARGA
Detalhe da web: até as 15:30 (horário de Brasília), no site do Banco Central Argentino, Redrado ainda aparecia como virtual presidente da entidade.
M.A. Pesce ainda era registrado como o vice-presidente.

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Redrado, Blejer, presidentes e ex-presidentes do BC…e ainda, está o ‘interino’, M.A.Pesce

mnaobaixco
MAS…
No fim da tarde, tudo isso era parte do passado.
Os céleres e frenéticos acontecimentos exibiram uma nova virada no fim desta sexta quando a juíza federal María José Sarmiento ordenou a restituição no cargo de Martín Redrado.

Redrado, que ficou quase 24 horas fora de seu cargo, fez uma reentrada triunfal ontem no fim da tarde, aplaudido pelos funcionários da entidade

E de quebra, a juíza María José Sarmiento determinou a suspensão do decreto da presidente Cristina que implementava uso de reservas para o pagamento da dívida pública.

E o governo afirma que vai entrar com um recurso na Justiça para desfazer a medida da juíza Sarmiento que desfez a ordem da presidente Kirchner.

Setores da oposição afirmam que levarão a presidente Cristina a julgamento político no Parlamento.

O quilombo atinge níveis sem precedentes. Uma flor de bolonqui. Bolonqui wagneriano. Ou bolonqui-buffo.

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Crise desatada por Cristina teria rendido libreto para uma ópera buffa de G.Rossini (1792-1868).
Ou, talvez uma ópera trágica, com mega-produção, como as de Richard Wagner.
Embaixo, Johanna Gadki(1872-1932), soprano americana-alemã no wagneriano papel de Brünnhilde.

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PARADOXOS do bolonqui
Os Kirchners dizem que são de esquerda mas querem pagar as dívidas com Wall Street, organismos financeiros internacionais e demais credores.

A direita, que costuma pedir o pagamento das dívidas, não quer que este pagamento específico seja realizado dessa forma, pois complicaria a situação das reservas do BC e alega que esse pagamento será feito de forma ilegítima.

A esquerda tradicional, que também critica os Kirchners, respalda por tabela o presidente neo-liberal do BC, Redrado, e afirma que a dívida não deve ser paga. Diferença com Redrado: “a dívida é ilegítima”.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) acusa Redrado de ser um representante do neo-liberalismo e dos capitais transnacionais, além de ser um homem das “direitas”.
Mas, a CGT aceita a decisão dos Kirchners de colocar Blejer no comando do Banco Central. Blejer, longe de ser um revolucionário de esquerdas, trabalhou 20 anos para o FMI (que os Kirchners e a CGT abominam), para o Banco da Inglaterra e já foi presidente do BC durante o governo de Eduardo Duhalde (que os Kirchners e a CGT abominam).

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Relação entre Redrado e Cristina Kirchner foi boa na maior parte do tempo

PROBLEMAS deste bolonqui
Segundo o cientista social Sergio Berensztein, diretor da consultoria Poliarquia, as pressões do governo sobre Redrado “aprofundam a insegurança jurídica” e podem provocar “consequências institucionais muito negativas”.

O think tank Rosendo Fraga afirma que os Kirchners acostumaram-se a governar como “hiper-presidentes”. Mas, destaca que esse período no qual os Kirchners podiam fazer o que queriam, acabou.

Este é mais um abacaxi que Cristina Kirchner cria para si própria.
De quebra, nos últimos dias pipocaram por todos os lados candidaturas presidenciais da oposição.
Além disso, teve vários reveses na Justiça, que cancelou diversas medidas polêmicas de Kirchner, entre elas, vários artigos da Lei de Mídia.
Como se fosse pouco, nos últimos dois meses intensificaram-se os protestos de sindicatos independentes, aumentou a pobreza e o desemprego.

O ano do Tigre não começou bem para ‘Los Pingüinos’.

BOLONQUI PLUS – REVESES & REBELIÕES que aumentam o bolonqui generalizado
Desta forma, a presidente Cristina Kirchner sofre a segunda rebelião de peso em suas fileiras em dois anos de governo. A primeira, em julho de 2008, foi a do vice-presidente Julio Cobos, que recusou-se a votar a favor do “tarifaço agrário” do governo no Senado. Com seu voto de Minerva (o vice, na Argentina, é o presidente da Câmara Alta), derrubou o impopular projeto.

Aliados do governo exigiram a renúncia de Cobos. Este, no entanto, recusou-se a deixar o cargo. Cobos voltou à oposição e atualmente – ainda ocupando o cargo de vice-presidente – é o principal presidenciável para as eleições de 2011.

A segunda rebelião é a de Redrado, economista de confiança do casal Kirchner, que em diversas ocasiões o consideraram para a pasta da Economia.

Os dois golpes, provenientes de ex-aliados, acrescentam-se à perda de poder do governo, que desde a posse do novo Parlamento, em dezembro, constitui a primeira minoria na Câmara de Deputados e no Senado.

De quebra, o governo também sofreu recentes reveses em sua guerra contra o Grupo Clarín, o maior holding multimídia do país. Ao longo das últimas quatro semanas vários juízes anularam artigos da polêmica Lei de Mídia, com a qual o governo pretendia reduzir o poder de atuação das empresas de comunicação. Além disso, a Justiça também suspendeu a anulação realizada pelo governo da fusão das empresas Multicanal e Cablevisión, pertencentes ao Clarín.

Além disso, nas últimas duas semanas foram anunciados oficialmente o lançamento de diversas candidaturas presidenciais da oposição.

Lançaram suas candidaturas o ex-presidente Eduardo Duhalde o vice-presidente Cobos e o prefeito portenho Mauricio Macri.

Para complicar, as pesquisas indicam que a aprovação popular do casal Kirchner é baixa, enquanto que sobe diariamente a imagem positiva dos líderes da oposição.

flores
Cenário é de várias ‘flores’ de bolonqui

BOLONQUI TRADICIONAL: em 75 anos de existência, BC argentino teve um presidente a cada 16 meses

O Banco Central da Argentina conta com autonomia desde 1995. No entanto, nestes 15 anos autônomos, a liberdade do BC foi atacada várias vezes pelos governos de plantão. Nesse período, a entidade financeira teve sete presidentes, incluindo o atual (removido mas não renunciado), Martín Redrado (um presidente do BC a cada dois anos).

A primeira grande violação da autonomia do BC ocorreu em abril de 2001, quando o então presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) decretou a remoção do presidente da entidade, Pedro Pou, considerado uma “herança” do governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99). No meio da crescente crise financeira, De la Rúa acusou Pou de “negligência” no cumprimento de suas funções no controle de lavagem de dinheiro e de “desconhecimento sobre o alcance de suas funções como policial do sistema financeiro”.

Seu sucessor, Roque Maccarone, foi pressionado em 2002 pelo então presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003) para deixar o cargo por causa de divergências entre o governo e o BC sobre o “corralito” (o mega-confisco bancário que agravou a crise de 2001-2002).

O sucessor de Maccarone, Mario Blejer, que durante 20 anos havia trabalhado no FMI, durou somente cinco meses no cargo, o qual deixou por diferenças com o ministro da Economia, Roberto Lavagna. Blejer, ao ir embora, disse a Duhalde que a autonomia do BC estava sendo “debilitada”.

O sucessor de Blejer, o jovem Alfonso Prat-Gay, ficou quase dois anos no cargo. Prat-Gay completou o mandato inacabado de seus sucessores. Mas, embora respaldado pelo setor financeiro e o empresariado, optou por não aceitar a renovação do mandato por causa das profundas divergências que tinha com o presidente Néstor Kirchner sobre a independência do BC. Prat-Gay foi sucedido por Martín Redrado, cujo cargo, oficialmente, só conclui em setembro.

Desde sua criação, em 1935, o Banco Central teve um total de 54 presidentes. Isso indica que em 75 anos de existência, a entidade teve um presidente do BC a cada 16 meses.

FLORES, QUILOMBO E ÓPERAS
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E falando sobre a flor de quilombo, e crise com enredo operístico, este link do Youtube para Plácido Domingo interpretando em 1978 a ária “La fleur que tu m’avais jetée” (A flor que você me jogou), da ópera “Carmen”, de Georges Bizet. A orquestra é da Ópera de Viena. Regência de Carlos Kleiber. Direção de Franco Zeffireli.
O romance do militar José com a independente e passional Carmen acaba sendo uma flor de bolonqui…
O link:

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