FMI deixa de ser ‘escorpião venenoso’ e passa a ajudar governo Kirchner (e de brinde, o Cristina Kirchner remix)
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FMI deixa de ser ‘escorpião venenoso’ e passa a ajudar governo Kirchner (e de brinde, o Cristina Kirchner remix)

arielpalacios

25 de novembro de 2010 | 14h40

Em “The black scorpion”, de 1957, um marombado escorpião que poderia ter contracenado com King Kong segura um Homo Sapiens com propósitos de transformá-lo no lanche dessa noite. Esta espécie de Scorpionida rex é o protagonista deste filme que é quase um farwest de ficção-científica ambientado no México. Segundo Cristina Kirchner, FMI era um escorpião similar. Mas, tudo mudou. Agora, o FMI vai ajudar o governo argentino.

“Fazer um acordo com o FMI seria como abaixar as calças”. A frase, pronunciada no mês passado pelo ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, está arquivada. Na terça-feira à noite, o próprio Boudou, visivelmente constrangido, anunciou que o governo da presidente Cristina Kirchner – que recentemente chamou o Fundo Monetário de “escorpião venenoso” – havia decidido recorrer à ajuda do organismo financeiro para elaborar um novo índice de inflação. O atual índice, feito pelo Instituto de Estatísticas e Censos (Indec), é suspeito de intensa manipulação implementada pelo governo desde janeiro de 2007.

Em dezembro desembarcará em Buenos Aires uma missão do FMI para iniciar os trabalhos de assessoria. Essa será a primeira vez em quatro anos que uma equipe do organismo coloca os pés na capital argentina, já que  o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) – considerado o verdadeiro poder no governo da mulher, a presidente Cristina – opunha-se categoricamente à interferência do Fundo.

“Não queremos mais lições do FMI”, disse Kirchner pouco antes de morrer de um ataque cardíaco fulminante em outubro. Anos atrás, ao pagar a totalidade da dívida argentina com o Fundo, Kirchner exclamou “tchau FMI!”, para indicar que não queria mais a presença do organismo em qualquer aspecto da vida econômica argentina.

Há poucas semanas, o chanceler Héctor Timerman havia feito questão de destacar supostas negociações com o Fundo: “o FMI é uma organização que não possui prestígio. Não espero nada do Fundo. O que o FMI diga não me importa”. Na ocasião, Timerman disse que os jornalistas que estavam publicando informações sobre a existência de negociações entre o governo Kirchner e o FMI não passavam de “mentirosos”.

Ministro Boudou disse há um mês que fazer um acordo com o FMI seria como “abaixar as calças”. Ontem, fez questão de ressaltar que não havia exposto seu underwear ao Fundo. “Não abaixamos nossas calças!”, exclamou. “Quando existem questões que nos servem, as fazemos… e quando existem questões que não nos servem, não as fazemos”, explicou Boudou de forma críptica, perante as sombrancelhas erguidas de vários jornalistas. Na ilustração acima, os atores Warren William e Gene Lockhart em uma cena de calças arriadas em “Times Square Playboy”. Filme de 1936

 Analistas afirmam que com esta manobra a presidente Cristina tenta recuperar a credibilidade perdida do Indec, organismo que está desde janeiro de 2007 sob férrea intervenção do governo. Além disso, a presidente, que na semana passada anunciou a retomada das negociações com o Clube de Paris para o pagamento da dívida de mais de US$ 7 bilhões em estado de calote, estaria tentando mostrar uma imagem mais “market friendly”. Os analistas destacam que esta “virada” na política do governo só foi possível graças à morte do ex-presidente Kirchner, ocorrida há um mês.

A confecção do atual índice de inflação é questionada pelo FMI, o Banco Mundial, partidos da oposição, economistas independentes e a própria opinião pública argentina. O governo sustenta que a inflação acumulada entre janeiro e outubro foi de 9,2 %. No entanto, segundo economistas independentes, ela teria oscilado entre 21% e 23%.

O MINISTRO E OS ‘NAZISTAS’ – O anúncio do pedido de assessoria ao FMI sobre a inflação chamou a atenção, já que Boudou, há três semanas, negou a existência da alta de preços. “Isso não é um assunto para o governo”, disse. Há duas semanas, irritou-se com jornalistas que pretendiam confirmar informações sobre a aproximação do governo com o FMI. Depois de desmentir a notícia, Boudou acusou os jornalistas de “FMI-dependentes”. E depois os chamou de “nazistas”: “são como aqueles que ajudavam  limpar as câmaras de gas no nazismo”.

A comunidade judaica portenha reclamou sobre o uso da expressão. Boudou pediu desculpas à comunidade. No entanto, o ministro – que está sendo investigado na Justiça pela compra sem licitação prévia de 19 carros de luxo – não pediu desculpas aos dois jornalistas. 

 O RAP DE CRISTINA

Além de contar com a emblemática marcha “Los Muchachos Peronistas” para embalar comícios, reuniões e similares dos brothers que militam ou simpatizam com o peronismo, a presidente Cristina Kirchner conta com uma canção própria, o “Cristina Kirchner remix”.

A obra foi feita por Javier de Azkue, que completou o remix com uma melodia de Orlando Cachaito López, o baixo do Buena Vista Social Club.

Azkue considera que o remix da presidente pode ser visto por gregos e troianos, kirchneristas e anti-kirchneristas sem problema algum: “é totalmente político, neutro e objetivo…Tanto pode ser visto por aqueles que a amam, que vão gostar do remix… e aqueles que não gostam dele, com certeza desfrutarão desse rap”.

O remix teve grande sucesso. Nesta quinta-feira de manhã já havia sido visto por 280 mil pessoas. Um dos pontos mais comentados são as mãos da presidente, facilmente adaptáveis ao estilo do rap.

O link do Youtube, aqui.

Um pouco de Quino, que sempre é adequado quando falamos em política…

E um pouco do cartunista Alberto Broccoli, que nos anos 70 e 80 fez sucesso com o “Mago Fafa”, um mago que morria de inveja do Mandrake…

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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