Fortuna de Cristina Kirchner aumentou 687% desde 2003 (e enquanto isso, argentinos permanecem em recessão)
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Fortuna de Cristina Kirchner aumentou 687% desde 2003 (e enquanto isso, argentinos permanecem em recessão)

arielpalacios

20 Novembro 2014 | 10h28

BlogNetunoVenezaneptune-offering-gifts-to-venice

Netuno, o aquático brother do manda-chuva dos manda-chuvas, Júpiter – e portanto, integrante do entourage divino do Monte Olimpo – exibe a cornucópia da fortuna para a bela jovem, que representa a cidade de Veneza. O quadro é “Netuno oferece presente a Veneza” de Giovanni Domenico Tiepolo (Veneza 1727-1804). A obra, que exibe-se no Palazzo Ducale, foi pintada entre 1748 e 1750. A presidente Cristina Kirchner prospera com seu patrimônio pessoal enquanto população argentina não exibe a mesma frondosidade. A recessão permanece e o desemprego cresce.

blog1dedo4Driblando as crises econômicas e a disparada da inflação, a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner – defunto desde 2010 – prosperaram de forma exponencial desde que chegaram em 2003 à Casa Rosada, o palácio presidencial. A declaração oficial de bens da presidente da presidente Cristina Kirchner indica que atualmente possui uma fortuna pessoal de 55,304 milhões de pesos (US$ 6,5 milhões no câmbio atual). Isso indica um aumento em pesos de 14,7% em comparação com 2012, quando sua declaração juramentada registrava bens pelo valor de 48,213 milhões de pesos (US$ 12,05 milhões na cotação da época).

A fortuna oficial do casal Kirchner não parou de crescer desde 2003. Naquele ano os Kirchners possuíam 7,02 milhões de pesos (US$ 2,925 milhões na cotação daquele ano). Isto indica que nos últimos 11 anos o patrimônio dos Kirchners teve um aumento de 687%.

Integrantes da oposição afirmam que chama a atenção o crescimento da fortuna da presidente enquanto esteve ocupada com o exercício do governo.

A presidente retruca afirmando que é uma “advogada de sucesso”. A fortuna da chefe do Poder Executivo argentino é composta por 26 imóveis, dezenas de depósitos bancários e participações acionárias em seis empresas, basicamente do setor de hotelaria e imobiliário na Patagônia. A presidente Cristina é dona de dois hotéis de luxo no vilarejo de El Calafate, na província de Santa Cruz.

O casal Kirchner foi indiciado em dezenas de ocasiões nos tribunais por suspeitas de enriquecimento ilícito. Mas, a maioria dos casos foram arquivados. Alguns dos processos, na província de Santa Cruz, feudo político do casal, estavam a cargo da promotora federal Natalia Mercado. Coincidentemente, ela é sobrinha direta de Néstor e Cristina Kirchner e filha da ministra da Ação Social, Alicia Kirchner.

IMÓVEIS LUCRATIVOS – A oposição destaca pontos polêmicos da declaração, como o caso do terreno de 20 mil metros quadrados que compraram da prefeitura de El Calafate (o refúgio de Cristina Kirchner nos fins de semana, na província de Santa Cruz, na Patagônia). Os Kirchners adquiriram o terreno por US$ 34 mil em 2006. Mas, três anos depois, em janeiro de 2009, o venderam por US$ 1,65 milhão. O casal teve um lucro de 4.752% com esse investimento imobiliário, recorde em todo o país.

BlogCaligula

O escritor francês Albert Camus (1913-1960) colocou na boca de seu personagem Calígula (na peça homônima) as palavras: “Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”. A frase, cunhada por Camus, já era aplicada por muitos governantes antes da estreia de sua peça, em 1944. E, evidentemente, continuou sendo aplicada por governantes em todo o planeta depois da peça. Integrantes da oposição argentina afirmam que o casal presidencial aplica o teorema de Calígula, pelo menos na primeira parte da frase. O Calígula em questão é o famoso Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus (Caio Julio César Augusto Germânico), nascido em 31 de agosto do ano 12 d.C. e morto no dia 24 de janeiro do ano 41. Na profissão de imperador durou um pouco menos do que muitos presidentes, isto é, três anos e 10 meses. Mas, fez o suficiente para ser lembrado ao longo dos séculos. Acima, busto do polêmico imperador no Louvre, Paris.

Acima, o tango “Mishiadura”. Com a orquestra de Edgardo Donato, 1942. No lunfardo (a gíria do Rio da Prata, comum à Argentina e o Uruguai) “Mishiadura” significa miséria, indigência. O termo provém do genovês ‘miscio’.

blog1dedo4ARGENTINOS, EM RECESSÃO

A agência qualificadora Moody’s anunciou que a Argentina encerrará este ano com uma queda de 2% do PIB “ou mais”. Em um relatório destinado a investidores, a agência sustentou que, “embora a economia da Argentina seja maior e mais rica do que a de seus pares, o país está atravancado em uma recessão econômica”. O economista Gabriel Torres, vice-presidente da agência, afirmou que a Moody’s calcula que a recuperação será “no melhor dos casos, modesta em 2015 e 2016”.

Segundo a agência, por trás da recessão argentina estão as restrições cada vez maiores para importar insumos para a indústria argentina, a queda da demanda brasileira de produtos Made in Argentina, além do baixo número de investimentos de empresas privadas. A Moody’s sustenta que o controle de preços e as mais variadas intervenções do governo da presidente Cristina Kirchner na economia prejudicaram projetos de investimentos no país, especialmente na área energética, onde a Argentina fica cada vez mais deficitária.

Além disso, segundo a Moody’s, a recessão argentina aumenta por causa da crescente inflação (calculada pelos economistas em 33%, enquanto que o governo sustenta que não passa de 21,4%).

Torres sustenta que “as decisões de política econômica inconsistentes por parte do governo e persistentes dúvidas sobre a confiabilidade das estatísticas oficiais tornam extremamente difícil para qualquer pessoa determinar qual é a real condição econômica do país”.

No entanto, o governo Kirchner descarta culpas próprias no andamento da economia interna e coloca a responsabilidade na conjuntura internacional. “A economia mundial não está com boa saúde”, disse na terça-feira o ministro da Economia Axel Kicillof.

A população também considera que o estado da economia é preocupante. Segundo uma pesquisa da consultoria Management & Fit, 55% dos portenhos consideram que a situação do país ficará “pior” nos próximos meses. Somente 15% consideram que “melhorará”.

No entanto, os entrevistados exibem otimismo para 2016, após o encerramento da administração de Cristina Kirchner, cujo mandato conclui em dezembro do ano que vem. Segundo 32% dos pesquisados a economia “melhorará” após as eleições presidenciais, enquanto que 19% consideram que o cenário continuará “igual”. Outros 19% afirmam que “piorará”.

blog1dedo4DESEMPREGO – O próprio governo Kirchner, que costuma negar a existência da crise – ou manipular os números que a evidenciam – admitiu que nas 31 principais aglomerações urbanas o desemprego aumentou de 6,8% para 7,5% da população economicamente ativa ao longo do último ano. Isso indica que por causa da crise foram eliminados 450 mil postos de trabalho. No total existem atualmente na Argentina 895 mil pessoas desempregadas.

A cidade de Córdoba, atingida pelas demissões do setor automotivo, o aumento do desemprego foi o mais significativo, passando de 8,99% para 11,6%.

Outro reflexo da recessão que afeta a Argentina é o volume de 1,1 milhão de argentinos que tentam sobreviver por intermédio de trabalhos ocasionais. Neste caso, a proporção aumentou de 8,7% para 9,4% nos últimos doze meses.

blog1dedo4GLOSSÁRIO SOBRE PROBLEMAS ECONÔMICOS E POBREZA

A gíria do Rio da Prata, o “Lunfardo”, possui vários termos para referir-se a fatos da pobreza.

Malaria: Nada a ver com a doença tropical. Na Argentina é o período de vacas magras, tempos de pobreza.

Mishiadura: Miséria, indigência. Provém do genovês ‘miscio’.

Mango: Tal como no Brasil, dinheiro. Também pode ser usado como unidade monetária. Un mango, dos mangos, tres mangos.

Guita: Dinheiro. Gaita.

“No tengo siquiera un peso partido al medio”: “Não tenho sequer um peso partido pela metade”. Expressão típica para indicar falta total de cash.

Sope: ‘Peso’, a unidade monetária local, dito ao contrário.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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