Freud espera sua ‘calle’ portenha
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Freud espera sua ‘calle’ portenha

arielpalacios

23 de setembro de 2009 | 23h28

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Sigmund Freud, quase um portenho. A cidade de Buenos Aires, capital sul-americana da psicanálise, por seu elevado número de profissionais do setor (e de analisados) poderia ter uma rua que homenageie o pai dessa ciência.
Nesta quarta-feira dia 23 completaram-se 70 anos de sua morte (ou sua passagem para o divã lá de cima) em Londres

Sigmund ‘Sigi’ Schlomo Freud, ícone popular – pelo menos para amplos setores da classe média e a elite portenha – poderia ter seu nome afixado em um trecho da atual rua Medrano. Um grupo de moradores do bairro, psicanalistas e psicanalisados tentam há dois anos que a Assembleia Legislativa da Capital Federal mude o nome de apenas um quarteirão da rua Medrano para “Sigmund Freud”.

Esse trecho da ‘calle’ Medrano tem elevado simbolismo, já que em uma das esquinas está o tradicional bar “Sigi”, ponto de encontro dos analisados do bairro. Na outra esquina, uma loja de roupa que ostenta o nome de “Narciso”, figura mitológica e nome de um dos complexos freudianos.

Se os moradores do bairro vencerem a rua Sigmund Freud ficará na área do bairro de Palermo que é ironicamente denominada de “Palermo Sensível”. Mais especificamente, o trecho da rua que ostentaria o nome do pai da psicanálise está na frente da Praça Güemes, informalmente chamada “Praça Freud”. Os quarteirões vizinhos são denominados de “Villa Freud”.

Villa Freud, embora não integre a cartografia oficial, possui fronteiras definidas. Seu epicentro é a praça Güemes (ou Praça Freud). Mas a divisa do bairro é feita pelas ruas Mansilla, Soler, Bulnes e Julián Álvarez.

Com ironia, os vizinhos comentam que Freud teria tido dois potenciais pacientes nas esquinas, já a rua transversal homenageia Lucio V. Mansilla, um famoso dândi narcisista argentino do século XIX que participou de massacres de índios (mas ao mesmo tempo, intelectual e excelente escritor, de saborosa prosa), enquanto que a praça defronte, refere-se ao notório Martín Güemes, um megalômano caudilho do norte do país (e também um herói – real – da independência argentina), que deleitava-se no design próprio de seus uniformes (aliás, uniformes de excelente corte!).

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Freud e Freud

Há dois anos, quando respaldou a ideia de ‘freudianizar’ a rua Medrano, o deputado estadual Alejandro Rabinovich, do partido de centro-esquerda Argentinos por uma República de Iguais (ARI) destacou que este era um raro caso de batizar uma rua com o nome de uma pessoa que não causa antagonismos na Argentina (é frequente neste país que setores da sociedade discutam – como se fosse uma questão de vida ou morte – com outros setores o nome de uma rua…assunto que veremos em uma postagem em breve).

FREUD CITY
A presença da psicanálise e da psicologia entre os portenhos é significativa, se comparada com os países da região. Existe um psicólogo a cada 649 argentinos, número que torna a Argentina no país com maior número desses profissionais em todo o continente americano.

O segundo colocado está do outro lado do rio da Prata, o Uruguai, com um psicólogo a cada 900 habitantes. O Brasil teria um psicólogo a cada 1.154 pessoas.

Segundo dados da Universidade de Buenos Aires (UBA), existem na Argentina 46.800 psicólogos na ativa. A maioria está concentrada na cidade de Buenos Aires, onde existe um psicólogo para cada 121 portenhos.

Os habitantes da cidade também usam expressões adaptadas dessa ciência. Uma das expressões é “psico-patear” (psico-chutar), para referir-se a alguém que pressiona ou tortura psicologicamente outra pessoa.

A psicanálise também está presente nas telenovelas. Os personagens psicólogos são frequentes nos enredos, e até uma telenovela, a “Vulnerables” (Vulneráveis), anos atrás teve grande sucesso ao retratar um grupo de pessoas que realizava análise grupal.

Durante a crise de 2001-2002 os programas de notícias consideravam os psicanalistas tão importantes como os analistas políticos e economistas para avaliar o caos social do país e o desespero de seus habitantes.

Os portenhos estão acostumados a ouvir ou pronunciar termos específicos da psicanálise como “projeção”, “inconsciente” e “negação”. E até para indicar o estado de ânimo surgiu o termo ‘anímicamente’: “sí, Graciela, anímicamente estoy mejor” (sim, Graciela, ‘animicamente’ estou melhor)

Volta e meia alguém pode comentar que está tendo ‘x’ reação física porque está “somatizando”.

A expressão “histérica” foi mais além de seu sentido psicanalítico e é usada popularmente para referir-se a uma mulher ou homem que provoca com sensualidade mas não concretiza o ato sexual.

rep
‘Gaspar, el revolú’, do cartunista Miguel Rep. O blog de Rep:
http://miguelrep.blogspot.com/

A psicanálise também está presente nos quadrinhos. Esse é o caso do jornal “Página 12”, que conta com a tirinha “Gaspar, El Revolú”, do cartunista Rep, cujo protagonista passa boa parte do tempo no divã de sua analista.

Aliás, todas as quintas-feiras o “Página 12” dedica duas páginas a assuntos psicológicos-psicanalíticos (isso, quando não publica assuntos vinculados em outros dias da semana).
O link para a seção de Psicologia desta 5afeira:
http://www.pagina12.com.ar/diario/psicologia/index.html

Psicólogos também apresentam programas de rádio, como Gabriel Rolón, que tornou-se bastante popular nos últimos anos.

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Um charuto às vezes é um charuto, dizia o velho supimpa Sigi

BUFFET FREUD
Um pequeno guia de afazeres para-freudianos

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Aqui é possível esquecer – temporariamente – as angústias da mente ao saborear o spaghetti com ‘mollejas’ e a salada de coelho. ‘Morfá’ e deixe os ataques de pânico para depois da sobremesa.

COMER FREUD
Freud & Fahler: O nome é por Freud, Sigmund Freud, o pai da psicanálise. E o Fahler não é por ‘falo’ em alemão (que é ‘Der Phallus’), se é que alguém fez a clássica associação peniana-vienesa (e, não quero complicar mais ainda as coisas ao recordar que ‘Vieníssima’ é uma marca de salsichas em Buenos Aires…cidade cujo monumento-símbolo é o Obelisco).
A primeira dona do restaurante era casada com com um sr. de sobrenome Fahler. E ela, que era psicanalista, costumava dizer que havia batizado o restaurante com os sobrenomes de seus dois amores.
Na rua Gurruchaga 1750. Telefone: 4833 2153. Bairro de Palermo.

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E por falar em falo, o Obelisco, há dois anos, com um preservativo

BEBER E PETISCAR FREUD
BAR SIGI: O bar que ostenta o diminutivo carinhoso de Freud está nas esquinas das ruas Salguero e Charcas. Frequentado pelos analistas e analisados da região.
Telefone: 4824 4366.

REMÉDIOS
Farmácia Villa Freud: Na rua Medrano 1773. Telefone: 4825 2612

FORA DE VILLA FREUD
LIVROS
Livraria Paidós Central del Libro Psicológico
Av. Las Heras 3741 – Loja 31
Telefone: (5411) 4801-2860

Livraria Paidós del Fondo
Av. Santa Fe 1685
Telefone: (5411) 4812-6685

MUSEU
Museu de la Psicología Argentina Horacio Piñero, da Universidad de Buenos Aires
Endereço: Independencia 3065
Bairro: Boedo
(54 11) 4957 4348 / 4110 (ramal 116)

EXTINTO
Bar ‘Diván, el terrible’ (Divã, o terrível): Bar que fazia trocadilho com o nome do sádico czar russo Ivã, o terrível (Ivan Grozny, ou Ива́н Гро́зный) e o divã, elemento sine qua non da mobília freudiana. Na época em que funcionava, o bar estava nos arredores da faculdade de psicologia da Universidade de Buenos Aires.

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Ivan o terrível. Este sim, precisava mesmo de um analista.
Quadro de Viktor Vasnetsov, de 1897. Galreria Tretyakov, Rússia.

ALGUEL DE DIVÃS PARA GOVERNOS
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Isto aqui não tem a ver diretamente com S.Freud…mas é sinal de que o governo precisaria umas boas horas de divã…

APESAR DA CRISE, DESEMPREGO E INFLAÇÃO, POBREZA CAI NA ARGENTINA SEGUNDO GOVERNO
O aumento do desemprego, a persistência da alta inflacionária e a queda na produção industrial teriam provocado um efeito sui generis na Argentina, onde – segundo o governo da presidente Cristina Kirchner – a pobreza está encolhendo de forma acelerada. O anúncio sobre a redução substancial do número de pobres argentinos foi realizado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), que sustentou que a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza caiu dos 17,8% do ano passado para 13,9% atualmente. Além disso, o Indec afirmou que a proporção de indigentes – isto é, os argentinos que padecem fome diariamente – caiu de 5,1% para 4%.

Desta forma, segundo os cálculos do governo, 1,2 milhão de pessoas teriam deixado a pobreza e a indigência e teriam subido para classe média e a classe alta.

O anúncio do Indec gerou polêmica, já que os índices do organismo – que está sob férrea intervenção do governo há dois anos e meio – são suspeitos de intensa manipulação por parte da administração Kirchner.

A queda da pobreza anunciada pelo governo está na contra-mão das estimativas dos principais economistas do país, sindicatos não-alinhados com a presidente Cristina, além da Igreja Católica, que sustentam que a pobreza, em vez de diminuir – tal como afirma o governo – está crescendo de forma acelerada.

Segundo eles, a proporação de pobres pelo menos duplica o número oficial, já que atingiria entre 30% e 40% dos argentinos. Segundo a consultoria Ecolatina, 31% dos argentinos são assolados pela pobreza. A Ecolatina, fundada pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, sustenta que a pobreza cresceu nos últimos dois anos por causa da alta da inflação (superior aos salários) e o desemprego.

A Sociedade de Estudos Trabalhistas sustenta que a pobreza atinge 37% dos argentinos. A Universidade Católica estima um total de 34,5% de pobres. Monsenhor Jorge Casaretto, da pastoral social da Igreja Católica argentina, afirma que a proporção de pobres aproxima-se de 40% dos habitantes do país.

Em áreas sociais complicadas, como os municípios da Grande Buenos Aires, a proporção de pobres sobe para 36%.

“O governo continua negando a realidade e tenta esconder milhões de pobres. Essa é a política social da presidente”, acusou Alfonso Prat-Gay, ex-presidente do Banco Central e deputado do partido Coalizão Cívica, da oposição.

Os analistas destacam que o número de sem-teto aumenta nas ruas de Buenos Aires, enquanto o número de protestos sociais cresce em diversas partes do país.
Paradoxalmente, o próprio Indec anunciou que o desemprego aumentou de 8% da população economicamente ativa em 2008 para 8,8% neste ano.

O pico da pobreza na Argentina ocorreu durante a crise econômica, social e financeira de 2001-2002. Na época, 57% dos argentinos eram assolados pela pobreza. Mas, com a retomada do crescimento econômico, a pobreza foi reduzida para 27%. Nos anos 70, época na qual a Argentina ainda era considerado um paraíso da classe média na América Latina, a pobreza não passava de 6% da população.

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handsfffsENCONTRO COM COMENTARISTAS E LEITORES
Caros comentaristas e leitores, estarei em São Paulo no dia 30 de setembro, 4afeira da semana que vem.

Estamos organizando um encontro com os comentaristas deste blog em um lugar (bar-restaurante) nas redondezas da av. Paulista para conversar.
O encontro seria a partir das 18:30.

Quem quiser participar, por favor deixe em um comentário o nome e o mail com o qual posso contatá-lo (comentário que não será publicado).

Será um prazer conhecê-los pessoalmente!!!
Abraços,
Ariel

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