“Fui derrubado pelos peronistas e o FMI”, afirma De la Rúa 10 anos depois do “Corralito” (uma década de “El Colapso”, parte 1)
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“Fui derrubado pelos peronistas e o FMI”, afirma De la Rúa 10 anos depois do “Corralito” (uma década de “El Colapso”, parte 1)

arielpalacios

29 de novembro de 2011 | 16h55

 

Dez anos depois da crise: o ex-presidente De la Rúa acusa oposição de ter levado o país à crise de 2001-2002. Foto de Ariel Palacios.

Fernando De la Rúa (1999-2001) foi um dos mais breves presidentes civis da Argentina. Seu governo, da coalizão UCR-Frepaso, durou dois anos e 10 dias. Mas, ficou marcado na História como o presidente que levou a Argentina à pior crise social, econômica e política de seus quase 200 anos de vida independente. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.

No entanto, uma década depois do colapso argentino, De la Rúa, aos 74 anos, retruca, e afirma que sua queda foi provocada pelo partido Justicialista (Peronista), de oposição.

Em entrevista exclusiva ao Estado no modesto escritório de um amigo seu no centro portenho (onde havia uma foto dedicada de Juan Domingo Perón), De la Rúa acusou o ex-presidente Duhalde (2002-2003) de ter conspirado para derrubá-lo. Nessa confabulação, sustenta, o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve um papel crucial. “Fui derrubado por uma conspiração peronista e do FMI”, diz.

Estado – Costuma dizer que o fim de seu governo foi o resultado de uma conspiração…

De la Rúa – Sim, claramente houve uma conspiração preparada por líderes do Partido Justicialista (Peronista). O então senador Eduardo Duhalde estava por trás disso. A conspiração foi preparada muitos meses antes. Em outubro de 2001 o Peronismo venceu as eleições parlamentares de outubro. Tentei contatos com os peronistas para tentar um governo de união nacional. Tive respostas favoráveis, inclusive de Duhalde. Propus um gabinete com integrantes do peronismo. Mas, eles concluíram que deveriam ter todo o poder. (O ex-presidente Raúl) Alfonsín me disse na época que havia tido uma reunião com Duhalde, e que este lhe havia dito que o mandato presidencial deveria ser concluído pela Aliança UCR-Frepaso. Mas, com o detalhe de que deveria ser outro o presidente, e não eu. Isto é, Duhalde já estava nessa atitude de Deus ex-machina. José Maria Aznar me disse um dia que Duhalde havia telefonado para ele em Madri, explicando que assumiria a presidência da Argentina e que por isso precisava de ajuda. Isso foi uns três meses antes do fim de meu governo. Aznar respondeu-lhe que na Argentina havia um presidente – isto é, eu – e que era meu amigo. Os peronistas, no dia 20 de dezembro, enviaram pessoas para realizar desordens. Essa foi uma jornada penosa, trágica, que a recordo com dor. Insisto que meu governo nunca deu ordens de matar os manifestantes.

Estado – Arrepende-se de alguma coisa de seus dois anos de governo? O corralito agravou a crise e levou milhões de argentinos à pobreza…

De la Rúa – Mais do que me arrepender, destaco as coisas que me doeram. Me doeu o corralito, pois já me doía a corrida bancária. Tentar lidar com o déficit zero foi doloroso, pois implicava em menos dinheiro para os funcionários públicos. Às vezes me pergunto…(sua voz treme) se por acaso poderíamos ter tentado o caminho de auto-financiar-nos internamente. Emitindo bônus, por exemplo. Mas isso seria uma medida muito perigosa, pois poderia ter acelerado a inflação e agravado a crise. Com certeza o FMI teria dito que não eram suas políticas, mas sim erros nossos. Mas foi o FMI, e sua presidente Anne Krueger, que quis nos afundar. Os objetivos do FMI e de Duhalde eram os mesmos.

Há dez anos, em plena crise: no fim da tarde do dia 20 de dezembro de 2001 De la Rúa saiu às pressas da Casa Rosada no helicóptero presidencial. O aparelho não podia pousar em cima do frágil terraço do palácio. Portanto, pairou sobre a área e De la Rúa foi erguido até a porta do helicóptero.

Estado – Na mesma época, outros países da região estavam com problemas. Um deles era o Uruguai, mergulhado na crise desde 1999, que só piorou com o contágio da crise argentina. Mas ali o presidente não teve que renunciar…

De la Rúa – É que nos outros países da região existia uma oposição responsável. No caso do Uruguai, o então líder da oposição, o socialista Tabaré Vázquez (eleito presidente em 2004) declarou respaldo ao presidente Jorge Batlle. E mesmo no Brasil, onde a situação de dívida era parecido à nossa, houve uma transição construtiva entre Fernando Henrique e Lula.

Estado – O Brasil, naquele período, conseguiu evitar uma grande crise…

De la Rúa – O Brasil teve uma vantagem adicional, pois o FMI – que perseguia a Argentina – temia o contágio da economia brasileira, e aí o Fundo forneceu créditos de contingência ao país vizinho, para prevenir qualquer perigo. Eu me queixo do fato do Brasil não ter nos alertado do propósito do Fundo Monetário de derrubar a Argentina. Mas, compreendo os brasileiros, pois sentiam a necessidade de salvar-se. E o resultado é que o Brasil evitou o calote da dívida e hoje em dia é o destino de enormes investimentos internacionais. Mas, a Argentina teve o calote, declarado por aqueles que vieram depois de mim. E deu no que deu. Ainda temos problemas de credibilidade, o país é um paria internacional.

Estado – Os governos do ex-presidente Nestor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner mantiveram uma relação tensa com o FMI…

De la Rúa – Reconheço no presidente Kirchner uma boa atitude, de ter denunciado publicamente aquilo que o FMI fez com a Argentina. E além disso, Kirchner rompeu relações com o Fundo.

Estado – Concorda com o casal Kirchner somente nesse ponto ou possui mais convergências com ambos?

De la Rúa – Tenho uma imagem positiva deles. O problema são os abusos de concentração de poder. O confronto permanente. Os excessos. Além disso, a falta de medidas para adotar em épocas de crise econômica. Eles se acostumaram a ver “vento de popa” da economia internacional na maior parte do tempo. E agora deve vir um tempo de ajuste perigoso. Mas, a linha geral está bem, especialmente o fato de terem recuperado o poder da presidência da República.

Estado – Em breve começará seu julgamento sobre seu suposto envolvimento no denominado “Caso Banelco”, o escândalo de pagamento de subornos para a aprovação da lei trabalhista no ano 2000, que os sindicatos rejeitavam…

De la Rúa – Tenho pressa em mostrar que sou inocente. Este processo tem como base falsidades, baseadas em meros rumores. Querem envolver um presidente em algo que não é sério. É como a acusação de compra de votos que foi feita sobre Fernando Henrique Cardoso na votação para reformar a constituição que permitiu a reeleição. Naquele caso e no meu, não há nada sério.

Estado – Como acha que a História o recordará?

De la Rúa – É muito difícil saber. A verdade é que não acredito que lembrarão de mim. Foi um período muito ruim. Se servir para algo, será para extrair uma experiência de como tentar lidar com uma crise.

Estado – Em dezembro de 2001 teve que sair a Casa Rosada em um helicóptero. As pessoas na Praça de Mayo estavam furiosas com a política econômica. Sua imagem pública era a pior de um presidente desde a volta da democracia. Dez anos depois, como as pessoas o tratam na rua?

De la Rúa – Bem, me tratam bem, com respeito. De vez em quando alguma pessoa me gritava algo. Mas isso não acontece há tempo. Atualmente existe mais compreensão das coisas que aconteceram naquela época.

Estado – É verdade que foi vítima da crise, do ponto de vista das finanças pessoais? Foi pego pelo “corralón” feito pelo governo Duhalde?

De la Rúa (com voz grave) Sim, mas é uma coisa que não saio comentando.

Estado – Logo, a crise também o afetou…

De la Rúa (murmurando) Foi assim.

Estado – Antes me disse que o fim de seu governo “doeu” muito. Por acaso deprimiu-se ao sair do poder?

De la Rúa – Na vida aprendi que devemos ser sempre os mesmos tanto quando estamos em cima, em altas posições, como nos momentos em que a gente está lá embaixo. Mas me dói pensar que poderia ter conseguido outros objetivos. Se tivesse tido um pouco mais de tempo…só de pensar que quase um ano depois de minha renúncia o país começou a melhorar, até pela alta do preço da soja!

Estado – Por acaso precisou recorrer a algo muito frequente na Argentina, a psicanálise?

De la Rúa – Não, nunca precisei de análise. Tenho uma grande capacidade interior para refletir. Mas, quem sabe, talvez esteja errado e a psicanálise seria uma ajuda…

Ex-presidente é ocasionalmente relembrado pelos cartunistas argentinos. Nos últimos tempos, houve referências a De la Rúa por causa da crise europeia. Acima, charge de Rudy e de Daniel Paz sobre o ex-presidente e a conjuntura internacional atual.

DE LA RÚA PERDEU TODA INFLUÊNCIA POLÍTICA

Na noite do dia 20 de dezembro de 2001 Fernando De la Rúa dormiu na residência presidencial de Olivos. No dia seguinte passou pela Casa Rosada para buscar seus pertences, que havia esquecido na correria da partida no helicóptero desde o telhado do palácio presidencial. Apesar do conselho de vários amigos que diziam que deveria mudar-se para o exterior até que os ânimos da população se apaziguassem, De la Rúa optou por ficar no país, refugiando-se em sua chácara no município de Pilar.

Desprezado por seu partido, a União Cívica Radical (UCR), abandonado por seus antigos ministros, De la Rúa dedicou-se à jardinagem e à família, enquanto permaneceu afastado da política ao longo da última década. Sua influência política nestes dez anos foi nula. O ex-presidente até evita comparecer às pacatas reuniões da UCR. “Abandonei a política”, disse ao Estado. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.

Em 2006 – meia década depois da crise – tornou-se novamente notícia quando lançou o livro “Operação Política”, no qual denunciava as supostas manobras da oposição realizadas contra ele. A obra, fracasso de crítica e de público, rapidamente encalhou nas livrarias.

Ocasionalmente De la Rúa participa de algum evento diplomático, tal como no coquetel do 7 de setembro de 2010 na embaixada do Brasil em Buenos Aires. No entanto, na ocasião, passou boa parte do tempo sozinho. Nesse mesmo evento os convivas preferiram acotovelar-se ao redor do octogenário ex-presidente Carlos Menem (1989-99).

PECULIARIDADES: No dia da entrevista fui até a rua de trás do edifício da Corte Suprema. Fiz um pouco de hora, pois havia chegado uns 20 minutos antes. Tomei um café no bar da esquina e sucumbi perante um muffin de chocolate.

Terminei e fui até o prédio. Chamei pelo interfone. Ouvi a voz de De la Rúa, dizendo “suba”.

“Ele próprio atendeu?” pensei, achando estranho isso. Nos dias prévios alguns colegas argentinos me haviam dito que De la Rúa estava sem secretário (e pelo visto, quase sem ninguém, de forma geral…ao sair da entrevista, 40 minutos depois, passei por um quiosco na esquina para comprar uma água mineral. O “quiosquero” conversava com um zelador da área. Aí, perguntei se viam De la Rúa com freqüência entrando e saindo dali. Os dois me responderam com ácido humor portenho: “De la Rúa? Está más solo que Adán en el dia de la Madre!”

Voltando ao encontro:

Lá em cima, a porta do escritório foi aberta por um secretário (ou equivalente) com um fortíssimo sotaque de La Rioja. Parecia uma paródia do ex-presidente Menem. Mas não era. Tratava-se de um riojano “leggggggítimo” (recordando o bordão de Jô Soares).

O secretário (ou equivalente) – que parecia Nathan Lane com bigode (e com sotaque riojano) – me pediu que sentasse e esperasse o ex-presidente. “El doctor De la Rúa ya viene”.

Sentei ao lado de uma grande mesa de reuniões e esperei a entrada de De la Rúa. Mas, levantei logo, ao ver que do outro lado da sala havia uma foto de Perón em uma moldura. Olhei de perto e vi que a foto estava autografada, embora a dedicatória não fosse muito legível.

Nesse momento entrou De la Rúa. O cumprimentei e apontei para a foto, dizendo, surpreso: “Uau! O sr. tem uma foto autografada de Perón? Foi da época (1973) em que o sr era senador e ele havia voltado do exílio e eleito presidente?”

De la Rúa respondeu: “nããooo..quem dera! Infelizmente não tenho uma foto autografada de Perón. O conheci, brevemente, quando era senador. Mas não é uma foto dedicara para mim. É uma foto para um amigo, que tem este escritório”.

Então percebi que, dez anos depois de deixar a presidência, De la Rúa estava em um escritório emprestado. E de um amigo peronista.

Na rua o calor era insuportável. Ali dentro, apesar do ventilador, o verão portenho (embora seja ainda primavera) já era exasperante. De la Rúa estava de camisa e gravata. Eu, como sempre, estava de terno, seja lá qual for o entrevistado (exceto na cobertura do terremoto no Chile).

De la Rúa, amavelmente, sugeriu que tirasse o paletó. Agradeci, mas declinei a oferta. Nunca fico de camisa na frente de um entrevistado. Anos atrás entrevistei o roqueiro Fito Paez, de terno. Meia década depois, fiz uma nova entrevista com ele. Quando me viu sentado, esperando, me disse: “ei, usted (você formal) já me entrevistou antes… é do Brasil, não é?”. Eu respondi: “Sim! Nossa, que memória, sr. Paez, faz cinco anos!”. E o sr. Adolfo Paez, a.k.a. “Fito”, me disse: “é que foi a única pessoa em toda minha vida que me entrevistou de terno. Aprecio isso. E também foi a única pessoa que não me ‘tuteó’ (tratar de tu ou você). Não tem idéia como não suporto que as pessoas me tratem como se fosse um velho conhecido de toda a vida. E alguns até colocam os pés em cima da mesa, enquanto fazem as perguntas! Ora, acham que porque sou roqueiro posso que ser tratado de qualquer jeito?”. Concordei com ele, evidentemente. 

Voltando a De la Rúa: na hora de fazer as foto, colocou o paletó. Durante a entrevista, havia estado sério e circunspecto. Mas, depois da parte formal, enquanto preparava a câmera, lhe perguntei se era realidade que seu primeiro posto institucional havia sido o de presidente do Comitê de Caça com Estilingue, em Córdoba, quando tinha 10 anos. Ele confirmou e riu. De la Rúa, criança, havia até preparado os estatutos do clube. Na sequência, quis confirmar se a primeira vez que ele havia tido um encontro com sua futura namorada e esposa, Inés Pertiné, havia sido em um restaurante “El Vómito Negro”. De la Rúa confirmou também, e sorriu. Mas, logo ressaltou que esse era o nome informal do estabelecimento. “No entanto, não lembro do nome real…”.

Desta forma, nas fotos De la Rúa aparece sorrindo, na contra-mão do conteúdo da conversa, que relata o caos da crise de 2001.

 

E um vídeo da Internacional do Portal do Estadão com um comentário sobre a queda de De la Rúa. Aqui.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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