“Fumando espero”: um tango de cada vez mais difícil aplicação
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“Fumando espero”: um tango de cada vez mais difícil aplicação

arielpalacios

03 de junho de 2011 | 08h18

 

Carlos Gardel, ícone do tango no Rio da Prata, fuma em um filme da Paramount nos anos 30.

O tango Fumando espero”, cuja letra dizia “Fumar é um prazer genial, sensual…Fumando espero a mulher que eu quero”, não poderá mais ser colocado na prática de forma 100% pelos argentinos e qualquer estrangeiro que esteja dentro do território nacional. O ato de fumar, sentado em um café – enquanto olha pela janela – acabou. As únicas alternativas serão a de esperar na rua – sob a chuva, sol ou vento, dependendo do enlouquecido clima portenho – ou trancado dentro de casa, já que a atividade de fumar estará categoricamente limitada às residências, ruas e praças. Nunca mais uma pessoa poderá esperar fumando em um restaurante, bar, cinema, teatro, cemitério, hall de um prédio, discoteca, entre outros lugares.

Quem quiser colocar na prática a espera nicotínica imortalizada por Carlos Gardel (e na versão feminina, pela espanhola Sarita Montiel), também terá a oportunidade – pouco romântica – de esperar fumando nos estádios. Mas somente os estádios não cobertos.

Isso é o que determina a lei aprovada pelo Senado em dezembro passado e confirmada pela Câmara de Deputados na terça-feira à noite. A nova lei será promulgada pela presidente Cristina Kirchner em breve e entrará em vigência antes do fim do ano, segundo afirmou o senador Daniel Filmus, ex-ministro da Educação e autor do projeto de lei.

O tradicional cigarro colocado na mão esquerda da estátua de Gardel em seu túmulo no cemitério de La Chacarita será uma lembrança do passado. Nas últimas sete décadas e meia, desde seu enterro em 1935, a mão de Gardel quase sempre ostentou um cigarro fumegante colocado pelos fãs.

“É um dia histórico” exclamou Verônica Schoj, coordenadora da ONG Aliança Livre de Fumaça Argentina. Segundo ela, a nova lei “não estigmatizará os fumantes, pois vai ajuda-los a deixar os cigarros”. O ministro da Saúde, Juan Manzur, declarou que a lei será “crucial” para reduzir o número de 40 mil mortes anuais provocadas pelo cigarro na Argentina.

A norma, que transformou a Argentina nesta semana no oitavo país 100% livre de fumaça de cigarros na América Latina (depois do Uruguai, Peru, Venezuela, Colômbia, Panamá, Guatemala e Honduras), também estipula restrições à publicidade de cigarros e demais estímulos para o consumo de produtos elaborados com fumo.

A partir de sua promulgação será proibida a colocação de publicidade em meios de comunicação e na via pública. Além disso, as empresas de cigarros não poderão patrocinar eventos ou atividades públicas.

Os maços – que deverão ostentar advertências sanitárias sobre os riscos de fumar – não poderão mais utilizar as denominações “light”, “suave” ou “baixo conteúdo de nicotina”.

A lei estipula que fica expressamente proibida a atividade de fumar em escritórios públicos ou privados. A única possibilidade que fica aberta é a dos escritórios de apenas uma pessoa, sem atendimento ao público e sem empregados.

A lei foi aprovada na Câmara por 182 votos a favor. Um deputado absteve-se, enquanto outro votou contra a lei. Após a votação, o deputado Jorge Obeid destacou que os próprios parlamentares deveriam dar o exemplo do cumprimento das restrições ao fumo e remover os cinzeiros espalhados no plenário dos deputados.

As multas para os infratores da nova norma oscilarão entre os valores equivalentes de 250 e um milhão dos maços mais caros de cigarros (entre US$ 437 e US$ 1,5 milhão).

Acima, mais uma vez Gardel com o cigarro na mão.

Tango “Fumando espero” Canta Ignacio Corsini. Aqui.

“Fumando espero” foi composto em 1922, época em que o tango era um gênero que causava furor na Europa. Este tango específico foi criado na Espanha pelo músico barcelonês Juan Villadomat Masanas, com letra de Félix Garzo. A obra, originalmente, foi preparada para uma peça teatral, “La Nueva España”.

Mas, o estilo espanhol não vingou neste caso. “Fumando espero” só tornou-se um sucesso quando foi levado para a Argentina por um grupo chamado “The Mexicans” (assim, em inglês, embora com referência aos mexicanos, apesar de ser integrado por espanhóis que tentavam conquistar o mercado argentino).

A estrela do grupo era  cantora Ana Luciano Divis, mais conhecida pelos argentinos como Tania (ela nasceu em Toledo, Espanha, em 1893, foi para Buenos Aires em 1917 e casou com o compositor Enrique Santos Discépolo em 1927 e morreu na capital argentina em 1999).

Em Buenos Aires, além de Tânia, este tango foi interpretado por Gardel e muitos outros tangueiros. Em 1957 este tango teve um novo impulso mundial com o filme “El último cuplé”, protagonizado por Sarita Montiel.

Na realidade, a letra de Félix Garzo refere-se a um cigarro que possui cocaína dentro. Só com este detalhe fica clara a letra do tango.

O cantor mexicano Tin Tan, que sabia bem como imitar o sotaque portenho, em uma versão do mesmo tango, aqui.

E a versão com a emblemática espanhola Sarita Montiel. Aqui.

A letra de Fumando espero:

Fumar es un placer

genial, sensual.

Fumando espero

al hombre a quien yo quiero,

tras los cristales

de alegres ventanales.

Y mientras fumo,

mi vida no consumo

porque flotando el humo

me suelo adormecer…

Tendida en la chaisse longue

fumar y amar… 

Ver a mi amante

solícito y galante,

sentir sus labios

besar con besos sabios,

y el devaneo

sentir con más deseos

cuando sus ojos veo,

sedientos de pasión.

Por eso estando mi bien

es mi fumar un edén.

Dame el humo de tu boca.

Anda, que así me vuelvo loca.

Corre que quiero enloquecer

de placer,

sintiendo ese calor

del humo embriagador

que acaba por prender

la llama ardiente del amor. 

Seção Efeméride quae sera tamen (um pouquinho tamen):

Parabéns à Itália pelos 150 anos da Reunificação (celebrada ontem, dia 2 de junho)!

G.Garibaldi, “herói de dois mundos”, acima.

Hino, aqui.

E o “samba italiano”, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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