“Abutres” versus “Pinguins”: Fundos hedge vão atrás de empresários kirchneristas que protagonizaram negociatas
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“Abutres” versus “Pinguins”: Fundos hedge vão atrás de empresários kirchneristas que protagonizaram negociatas

Holdouts fazem manobra de pinças e tentam pegar governo Kirchner por um calcanhar de Aquiles: os empresários kirchneristas que fizeram negociatas e possuem dinheiro (embargável) no exterior.

arielpalacios

14 de agosto de 2014 | 15h30

O empresário Lázaro Báez abre para Cristina Kirchner as portas do mausoléu que construiu no modesto cemitério de Río Gallegos para albergar o caixão de seu amigo e ex-presidente Néstor Kirchner.

Os “holdouts”, denominação dos credores que não aderiram às reestruturações da dívida pública argentina realizadas em 2005 e 2010 pelo governo Kirchner – e que travam batalhas jurídicas contra a Argentina nos tribunais internacionais – estão implementando uma estratégia de “pinças” para pressionar a presidente Cristina Kirchner. Além das ações diretas contra a Argentina por intermédio do juiz federal Thomas Griesa de Manhattan, o fundo hedge NML – ou “fundo abutre” segundo a Casa Rosada – partiu para uma manobra de flanco, obtendo do juiz federal do estado de Nevada, Cam Ferenbach, a autorização para proceder com ações na Justiça americana para pedir o embargo de dinheiro do empresário argentino Lázaro Báez, amigo do casal Kirchner e seu ex-sócio em empreendimentos imobiliários na Patagônia.

A imprensa portenha realizou nos últimos anos diversas investigações que indicam que Báez foi beneficiado pelo superfaturamento de obras públicas realizadas por suas diversas empreiteiras.

O juiz Ferenbach considerou que Báez, um empresário “pinguim” (apelido do entourage do casal Kirchner) desfalcou o Estado argentino por intermédio de negociatas realizadas por intermédio de 150 empresas registradas no estado de Nevada e no Panamá. “Não existem dúvidas de que Báez desfalcou fundos da Argentina. E uma pessoa que desvia dinheiro, ou um ladrão, não adquirem propriedade sobre aquilo que roubam”, argumentou o magistrado americano. O volume investigado pelo juiz é de US$ 65 milhões que Báez teria lavado.

O processo aberto por Ferenbach baseiam-se nas investigações realizadas pelo promotor José Maria Campagnolli, que pesquisa a denominada “Rota do dinheiro K” (“K”, como abreviação dos Kirchners).

O juiz ordenou que a empresa de contabilidade Mossack Fonseca revele até o dia 12 de setembro os bens e contas bancárias que tiveram 123 empresas em Nevada que administra, supostamente de Lázaro Báez. A suspeita é que por trás destas contas estariam além de Báez, o filho do empresário e Néstor e Cristina Kirchner.

O argumento é que, caso Lázaro Báez tenha obtido dinheiro por intermédio de fraudes ao Estado argentino, o fundo NML pode pedir o embargo desses ativos.

Desta forma, por via indireta, o fundo hedge conseguiria o dinheiro que exige da Argentina – US$ 1,33 bilhão – nos tribunais em Nova York com o juiz federal Thomas Griesa. De quebra, esta estratégia de pressão poderia revelar mais dados sobre os casos de corrupção entre a presidente Cristina e empresários kirchneristas.

ICEBERG – Robert Shapiro, da organização American Task Force Argentina indicou que o NML (para o qual faz lobby) “deparou-se com a ponta de um enorme iceberg” das empresas atribuídas a Baez. O objetivo do grupo é conseguir pistas que envolvam diretamente a presidente Cristina.

Nesta quinta-feira o chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, declarou que a decisão do juiz de Nevada de viabilizar eventuais embargos sobre o dinheiro de Báez nos Estados Unidos é “algo totalmente irrazoável”. Mas, enquanto isso, nas ruas de Buenos Aires – onde nem os fundos abutres nem os empresários kirchneristas possuem boa fama – não faltaram ironias que recordavam, mutatis mutandis, o antigo provérbio “ladrão que rouba ladrão…”

Denis Sassou-Nguesso, presidente do Congo, beberica champagne durante recepção.

CONGO – O NML-Elliott teve sucesso no passado recente com sua estratégia de pressionar governos revelando contas bancárias clandestinas e atos de corrupção dos presidentes de plantão e seu grupo de empresários amigos. Esse foi o caso do conflito que manteve com o presidente Denis Sassou-Nguesso, do Congo, quando exigiu o pagamento de títulos da dívida congoleses que havia adquirido. Sassou-Nguesso negou-se a pagar os financistas, fato que deflagrou uma onda de denúncias feitas pelo NML sobre a corrupção do presidente africano.

Além dos gastos em artigos de luxo comprados durante sua visita a Nova York para participar da Assembléia das Nações Unidas em 2007, o NML divulgou a forma como o presidente havia gasto US$ 400 mil em sua estadia no Hotel Waldorf Astoria.

O fundo hedge também divulgou na imprensa mundial os gastos de luxo que o filho do presidente Sassou-Nguesso havia protagonizado em lojas como a Louis Vuitton e Ermenegildo Zegna, sem ter um patrimônio que os justificasse.

O NML montou uma equipe com jornalistas, especialistas em contabilidade e analistas financeiros que foi atrás de dados sobre contas bancárias e negociatas de Sassou-Nguesso em Hong Kong, Londres, Paris e ilhas do Caribe.

O presidente reagiu furioso, acusou o NML de ser composto por financistas “gângsters jagunços”, e ressaltou que não pagaria ao fundo hedge.

No entanto, o NML partiu para a segunda fase de sua ofensiva e revelou os vínculos de corrupção da empresa petrolífera estatal do Congo e a BNP Paribas, além de subornos nos Estados Unidos. Antes de ficar mais debilitado politicamente dentro de seu país pelos escândalos de corrupção revelados no exterior, o presidente decidiu ceder e pagou US$ 90 milhões por títulos em estado de calote que o NML havia comprado ano antes por US$ 20 milhões.

Casa do presidente congolês em Marbella, na costa mediterrânea da Espanha. Sassou-Nguesso também conta com 16 propriedades de luxo na França. Sua fortuna é estimada em quase US$ 1 bilhão. Diversas investigações indicaram que ele possui mais de 120 contas bancárias no exterior.

ADVOGADOS – O escritório de advocacia que o presidente Sessou-Nguesso contratou para defender-se – sem sucesso – do NML é o mesmo com o qual a Argentina conta para deter a ofensiva dos fundos hedge nos tribunais americanos, o Cleary, Gottlieb, Steen & Hamilton.

Cristina Kirchner em um momento de relax agita o leque para dissipar o calor.

OBRAS PÚBLICAS E MAUSOLÉU PRIVADO – Lázaro Báez e seu filho Martín foram beneficiados com tratamento preferencial em diversas obras públicas no país durante o governo Kirchner.

Ao longo da última meia década suas empreiteiras receberam do governo federal e da província de Santa Cruz US$ 1 bilhão por obras realizadas no feudo político dos Kirchners no sul do país.

A relação de Báez com Kirchner era tão estreita que ele nunca precisou intermediários para falar com o ex-presidente. Câmeras ocultas feitas pelo programa “Jornalismo para todos”, comandado pelo jornalista investigativo Jorge Lanata mostram diversos financistas confessando que Kirchner sabia das “negociatas” financeiras do empresário, entre elas, o envio de dinheiro ao exterior, especialmente ao Panamá e Belize.

Báez é um dos vários empresários amigos dos Kirchners cujas fortunas cresceram de forma acelerada desde que o casal presidencial chegou ao poder em 2003. Nesse ano, por sugestão de Kirchner, Báez fundou sua empreiteira.

Em 1996 Báez era um empregado sem destaque na área de contabilidade do Banco de Santa Cruz. Atualmente é o dono das maiores empresas de construção civil da Argentina e possui 82% do total dos contratos de obras públicas em Santa Cruz. Além da construção civil possui empresas na área petrolífera e mídia.

Em 2010 o empresário deu de presente à viúva Cristina o mausoléu de onze metros de altura feito com granito e mármore onde está enterrado o ex-presidente Kirchner. O monumental lugar de repouso eterno do ex-presidente pode ser visto a vários quarteirões de distância nas ruas da pacata Rio Gallegos. A obra foi batizada popularmente de “a pirâmide de Quéops patagônia”.

E aqui, o link para uma recente postagem: “Nos anos 70 e 80 os Kirchners também foram abutres”.

E embaixo, um pouco de cinema mudo francês de 1902:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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