Fúnebre toponímia (semana funérea parte 3): defunto há 1 semana e ½ Kirchner já virou nome de avenida (e de delegacia, gasoduto, bairro, etc)
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Fúnebre toponímia (semana funérea parte 3): defunto há 1 semana e ½ Kirchner já virou nome de avenida (e de delegacia, gasoduto, bairro, etc)

arielpalacios

08 de novembro de 2010 | 15h00

 

Mito do “rock” político argentino: A satírica Revista Barcelona ilustra o falecido ex-presidente Néstor Kirchner como o rebelde James Douglas ‘Jim’  Morrison na emblemática foto feita por Gloria Staver, editora da Rolling Stone. A capa da Barcelona – que nos últimos tempos tinha tendência kirchnerista – dividiu os simpatizantes do ex-presidente. Uns consideraram “um ultraje” a capa que mostra N.K. como paródia do barítono líder do The Doors. Outros encararam a fotomontagem (e as ácidas matérias dentro da revista) com humor e disseram: “Néstor teria se divertido”. Enquanto isso, parlamentares kirchneristas (sem intenções de ironia) querem batizar estradas, bairros e outras marcas do território argentino com o nome do defunto marido (e antecessor) da atual presidente.

“Você já vê, você já vê, é para o Néstor que olha desde o céu!”. Com este cântico, vereadores kirchneristas celebraram na quinta-feira à noite a aprovação de um projeto de lei que batiza com o nome de “avenida Néstor Kirchner” a principal via pública de Río Gallegos, cidade onde o ex-presidente Kirchner foi enterrado no dia 29 de outubro.

As homenagens póstumas ao ex-presidente não ficariam restritas à esfera municipal, mas também passariam à nacional. Esse é o caso da proposta do senador César Gioja, que apresentou um projeto de lei para que a estrada número 40 – a mais longa do país (que vai desde a Patagônia até a fronteira com a Bolívia) – ostente o nome de Kirchner, de forma a marcar os mapas argentinos de norte a sul.

Kirchner – considerado por políticos, analistas e a própria opinião pública como o verdadeiro poder no governo da mulher, a presidente Cristina Kirchner – morreu na quarta-feira dia 27 de outubro por um fulminante ataque cardíaco. Na sexta-feira foi realizado seu funeral em Río Gallegos. No mesmo dia, militantes kirchneristas colaram adesivos com o nome do ídolo político em cima dos cartazes da avenida general Julio Roca (presidente da Argentina no final do século dezenove, responsável pela conquista da Patagônia). Menos de uma semana depois, a Câmara de Vereadores já havia imortalizado seu nome na principal avenida da cidade.

Río Gallegos é a cidade natal de Kirchner. Além disso, é a capital da província de Santa Cruz, feudo político que o ex-presidente controlou por duas décadas. Os vereadores locais tinham pressa em passar na frente de outras cidades da Argentina que também pretendem homenagear Kirchner com a colocação de seu nome em ruas, praças e parques.

 

Na pressa, políticos em todo o país querem mostrar à presidente Cristina que estão rebatizando todo tipo de construções com o nome do ex-presidente e defunto marido. Julio Grondona, cartola da Associação de Futebol da Argentina, anunciou que um dos dois principais torneios de futebol do país terá nome do falecido Kirchner. 

 O EX-PRESIDENTE QUE VIROU… (nos primeiros 10 dias)

a) TORNEIO DE FUTEBOL – Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) desde 1979 – ano em plena ditadura militar – anunciou na semana passada que o Torneio Clausura (um dos dois torneios nacionais da primeira divisão) será rebatizado como “Torneio Néstor Kirchner”. A medida seria oficialmente aprovada nesta terça-feira.

Motivos para a homenagem a Kirchner não faltam para Grondona, que no ano passado conseguiu um suculento acordo com o casal presidencial de US$ 156 milhões anuais em troca da estatização das transmissões dos jogos de futebol.

Grondona conseguiu verbas adicionais e o governo Kirchner obteve o monopólio das transmissões dos jogos do esporte mais popular do país. O governo transmite os jogos pelo estatal Canal TV Pública, outrora um canal dedicado à cultura. A publicidade de empresas privadas foi cancelada pelo governo, que somente coloca propaganda oficial durante os jogos.

Grondona está no comando da AFA há 31 anos. No mesmo intervalo, a Federação de Futebol do Chile teve 14 presidentes.

b) GASODUTO – O gasoduto que está sendo construído entre a Argentina e a Bolívia ostentará o nome de Néstor Kirchner. A medida foi aprovada pela Câmara de Deputados estaduais da província de Jujuy, por onde passa o gasoduto.

c) MITO NA DELEGACIA – “Ele é um mito agora”. Este foi o argumento do governador da província de Misiones, Maurice Closs, que batizou uma delegacia com o nome do defunto ex-presidente Kirchner.

d) NA PEQUENA CIDADE, ‘VÁRIAS’ RUAS – O nome de “El Pinguino” também foi usado por Sergio Schmunck, prefeito da cidade de Viale, na província de Entre Ríos, para designar o novo parque industrial. Schmunck afirmou que “é totalmente merecido que o setor industrial ostente o nome de nosso ex-líder”. O prefeito também anunciou entusiasmado que “várias” ruas de Viale serão rebatizadas com o nome de Kirchner. Várias ruas na mesma cidade, que possui 18 mil habitantes.

e) UM BAIRRO, PARA NÃO FICAR ATRÁS– Na mesma província de Entre Ríos, outra cidade, Colonia Avellaneda, não quis ficar atrás de Viale. Suas autoridades, também possuídas pelo fervor de rebatizar, decidiram designar um conjunto habitacional com o nome do falecido marido da presidente Cristina.

f) ESTRADA ADICIONAL – A estrada nacional número 23 poderia ostentar o nome de Néstor Kirchner caso a assembleia legislativa da província de Río Negro aprove o projeto de lei da deputada Silvina García Larraburu. Segundo a deputada, Kirchner sempre esteve “muito preocupado em construir estradas na região, de forma a unir vilarejos isolados”. Coincidentemente, os contratos de boa parte do asfaltamento de estradas nessa área foram conseguidos por um dos melhores amigos do casal Kirchner, o empresário Lázaro Báez, acusado de favoritismo em licitações de obras públicas.

No entanto, neste caso, o projeto de rebatizar a estrada número 23 enfrenta a oposição de deputados da União Cívica Radical (UCR), que querem colocar o nome de “Raúl Alfonsín” – ex-presidente falecido no ano passado – nessa via de transporte. A estrada chama-se atualmente “Perito Moreno”, nome de um dos maiores biológos da Argentina, que lutou pela criação dos Parques Nacionais. A estrada que usa seu nome atualmente está somente asfaltada em 45% de seu trajeto. O asfalto dessa estrada não foi concluído nem no governo Alfonsín sequer na administração Kirchner.

g) PRAÇA KIRCHNER: “Vou brincar na gangorra da Kirchner”. Esta frase poderá ser pronunciada em breve, já que na cidade de Ushuaia (pronuncia-se “Uçuáia” e não “Uxuáia”), capital da província de Tierra del Fuego, o prefeito Federico Sciurano anunciou que construirá uma nova praça, que terá o nome de “Praça da Integração Latino-americana Néstor Kirchner”.

h) ESCOLA: Na empobrecida província do Chaco o governador Jorge Capitanich, um dos principais aliados do casal Kirchner (desde 2003 o fiel governador já foi cotado para vice-presidente ou chefe do gabinete) apresentou o prédio no qual funcionará a escola pública que ostentará o nome do defunto líder. 

i) RODOVIÁRIA: Em Jujuy, outra empobrecida província no extremo norte da Argentina, Walter Barrionuevo, anunciou que a nova rodoviária da capital provincial ostentará o nome de Kirchner, que nasceu no extremo sul do país. Isto é, uma pessoa que mora em Ushuaia na frente da Praça Kirchner, poderá pegar um ônibus, ir pela estrada Kirchner até Jujuy, onde descerá na Rodoviária Kirchner. E ao chegar em casa, poderá preparar seu almoço no fogão que funcionará com o gás do gasoduto Kirchner. Mais tarde, ao descansar, poderá sentar no sofá, ligar a TV e ver o campeonato nacional ‘Néstor Kirchner’ de futebol.

Ciudad Evita, distrito na Grande Buenos Aires, perto do aeroporto de Ezeiza, ostenta perfil da emblemática Eva ‘Evita’ Perón.

 EGO-CARTOGRAFIA – Os especialistas denominam de “ego-cartografia” a manifestação do culto à celebridade combinada com o planejamento urbano. Esse é o caso de “Ciudad Evita”, distrito do município de La Matanza, na Grande Buenos Aires, que além de ostentar o nome da “Mãe dos Pobres”, homenageia Evita com seu próprio traçado urbano. Fundada em 1947, a cidade, vista de cima, é uma reprodução do perfil de Evita, incluindo seu tradicional coque. Mais detalhes, aqui.  

 

Evita não estava ainda morta e os políticos da província de La Pampa já queriam homenagear a mulher de Perón com seu nome. De quebra, a bandeira da província exibia o perfil de Evita na época (em cinza, atrás da tocha).

O governo do presidente Juan Domingo Perón (1946-1955) foi ativo na modalidade da ego-cartografia. Em 1952 Evita, que estava agonizando no leito de morte, foi homenageada com o rebatizado da província de La Pampa, que transformou-se em Província Eva Perón. Um ano depois, para não ficar atrás, os deputados estaduais do Chaco anunciaram o rebatizado de sua província para “Presidente Juan Domingo Perón”.

E aqui, o original e rebelde James ‘Jim’ Morrison, entoando “Light my fire”. Gravado em um show na Europa em 1968. Aqui.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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