Genética & interesses políticos: o rocambolesco caso dos herdeiros do Clarín
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Genética & interesses políticos: o rocambolesco caso dos herdeiros do Clarín

arielpalacios

16 de julho de 2011 | 19h46

 

Karl Wilhelm von Nägeli (1817-1891) era um botânico suíço que descobriu os cromossomos. E, graças a seus estudos, um século e meio depois desvendou-se o Caso Noble. Na ilustração, o cientista, autor de “Pflanzenphysiologische Untersuchungen”. Possivelmente, herr Karl, que residia na Alemanha, nunca imaginou que sua descoberta teria impacto político no início do século XXI nos confins da América do Sul.

Marcela e Felipe Herrera de Noble, os herdeiros do maior holding multimídia da Argentina, o Grupo Clarín, não são filhos dos desaparecidos do último ano do governo de Isabelita Perón e do primeiro ano da ditadura militar (1976-83). A notícia, anunciada quase no fim da noite desta sexta-feira, foi misteriosamente ignorada durante uma hora e meia pelos canais alinhados com o governo da presidente Cristina Kirchner e a estatal TV Pública, além dos sites dos jornais aliados, que omitiram a notícia durante um bom tempo.

Nunca antes na História da Argentina a expectativa pelo desvendamento da origem familiar de duas pessoas havia sido tão elevada.

Desta forma, além da acusação da Promotoria, cai a acusação realizada pela presidente Cristina Kirchner, que nos últimos três anos havia mobilizado seu gabinete, parlamentares e militantes para desferir uma campanha contra o Grupo Clarín.

A presidente Cristina – que transformou o Caso Noble em bandeira do governo Kirchner – sustentava que Ernestina Herrera de Noble, a dona do Clarín, era a cúmplice do sequestro e ocultamento da identidade original de seus filhos adotivos. Além disso, o governo insistia na teoria de que os dois irmãos haviam sido bebês apropriados ilegalmente pelo regime militar.

Além de Ernestina Noble, o casal Kirchner pretendia levar à cadeia o principal cérebro administrativo do holding, Héctor Magnetto. O ex-presidente Nestor Kirchner afirmou em meados do ano passado que Magnetto “é um delinquente” que participou da suposta operação de apropriação dos bebês em 1976, poucos meses depois do golpe de Estado.

No início do ano passado Kirchner havia afirmado que pretendia colocar o Clarín “de joelhos”. Também no ano passado o jornalista Orlando Barone, uma das figuras principais do programa governista “6-7-8”, emitido durante as noites pelo estatal Canal TV Pública, sustentou que “o Grupo Clarín não poderá continuar existindo se os resultados (dos exames de ADN) forem positivos”.

 Marcela e Felipe Herrera de Noble: o caso dos dois irmãos envolveu três mulheres de alta importância na Argentina. Por um lado, as duas mulheres mais poderosas do país, isto é, Cristina Kirchner e Ernestina Noble. Por outro, a líder das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carloto, cuja organização foi candidata várias vezes ao prêmio Nobel da Paz por seu trabalho de quase três décadas de procura dos bebês sequestrados pelos militares.

FAMÍLIAS – Na segunda-feira passada começou no Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG) uma bateria de testes para comparar o ADN dos irmãos Noble com as amostras genéticas das famílias de crianças seqüestradas pelos militares.

Na própria segunda-feira apareceu a notícia de que Marcela e Felipe Herrera de Noble não eram os bebês desaparecidos das famílias Lanoscu-Miranda e Gualdero-Garcia, que haviam aberto o processo original na Justiça por suspeitas de que os dois irmãos seriam seus netos sequestrados pelos militares.

Nesse dia, o anúncio sobre a falta de compatibilidade entre o DNA dos irmãos Noble e as duas famílias foi realizado pela agência estatal Telam às 15:00 horas. Mas, sem explicações, meia hora depois a agência de notícias – considerada uma virtual porta-voz do governo Kirchner – eliminou a matéria de seu próprio site.

Nesta sexta-feira as autoridades do Banco de Dados afirmaram que o ADN dos irmãos Noble foi comparado com o de todas as famílias do período 1975-76.

Somente os dados de três famílias de desaparecidos não puderam ser plenamente cotejadas, já que essas amostras estavam “incompletas”. No entanto, as autoridades do BNDG admitiram que as amostras dessas três famílias já estavam “incompletas” há vários anos. Por esse motivo, a tarefa de cotejar o ADN desse trio de famílias com outros casos anteriores de bebês desaparecidos tampouco pode ser feito de forma completa.

Representantes da organização das Avós da Praça de Mayo argumentavam no fim de semana que estas três famílias de perfis genéticos “incompletos” impedem afirmar que a comparação foi “negativa”.

A Justiça decidiu fazer uma pausa e retomar as comparações genéticas com outras 200 famílias de bebês desaparecidos em 1977 e 1978.

Os advogados dos Noble e analistas políticos afirmam que, na ausência de tecnologia de viagem no tempo, não faz sentido que sejam realizados exames com as famílias de bebês desaparecidos depois da adoção dos irmãos Noble. Os analistas destacam que, no entanto, esta pode ser uma manobra política do governo Kirchner para prolongar, de forma artificial, o debate sobre o caso Noble durante mais algumas semanas ou meses.

Os irmãos Noble concordaram em realizar os exames com as outras famílias de bebês nascidos anos depois deles próprios.

FRUSTRAÇÃO – As famílias Lanoscu-Miranda, Gualdero García, além de Maria “Chicha” Mariani, uma das antigas líderes das Avós, entre várias outras, foram estimuladas pelos Kirchners a insistir no processo judiciário.

Quase vinte famílias pleiteavam (a maioria sem processos na Justiça) serem as verdadeiras famílias  dos dois jovens.

Estas, com o sonho de terem encontrado finalmente seus bebês desaparecidos, nos últimos anos mostravam em público fotos dos pais das crianças desaparecidas quando estes eram pequenos, para imaginar comparações com as feições físicas de Marcela e Felipe. Neste sábado, o clima entre dezenas de avós era de frustração pela falta de resultados positivos.

Analistas políticos consideram que os Kirchners “usaram” a nobre causa das octogenárias avós de forma política, como arma contra o Clarín, embarcando em uma aventura que foi derrubada pelos exames científicos.

No caso de Chicha Mariani, atualmente com 84 anos, a suspeita – tonificada pelo governo – era que sua neta Clara Anahí, que tinha três meses quando foi seqüestrada em novembro de 1976 junto com seus pais em sua casa na cidade deLa Plata, era Marcela Noble.

Apesar da discrepância das datas (Marcela e Felipe já estavam nessa data em posse de Ernestina Herrera de Noble), o casal Kirchner insistiu na teoria de que Anahí Mariani era na verdade Marcela Noble.

Sua nora, Diana Teruggi, foi morta no tiroteio dentro da casaem La Plata. Seufilho, Daniel Mariani, foi colocado em um centro clandestino de detenção, torturado e assassinado em 1977.

“Não posso me dar o luxo de morrer… tenho que encontrar minha neta”, havia dito a avó em janeiro de 2008, poucos meses antes que começasse a briga Kirchners-Clarín.

COMPULSÓRIO – O processo judiciário original determinava que os Noble deveriam fazer uma comparação genética com duas famílias que haviam pedido a investigação inicial, já que possuíam bebês desaparecidos em 1976, ano do nascimento e adoção de Felipe e Marcela.

Mas, após pressões do governo Kirchner, a Justiça determinou que os novos exames teriam que ser cotejados com a totalidade das famílias de bebês desaparecidos, que contam com crianças sequestradas entre 1975 e 1978.

A decisão causou polêmica, já que a lei não obrigava os irmãos Noble – que não eram processados na Justiça por crime algum – a aceitar uma extração de sangue compulsória.

No dia 17 de junho passado os irmãos Noble aceitaram cotejar seu ADN com todas as famílias de netos desaparecidos. Na ocasião argumentaram que estavam cansados da “perseguição política do governo” e que estavam dispostos a realizar todos os exames “para acabar” com as pressões da presidente Cristina Kirchner sobre sua mãe, a empresária Ernestina Herrera de Noble.

Felipe e Marcela realizaram três exames de DNA desde dezembro de 2009. No entanto, apenas um teste chegou à conclusão. Sem poder confirmar o vínculo com os desaparecidos, o BGN argumentou que as amostras estavam “corrompidas”.

ADOÇÕES – Em maio de 1976 Ernestina De Noble adotou uma menina. Segundo ela, a criança registrada posteriormente como Marcela foi encontrada em uma caixa de papelão colocada diante da porta de sua casa. Em julho de1976, a empresária pediu a adoção de um menino, Felipe, filho de uma mãe solteira (que nunca mais foi vista) que teria dado a criança à empresária.

A existência de irregularidades nos documentos de adoção das crianças – e a participação de uma juíza que teria colaborado com adoções de bebês sequestrados – despertaram em 1995 as suspeitas de parentes de desaparecidos cujos filhos foram sequestrados pelos militares e da organização de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Mayo.

Em 2002 Ernestina foi detida por “irregularidades na adoção”. Mas, após dias em uma cela, Noble foi liberada.

IRREGULARIDADES – Na data de adoção de Marcela, Ernestina Noble não residia no lugar citado nos documentos,em San Isidro, mas sim, na cidade de Buenos Aires.As testemunhas que ela apresentou eram supostamente

a)      uma vizinha de San Isidro (onde Noble não morava)

b)      o jardineiro da casa

No entanto, a vizinha não moravaem San Isidro, mas sim em Acasusso (era duplamente uma ‘não-vizinha’)

E o jardineiro não era jardineiro, mas sim, o chofer da família Noble.

Em julho de 1976 pediu a adoção de um menino, Felipe, filho de uma mãe solteira que teria dado a criança à empresária.

No entanto,

a) a mulher que teria entregue Felipe nunca mais apareceu,

b) …e o nome que forneceu é falso, pois não há ninguém registrado com esse nome e número de documento.

No entanto, apesar das irregularidades, Marcela e Felipe não são filhos dos desaparecidos políticos registrados no BNDG, tal como afirmavam as Avós da Praça de Mayo e a presidente Cristina.

“A maioria das adoções de bebês na Argentina ainda hoje são feitas de forma irregular, já que existe muita burocracia… e milhares de crianças esperando por um lar. Pouco mudou com o passado” me comentou em off um especialista no assunto, que trabalha, coincidentemente, no governo. “Mas uma coisa é uma adoção feita de forma picareta e outra é de mandar matar os pais de um bebê e ficar com ele”, arrematou.

BEBÊS – As estimativas das Avós da Praça de Mayo indicam que durante a Ditadura ao redor de 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas. Desse total, nos últimos 35 anos foram recuperadas – ou identificadas por suas famílias biológicas – apenas 103 filhos. O paradeiro dos outros 400 bebês é desconhecido.

Grande parte das crianças nasceram em maternidades clandestinas dentro dos centros de tortura da ditadura. Após o parto as crianças eram entregues a famílias de militares sem filhos, policiais ou civis aliados da ditadura. As mães, após a entrega de seus bebês, eram assassinadas pelos militares.

BANCO GENÉTICO – Desde o final dos anos 90 as avós da Praça de Mayo contam com um banco de dados genético para cotejar as amostras de DNA das famílias dos desaparecidos e dos adultos (atualmente na faixa dos 31 aos 36 anos) suspeitos de terem sido sequestrados quando eram recém-nascidos.

Kathleen Turner e Michael Douglas interpretando o outrora apaixonado casal que protagonizava uma feroz briga mortal no filme ‘A guerra dos Roses’ (de 1989, dirigido por Warren Adler). Em Buenos Aires, analistas comparam a briga dos Kirchners com o Clarín com o supracitado filme de Hollywood. Isto é, do tórrido casamento ao divórcio com abundantes sopapos e golpes letais. 

DE ALIADO A INIMIGO – Em 2003 os Noble concordaram em comparar seu material genético com o ADN das duas famílias que haviam aberto o processo na Justiça. As Avós da Praça de Mayo insistiram em realizar o exame com todas as família do BNDG. Nos anos seguintes, as investigações sobre o caso Noble estiveram praticamente paralisadas na Justiça entre 2002 e 2008.

No entanto, em2008 aaliança que existia entre a presidente Cristina Kirchner e o Grupo Clarín acabou. O holding multimídia passou a ser encarado como um “inimigo mortal” do governo Kirchner, que implementou várias medidas para reduzir o poder do “Clarín” com a implementação da lei de mídia (que pretende limitar a atuação dos meios de comunicação), piquetes protagonizados por sindicalistas aliados do governo para impedir a saída de exemplares do jornal, entre outras.

Na sequência, o governo Cristina impulsou a retomada das investigações sobre o caso Noble nos tribunais, enquanto a presidente e seus ministros começaram a acusar Ernestina Herrera de Noble de ser cúmplice do hipotético sequestro e ocultamento da identidade original de Felipe e Marcela.

Para mais detalhes sobre as conexões entre os Kirchners e o Clarín e o que dois lados fizeram durante a ditadura, em um post de julho do ano passado. Aqui.

E, nada a ver com a postagem acima: Ginger Rogers teria feito 100 anos neste sábado.

Neste link do Youtube vemos como uma mais fascinante dos musicais “le saca viruta al piso”. Aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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