Governo de Cristina Kirchner deflagra “cruzada” contra o dólar
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Governo de Cristina Kirchner deflagra “cruzada” contra o dólar

arielpalacios

02 de novembro de 2011 | 09h25

Pinguins e dólares: origami feito com uma cédula americana imita físico dos integrantes da ordem dos Sphenisciformes, família dos Spheniscidae.

Os argentinos vivem desde segunda-feira o denominado “corralito verde”, denominação aplicada às medidas de restrição sobre o dólar que o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou no fim da noite da sexta-feira. A ordem do governo é que todas as operações de compra e venda da moeda americana dentro da Argentina deverão passar pelos controles da AFIP (sigla da receita federal argentina), que determinará se os fundos para realizar o câmbio possuem origens justificáveis e se as operações serão autorizadas ou não. A medida, elaborada pela presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont (cotada para o posto de ministra da economia no segundo governo de Cristina Kirchner), pretende desestimular a demanda das divisas, já que o país sofre uma intensa fuga de dólares que em outubro teria sido de 3,6 bilhões. As estimativas de diversas consultorias econômicas indicam que em dezembro o país acumularia doze meses de fuga que superaria faixa recorde de US$ 24 bilhões.

A decisão causou polêmica, já que o dólar é – há décadas – o refúgio preferido dos argentinos de classe média para resguardar suas economias dos altos e baixos da economia local. Ironias da vida, o primeiro dia de aplicação das medidas do governo Kirchner coincidiu com o “dia internacional da poupança”

A medida evidencia que o governo – uma semana após a reeleição da presidente Cristina, com 53,9% dos votos – não pretende desvalorizar a moeda nacional, o peso, apesar dos pedidos dos industriais argentinos, que querem recuperar a competitividade perdida com a escalada da inflação na última meia década.

O ministro da Economia, Amado Boudou, defendeu os novos controles para as operações com dólares e afirmou que o crescimento da demanda de dólares desde o início deste ano devia-se a um “golpe especulativo”. Boudou acusou a imprensa de estar por trás desse “golpe”.

Para fiscalizar os bancos e agências de câmbio a AFIP colocou 4.400 funcionários nas ruas. Diversas casas de câmbio optaram por não abrir suas portas na 2afeira na city financeira portenha. Ainda nesta 3afeira poucas pessoas passavam pela rua San Martín, que aglutina a maior parte dessas entidades financeiras.

O dólar oficial manteve os mesmos níveis apresentados na semana passada, de 4,26 pesos para a venda. No entanto, no paralelo, a moeda americana chegou à cotação de 4,65 pesos. No interior do país superou os 5,20 pesos. Simultaneamente os bônus da dívida pública argentina cotados em dólares registraram uma alta de 3%, enquanto que os papéis em pesos tiveram em média uma queda de 3%.

O “corralito” dos dólares é mais uma medida de uma série que o governo aplicou nos últimos dias para impedir a alta do dólar. Na semana passada o governo determinou que as empresas de mineração e petrolíferas deveriam liquidar seus dólares dentro do país. Na luta contra o aumento da cotação da moeda americana, o Banco Central teve que recorrer às próprias reservas, que caíram de US$ 52 bilhões no início do ano para os atuais US$ 48 bilhões. Na semana passada o BC precisou vender US$ 800 milhões para conter o dólar.

TURISTAS, TEORICAMENTE SEM PROBLEMAS (TEORICAMENTE) – Os turistas estrangeirosem Buenos Aires, entre eles os brasileiros, não teriam – teoricamente –problemas para trocar moedas estrangeiras pelo peso argentino. Os únicos problemas seriam operacionais, já que desde segunda-feira diversas casas de câmbio permanecem com as portas fechadas, na espera de um cenário mais definido para o setor. Outros bancos e agências estavam com “problemas” em seus sistemas informáticos e não podiam fazer operação alguma.

Na rua Florida, o calçadão do centro portenho que – apesar de decadente – continua atraindo massas de turistas provenientes do Brasil – desapareceram os “arbolitos” (arvorezinhas), denominação dos cambistas ilegais que visavam principalmente os visitantes do exterior.

No entanto, segundo apurou o Estado, os turistas que optavam por pagar as mercadorias compradas com a moeda americana eram recebidos de braços abertos, já que para vários comerciantes esta será a única oportunidade que terão nos próximos tempos para adquirir dólares. Nestes casos, a cotação oferecida pelos comerciantes era mais favorável do que nas casas de câmbio.

O principal risco para os turistas brasileiros era o de não conseguir trocar para dólares ou reais nas horas prévias ao retorno ao Brasil, fato que implicaria em voltar com pesos argentinos na carteira.

 

Relação dos argentinos com a moeda americana é intensa. Fotomontagem que ironiza a obra de Michelangelo Buonarroti.

“QUEM APOSTA…” – O vice-presidente do Banco Central, Miguel Pesce, afirmou que “quem compra dólares estará fazendo um mau negócio”. A frase fez os argentinos relembrarem de Lorenzo Sigaut, ministro da economia da Argentina em 1981, que declarou “quem aposta no dólar, perde”. No entanto, a realidade contrariou o ministro, já que uma semana após a frase de Sigaut o dólar havia disparado, aumentando sua cotação em 35%. No entanto, a frase – e seu autor – entraram para o panteão dos prognósticos categóricos que falharam na História da economia nativa.

Nesta semana, na city financeira portenha, os analistas veteranos recordavam que diversos governos – civis e militares – tentaram colocar barreiras para a compra e venda de dólares em 1975, 1982, 1989 e 2001. No entanto, em todas as ocasiões as medidas fracassaram perante a tradição dos argentinos em buscar refúgio na moeda americana.

O ex-presidente do BC e atual deputado da oposição, Alfonso Prat-Gay, afirmou que as medidas serão um tiro pela culatra, já que a aplicação de controles sobre o dólar “aumentarão o desejo” dos argentinos pela divisa americana. “Para brecar a fuga, em vez disso, o governo deveria ter um combate frontal contra a inflação”, disse. Outro ex-presidente do BC argentino, Martín Redrado (foi o presidente da entidade durante a maior parte do governo Kirchner), sustentou que “a política cambial do governo gera mais incertezas do que soluções”.

Presidente Cristina E.F. de Kirchner com gesto típico em discurso. A líder do Poder Executivo argentino pede aos argentinos que não apostem de jeito algum na moeda americana. No entanto, ela própria investiu intensamente no dólar durante anos.

CRISTINA, NACIONAL, POPULAR E DOLARIZADA – A presidente Cristina, defensora do “Nac e Pop” (nacional e popular) começou a dar sinais públicos de que pretendia controlar a moeda americana no mercado argentino em julho, quando visitou a Bolsa de Valores. Na ocasião, em um discurso, a presidente pediu aos argentinos que “não apostassem no dólar”. No entanto, o pedido presidencial teve pouco efeito na época, já que as declarações oficiais de bens de 2008 e 2009 da própria Cristina Kirchner (divulgada em 2010) evidenciava que ela e seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner, morto em outubro do ano passado, haviam colocado 62% de suas aplicações financeiras na moeda de “El Imperio” (denominação informal dos EUA no jargão político do setor), isto é, o dólar.

De forma geral, a declaração de bens do casal indica que desde 1999 a maior parte dos depósitos bancários do casal Kirchner esteve em dólares.Pouco antes da implantação do “corralito”, o mega-confisco bancário do fim do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa (dezembro de 2001), os Kirchners – aconselhados pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo, com quem tinham uma relação de amizade desde 1991 – retiraram a totalidade de suas economias em cash, no total de US$ 1,8 milhão (que por causa da conversibilidade econômica equivaliam a 1,8 milhão de pesos), e a colocaram em uma conta corrente do Deutsche Bank, nos EUA. Em 2002, após a desvalorização do peso, os Kirchners trouxeram suas economias de volta ao país. Nessa ocasião, o dinheiro que haviam colocado a salvo da crise no exterior valia, ao retornar 6,2 milhões de pesos (mais detalhes nesta postagem antiga, aqui).

 

“Alguém viu um dólar aí?” perguntou desafiante Perón em 1953 à multidão na Praça de Mayo. Vinte anos depois, o velho caudilho não se atreveu a realizar a mesma pergunta. Perón começou a perceber que a procura desesperada dos argentinos pela moeda americana superava qualquer discurso e carisma. Em 1973, pouco antes de encerrar seu exílio em Madri, afirmou com ceticismo: “o bolso é a víscera mais sensível do corpo humano…”. Na imagem acima, Perón em Buenos Aires, de volta ao poder e pouco antes de morrer, em 1974.

DÓLAR, OBSESSÃO ARGENTINA HÁ CINCO DÉCADAS

Em 1953, perante uma multidão acotovelada na Praça de Mayo, o general e presidente Juan Domingo Perón, desde a sacada da Casa Rosada, o palácio presidencial, fez uma pergunta em tom de desafio: “quem aí viu um dólar de perto?” Perón tentava minimizar a crescente importância da moeda americana no pós-guerra, já que esta começava a despertar o interesse dos argentinos, cansados dos constantes altos e baixos da economia local.

Nas quase seis décadas seguintes o frisson dos argentinos pelo dólar continuou crescendo e transformou-se em parte da cultura local, ao ponto de gerar um vocabulário próprio. Motivos havia de sobra, já que nesse período a Argentina passou por 13 graves crises econômicas (com desvalorizações repentinas, confiscos bancários, recessão e hiperinflação) que levaram os habitantes deste país a buscar a segurança da moeda americana.

Ao contrário dos brasileiros, cuja economia nunca foi dolarizada, os argentinos refugiaram-se no dólar mesmo durante a conversibilidade econômica, quando o governo garantia a paridade entre as moedas dos EUA e da Argentina.

Segundo autoridades americanas os argentinos são o segundo povo estrangeiro mais dolarizado no mundo, atrás – obviamente – dos Estados Unidos. Os russos estão em terceiro lugar no ranking. Os argentinos possuem US$ 130 bilhões fora do sistema financeiro, tanto em contas no exterior, caixas de segurança ou dentro do tradicional colchão e outros refúgios domésticos.

Do total de dólares vendidos ao público argentino em 2011, 80% foi comprado por pequenos e médios poupadores. Os analistas destacam que o dólar é refúgio tradicional das classes médias perante a variação de preços, enquanto que as elites possuem ferramentas mais “sofisticadas”, como ações e outras aplicações.

GLOSSÁRIO DOS DÓLARES NA ARGENTINA

Arbolito: Literalmente significa “arvorezinha”, pois ficavam em pé, imóveis, tais como os arbustos existentes nos anos 70 no meio do calçadão da rua Florida. Eles sussurravam, como o barulho do vento nas folhas: “dólar, dólar…”. O uso do termo posteriormente ampliou-se e é usado atualmente para os cambistas ilegais.

Cueva: Literalmente significa “caverna”, isto é, escritórios no centro de Buenos Aires onde as operações de compra e venda da moeda americana são de volume substancial.

Luca verde: Mil dólares. Uma “luca”, na gíria portenha, equivale a mil.

Palo verde: Um milhão de dólares. Um “palo” equivale a um milhão.

“Donde hay un mango?”: Uma “ranchera” antiga (embora com letra que resistiu à passagem do tempo) sobre a falta de dinheiro. Interpretada por Tita Merello, aqui.

E nada a ver com a temática acima,o tango “Naranjo en flor”. Aqui.

Verne luta contra a morte e procura a luz.

E já que estamos no dia de finados, minha homenagem a todos meus entrevistados e fontes nos governos (e outros âmbitos) que partiram desta vida nos últimos 16 anos. Pessoas de diferentes atividades (e de diversas ideologias e personalidades) como o ensaísta Tomás Eloy Martinez, o ex-guerrilheiro e ativista cultural Envar El Kadri, o historiador José Ignácio García Hamilton, a salvadora de judeus do Holocausto Emile Schindler, o escritor Adolfo Bioy Casares, o diplomata Gustavo Figueroa, a mãe da praça de Mayo Delícia Córdoba, o cartunista Roberto Fontanarrosa e tantos – tantíssimos – outros que de uma forma ou outra colaboraram com a atividade jornalística e com a sociedade enquanto estiveram vivos.

E, como homenagem, uma ilustração que mostra a supimpa tumba de Jules Verne (1828-1905), escritor que – caso exista um céu e caso ele esteja lá e caso eu vá parar ali – adoraria entrevistar.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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