Santo Imbróglio Epistolar: A carta do papa que era falsa mas que era verdadeira
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Santo Imbróglio Epistolar: A carta do papa que era falsa mas que era verdadeira

arielpalacios

22 Maio 2014 | 21h43

Comédia de enredos: A carta do papa Francisco que não era do papa Francisco…mas que depois era carta do papa.

O governo da presidente Cristina Kirchner nesta quinta-feira divulgou uma carta do papa Francisco. Durante o dia a Casa Rosada havia atarefado-se em comunicar pela agência estatal de notícias Télam e pelo próprio site da presidência argentina que o sumo pontífice, em um tom intimista (tratando a presidente Cristina de “vos”, isto é, “você), havia remetido uma epístola à chefe de Estado argentina saudando-a pelo 25 de maio, uma das duas datas nacionais.

Nessa carta o santo padre também indicava que pedia a intercessão divina (especificamente, da Virgem de Luján), para que os argentinos encontrem “caminhos de convivência pacífica, diálogo construtivo e mútua colaboração, para que cresça a solidariedade, a concórdia e a Justiça”.

O tom do governo ao divulgar a carta pontifícia, havia sido a de ressaltar a virtual proximidade entre o líder da Igreja Católica e a presidente Cristina.

No entanto, no fim do dia o secretário de protocolo do Vaticano, monsenhor Guillermo Karcher, afirmou que a carta do papa não era do papa. Isto é, essa epístola era falsa. “Ficamos supresos ao ver estas coisas. O papa não está com raiva disso, mas esta coisa é de muito mau-gosto”. Depois, arrematou: “é uma picaretagem”.

Karcher, agindo como porta-voz, sustentou, visivelmente irritado, que “com o nome do papa não se brinca”. Segundo ele, o papa Francisco “ficou atônito” quando ficou sabendo da divulgação feita pela Casa Rosada da carta “falsa”.

 

A carta do papa Francisco. Era carta verdadeira, era falsa, era a carta verdadeira, finalmente. 

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Monsenhor Karcher também explicou que existiam discrepâncias naquela “suposta” epístola papal falsa, indicando que, se fosse oficial, ostentaria o timbre do Vaticano (mas na suposta carta falsa aparece o timbre da Nunciatura Apostólica).

À noite, perante o (suposto) papelão, integrantes do governo Kirchner tentaram justiticar a divulgação da carta. “Não sabemos porque o Vaticano diz que é falsa”, balbuciou o secretário-geral da presidência, Oscar Parrilli. A seu lado, mais nervoso, Guillermo Olivieri, secretário de Culto (repartição encarregada da área religiosa dentro do Estado argentino), alegou que a missiva havia sido entregue na Casa Rosada em um envelope fechado da Nunciatura Apostólica.

“Não fazemos conjeturas nem sabemos o que foi que ocorreu”, disse Parrilli. Segundo Olivieri, a carta foi entregue na Casa Rosada pela “pessoa” que sempre entrega a correspondência da Nunciatura.

Parrilli sustentou que leu a carta para a presidente Cristina. Esta, ao ouvir o conteúdo, considerou que era necessário divulgá-la.

No entanto, a carta tinha data do dia 15 de maio, possuía um erro de ortografia e não tinha um carimbo sequer. Parrilli explicou: “agora é que percebemos isso…”.

CARTA SOME – Antes das declarações de Parrilli a Casa Rosada e a agência estatal Télam já haviam eliminado as informações sobre a carta papal, fazendo de conta que nunca havia existido.

O próprio governo Kirchner estava acreditando que havia sido enganado de alguma forma, possivelmente pela Nunciatura em Buenos Aires, à qual começava a acusar como a responsável pela primeira fase do imbróglio.

Mas, nesta quinta-feira de manhã, este vaticanáceo enredo – envolvendo um governo famoso por falsificar índices de inflação, pobreza e PIB – teve outra guinada: monsenhor Karcher retificou seu desmentindo, afirmando que a carta – ou telegrama – era verdadeiro. Na sequência, o porta-voz papal, Federico Lombardi, confirmou, por via das dúvidas, que a carta era verdadeira.

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O governo Kirchner tentou usar a imagem do papa em diversas ocasiões: acima, o candidato kirchnerista das eleições parlamentares do ano passado, Martín Insauralde, que apertou a mão do papa durante 22 segundos no Rio de Janeiro durante a visita de Francisco ao Brasil. Esse exíguo tempo foi suficiente para fazer uma foto de valioso peso de marketing que foi transformada em outdoors espalhados em toda a província de Buenos Aires.

 

Embaixo, Dean Martin canta “Papa loves mambo”. Em tempo, recado a todos: o papa em questão, que aprecia o ritmo caribenho, não é o sumo pontífice, mas sim, um pater familias.

E aqui, “Papa don’t preach”. De novo, é preciso avisar: Não se trata do santo padre nesta canção de Madonna…

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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