Governo Kirchner estatiza transmissões de corridas de automóveis (de bônus track, comics estatais e um ibope oficial)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Governo Kirchner estatiza transmissões de corridas de automóveis (de bônus track, comics estatais e um ibope oficial)

arielpalacios

04 de março de 2012 | 18h09

 

Vice-presidente A.Boudou celebra com pilotos o final da primeira corrida de TC com a transmissão estatizada

Depois de estatizar as transmissões dos jogos de futebol, de estar a ponto de deslanchar o funcionamento de uma empresa de ibope estatal e de lançar histórias em quadrinhos estatais – e gratuitas – o governo de Cristina Kirchner aumenta sua presença na área de mídia e entretenimento: a presidente estatizou as transmissões das corridas de Turismo Carretera (a principal categoria do automobilismo na Argentina, disputada com veículos antigos da Ford, Chevrolet e Dodge que contam com mecânica envenenada).

O contrato de quatro anos de duração implicará no desembolso de US$ 93 milhões por parte do governo Kirchner, que com esta medida pretende levar o automobilismo à toda a população. As transmissões começaram a ser realizadas no domingo pelo Canal TV Pública, outrora uma estação dedicada a programas culturais que nos últimos anos transformou-se em uma tribuna de propaganda política e de jogos de futebol com publicidade exclusiva de apologia das obras do governo Kirchner.

Até a assinatura deste acordo as corridas eram transmitidas de forma gratuita na cidade de Buenos Aires. Mas, no resto do país eram veiculadas pela TV a cabo. Os partidos da oposição acusam o governo de realizar “populismo esportivo” com as medidas de estatização das transmissões de eventos esportivos.

O lançamento oficial do acordo do Turismo Carretera – que está dentro da política do governo de “esporte para todos” – foi realizado pelo vice-presidente Amado Boudou com uma cerimônia oficial em Mar del Plata (sua cidade natal). Alguns dos mais famosos pilotos argentinos da categoria estiveram presentes. “Conseguimos que esta corrida chegue à toda a população!”, exclamou Boudou, erguendo as mãos para cima, a modo de remake do emblemático gesto do defunto presidente Juan Domingo Perón.

Perón, nos anos 50, sentado no automóvel de corrida do ás argentino Juan Manuel Fangio

Esta estatização, tal como ocorreu com as transmissões dos jogos de futebol (ocorrida em 2009), implicam em mais um revés para o Grupo Clarín, já que o holding multimídia tinha um acordo com a Associação de Corredores de Turismo Carretera (Actc). Mas, a associação anunciou que suspendia o acordo que havia mantido com o o Grupo Clarín ao longo das últimas duas décadas.

Para romper o acordo que tinha com o holding privado, o governo Kirchner triplicou a oferta do Clarín: os pilotos, em vez de receber US$ 8 milhões por ano receberão US$ 23 milhões anuais.

REESTATIZADO E SEM LUCROS – Desde fevereiro de 2010 o governo Kirchner proíbe as publicidades do setor privado durante as transmissões dos jogos de futebol da primeira divisão na Argentina. As únicas publicidades autorizadas nessas transmissões – que foram estatizadas há dois anos e meio graças a um acordo com a Associação de Futebol da Argentina (AFA) – são as do governo Kirchner.

O espectador que assiste os jogos do esporte mais popular dos argentinos é bombardeado por imagens de obras realizadas pela presidente Cristina, além das medidas políticas e auto-elogios sobre seu próprio governo.

No total, desde 2009 o “Futebol para todos” custou ao Tesouro Público um total de US$ 470 milhões, desembolsado à AFA, segundo os dados oficiais. No entanto, estimativas independentes indicam que o gasto total foi de US$ 849 milhões. O contrato com a AFA expira em 2019.

O governo Kirchner não obteve lucro financeiro algum com a estatização das transmissões dos jogos.

IBOPE ESTATAL

O governo Kirchner inaugurará em abril 2012 uma entidade estatal que medirá a audiência das empresas de mídia da Argentina, transformando-se no primeiro caso mundial de um “ibope estatal”. Os assessores da presidente Cristina sustentam que a nova empresa estará aberta para a consulta de todos os setores “dentro de um esquema de democratização de mídia”. O plano, afirmam, é o de “criar uma referência de consumos culturais e de audiência na Argentina”.

A nova companhia pública, que rivalizará de forma explícita com a subsidiária argentina da brasileira Ibope, dependerá da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (Afsca).

O governo afirma que é “necessário” um “sistema público de medição”, já que considera que existe um “monopólio” por parte da Ibope no mercado de medição de audiências na Argentina.

Ricardito Minipyme, jovem que defende a política industrial do governo e luta contra a opressão das grandes multinacionais

HISTÓRIA EM QUADRINHOS ESTATAL

A presidente Cristina pretende conquistar os corações e mentes do público infanto-juvenil argentino por intermédio das primeiras histórias em quadrinhos estatais da América do Sul, distribuídas pela agência estatal de notícias Telam – a maior do país – que podem ser usadas gratuitamente pelos jornais argentinos.

O objetivo destes quadrinhos, segundo os chefes da agência, é o de “recuperar para os leitores o relato das aventuras com um olhar social em consonância com o projeto de país na Pátria Grande impulsado pelo governo do presidente Néstor Kirchner e de Cristina Kirchner”.

Desta forma, os leitores terão a opção de deixar de lado as tirinhas que os integrantes do governo chamam de “estrangeiras” ou “traidoras da pátria” para passar a ler historinhas “nacionais e populares”.

Os personagens das duas primeiras tirinhas lançadas pela Télam são “Juan Sur” (João Sul), agente secreto nacional e popular da União de Nações Sul-americanas (Unasul) que terá a missão de desvendar as tramoias das corporações internacionais contra os governos sul-americanos e “Ricardito Minipyme” (Ricardinho Micro-empresa), que relata a história de um nacionalista e entusiasta jovem que participa da criação de uma microempresa argentina.

Sur, Juan Sur. Agente secreto da Unasul. Ou, a conexão Quito-Buenos Aires.

          

E, nada a ver com a postagem acima, Armstrong, Louis, canta “When you’re smiling”.

Na foto abaixo, Satchmo toca para duas damas: a esfinge e a esposa.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

E, the last but not the least, siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br .
Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal correspondentes, colunistas e repórteres. 
E, de bonus track, veja o Facebook da editoria de Internacional do Portal do Estadão, aqui. 
.………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou político-partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Não é permitido postar links de vídeos. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.