“Guerra das Malvinas foi capítulo negro de nossa História”
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“Guerra das Malvinas foi capítulo negro de nossa História”

arielpalacios

02 de abril de 2012 | 19h13

30 anos da Guerra das Malvinas 

Mapa alemão da primeira ´metade do século XX hesita entre “Falkland Inseln” ou as “Malwinen”. Sobre Port Stanley não duvidava e colocava “Stanley Hafen”.

“A estratégia do governo da presidente Cristina Kirchner para reaver as Malvinas aprofunda o ressentimento dos ilhéus com a Argentina. Sua posição é cada vez mais rígida e desprovista de alternativas. É um beco sem saída”. A frase é de Vicente Palermo, sociólogo e cientista político, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), membro da Associação Brasileira de Ciência Política e autor de “Sal nas feridas”, obra que analisa o simbolismo das Malvinas na sociedade argentina.

Palermo, que integra um recém-criado grupo de 17 intelectuais de prestígio que pedem uma revisão da política da presidente Cristina Kirchner sobre o disputado arquipélago, recebeu o Estado para uma entrevista em sua casa do bairro de Boedo. “A guerra das Malvinas foi um capítulo negro de nossa História. Mas, por incrível que pareça, tentam mostrar isso como uma saga”, diz.

Estado – Nas escolas, desde a primária, semanalmente as crianças aprendem que “as Malvinas são argentinas”. Qual é o peso simbólico das ilhas hoje no imaginário coletivo argentino, 30 anos depois do desembarque das tropas de Galtieri?

Palermo – Antes de 1982 a coisa era muito mais “light”, pois não havia ocorrido a guerra. Mas a derrota no conflito do Atlântico Sul deixou uma marca dura no ego. E isso gerou a ideia de uma perda, que talvez seja definitiva. No entanto, acho que o argentino médio atual, não destina muito atenção ao tema, felizmente, apesar das convocações nacionalistas do governo. Mas, muitos argentinos consideram que os direitos de nosso país sobre as ilhas Malvinas são inquestionáveis e que a presença britânica no arquipélago é colonialismo puro. Além disso, consideram que os ilhéus são uma população implantada e, portanto, carecem dos direitos de soberania. A ‘causa’ Malvinas sustenta que os argentinos foram vítimas de um roubo. E a consequência disso é que a Argentina sofre uma mutilação territorial. E nesse contexto, a mutilação e o roubo tornam a nação Argentina uma entidade incompleta. Isso implica em que a redenção territorial seja uma condição necessária para a afirmação nacional. E, precisamente, pelo fato da nação estar incompleta, esses setores são enfáticos nacionalistas….

Estado – Como coexistem a ideia de uma “saga” da guerra das Malvinas e o fato de que esta foi iniciada por um ditador, Galtieri?

Palermo – O conflito bélico de 1982 recebeu o nome de “causa justa em mãos bastardas”. E, cada vez mais, é considerada uma saga. E nesse fenômeno tentam separar o respaldo popular e a invasão dos ditadores argentinos. De forma geral, a reivindicação dessa guerra está muito presente entre nós. Isso fica evidente pela escolha do dia 2 de abril como feriado nacional. E também fica óbvio pela forma obstinada de chamar de “Puerto Argentino” a capital das ilhas (que, para os ingleses e os kelpers é ‘Stanley’). Geralmente não se examina o que aconteceu, o que nos levou a semelhante catástrofe, isto é, a decisão da invasão e o respaldo para isso. Nós, argentinos, deveríamos refletir mais sobre o que significa essa guerra em nossa História. É um capítulo negro. Falta discussão sobre o assunto. Na época da guerra a maioria dos argentinos não respaldava Galtieri. Mas, respaldava a decisão de Galtieri de invadir as ilhas. No entanto, não dá para separar isso do regime. Se tivessem vencido, os ditadores teriam permanecido, iam capitalizar esse respaldo. A mesma coisa aconteceu com a Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina enquanto milhares de pessoas estavam desaparecidas e eram torturadas.

Estado – Diversos historiadores afirmam que a Junta Militar, em caso de sucesso nas Malvinas, tinha planos para uma guerra com o Chile, país com o qual haviam estado à beira do conflito bélico quatro anos antes….

Palermo – Sim, com certeza, o próximo alvo teria sido o Chile. Vários setores muito importantes pensavam que nossa capacidade militar era elevada…

Estado – Quais as chances da Argentina recuperar as ilhas?

Palermo – Considero que fica cada vez mais complicada uma eventual recuperação das ilhas. A estratégia atual de pressões não favorece no mínimo. Se o governo pretende recuperar as ilhas desse jeito, está perdido. Os kelpers se aferrarão mais ainda aos britânicos. E estes, por seu lado, também afirmam-se mais em sua posição de não entregar as ilhas e seus habitantes. Mas, se o governo não puder conseguir as Malvinas, a segunda opção é a de definir os britânicos como os inimigos permanentes…

Estado – O respaldo dos países latino-americanos nos esforços do governo argentino para reaver as ilhas possui um efeito prático?

Palermo – Não terá efeito prático na negociação com a Grã-Bretanha. Acontece que a faixa de negociação de Buenos Aires com Londres é muito estreita. Ou melhor: a Argentina simplesmente não coloca nada na mesa de negociações e somente diz que quer a soberania plena das ilhas. E por isso Londres não vai ceder. Além disso, essas pressões com a Grã-Bretanha complicam as relações dos outros países sul-americanos com Londres. E, a realidade é que a ideia de uma “soberania compartilhada” em uma primeira etapa para a entrega das Malvinas à Argentina, me parece inverossímil. Ora, tanto os ilhéus como os argentinos recusam qualquer ideia de compartilhar soberania.

Estado – A reivindicação das Malvinas é um dos poucos consensos de uma sociedade costumeiramente antagonizada como a argentina?

Palermo – Não sou parte dessa hipotética grande maioria que sustenta existe essa ‘malvinidade’ toda…

Estado – O governo Kirchner argumenta que os ilhéus não contam nestas negociações que pretende ter com a Grã-Bretanha. Os argentinos argumentam que os ilhéus não tem identidade, que são uma comunidade “transplantada”…

Palermo – Existem dois artifícios entre os preferidos da ortodoxia argentina malvineira quando o assunto são os ilhéus. O primeiro é um jogo de números que pergunta qual a relevância de 3 mil pessoas contra 40 milhões (população da Argentina). Mas, aí gostaria de dizer que na ONU, aquela entidade que os argentinos acreditam que dá razão à Argentina nesta discussão, participam vários países com uma população um pouquinho maior que a das Malvinas. Mas, acho que mais importante do que isso é que os ilhéus, independentemente de seu número, possuem uma identidade.

Estado – Falando sobre a identidade, o que aconteceria com os kelpers se as Malvinas fossem transferidas para a Argentina, em um hipotético futuro a curto ou longo prazo?

Palermo – Existe uma incompatibilidade radical entre conservar a identidade malvinense e que os ilhéus sejam entregues aos argentinos. Não é um caso de números…é um caso de identidade. Por acaso estamos dispostos a pagar esse preço, isto é, de impor tal custo a uma comunidade?

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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