Guerra foi visitar Fellini e Rota
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Guerra foi visitar Fellini e Rota

arielpalacios

21 de março de 2012 | 18h52

 

Tonino Guerra, poeta e roteirista italiano, depois de 92 anos de intensa atividade e de desfrutar a vida, fechou os olhos para sempre nesta quarta-feira em sua cidade natal, Santarcangelo de Romagna. O vilarejo está perto de Rímini, berço de outro expoente do cinema, Federico Fellini.

Guerra e Fellini, além de amigos, trabalharam juntos. O primeiro fez roteiros para diversos filmes do segundo.

No início de 1994 fiz uma entrevista com Guerra no café da Filmoteca de Madri, depois da primeira noite de uma mostra de sua obra.

Federico Fellini, seu grande amigo, havia falecido poucos meses antes, no dia 31 de outubro de 1993. Desta forma, grande parte da conversa teve o diretor de Armarcord como epicentro.

A intenção original era publicar a entrevista em Madri, onde morava na época e trabalhava como freelancer. Mas, por diversos motivos, a entrevista nunca saiu. Ela ficou guardada, impressa, no meio de uma variada e empoeirada papelada. Recentemente, revendo no Youtube as cenas finais de “E la nave va”, lembrei da conversa com Guerra e procurei a entrevista entre os papéis (acumulo muuuuuuitos papéis). Ela não estava em disquete (Virge, sô! Que coisa antiga!). Mas, a encontrei impressa, em três páginas presas com um clip.

Aqui segue o texto que escrevi na época contendo a conversa com Guerra, que na ocasião tinha 73 anos. No ano passado publicamos esta entrevista no blog. Mas, hoje voltamos a postá-la como homenagem ao brilhante roteirista.

E assim, hoje “Os Hermanos transforma-se brevemente em “Os Fratelli”.

Tonino Guerra trabalhou com os melhores diretores de cinema europeu. Foi roteirista de Federico Fellini (“Amarcord”, “Ginger e Fred”, “E la Nave va”), Andrei Tarkóvski (“Nostalgia”) e Michelangelo Antonioni (“A Aventura”, “Deserto Vermelho”). Colaborou com Francesco Rossi em “Carmen”. É também poeta e escreve em dialeto romagnolo. Modesto, com o tranquilo estilo de quem foi criado na pequena Santarcangelo, vizinha da felliniana Rimini, diz: “não, não quero falar sobre mim. Me pergunte sobre Fellini, Antonioni…deixe que lhe conte histórias sobre eles. Eu não sou tão importante..”.

Pergunta: Va bene, signore Guerra, mas me deixe perguntar se o sr. vai tanto a Santarcangelo quanto Fellini ia a Rimini para abastecer-se de ideias…

Guerra: Em Roma jamais saio de casa. Não dá para fazer isso em uma cidade onde os homens são menores que os monumentos. Vou para minha cidade, onde tenho um apartamento, na praça central. Todos ali estão bebendo nos cafés…e ali posso ouvir conversas muito sérias, como “quanto pesa um olho?”, e outros assuntos desse estilo. Há uns dez anos, atravessava a região da Úmbria, quando olhei o campo e suas suaves colinas…totalmente cobertas pela geada, como se fosse um véu. Mas o sol aparecia e a capa de geada sobre o chão desapareceu. Sob as árvores e nos lados das casas ainda permanecia essa ‘sombra branca’ do gelo…que momento poético! No camarote do trem um homem sentado em minha frente lia o jornal. Então eu disse, apontando pela janela: “puxa…mas olhe isso!”. E ele respondeu: “e daí? Não me importa”. Mais cedo ou mais tarde esse fato se transformará em uma cena de filme ou em dois versos de uma poesia.

Pergunta: Como foi seu trabalho com Antonioni?

Guerra: Nos uniu uma grande amizade. Primeiro fizemos “A Aventura”. Depois, realizamos “A noite”, “Zabriskie Point”, “Blow-up”, “Identificação de uma mulher”…o que eu admiro nos filmes de Antonioni é a imobilidade de suas cenas. A imagem se detém. São os personagens aqueles que continuam em movimento, embora sempre bloqueados.

Antonioni e Guerra em um break durante uma rodagem

Pergunta: Qual conexão o sr. possui com a Rússia?

Guerra: Minha mulher é russa e admiro os desenhos animados russos..o mundo deveria descobrir os verdadeiros poemas que são esses desenhos. Trabalhei com Tarkovski e filmei com Antonioni na Rússia. Juntos estivemos no Usbequistão, buscando os lugares para as cenas externas para uma fábula que chamava-se “A pipa”. Em uma camionete, íamos em direção ao Tajiquistão. Neste lugar vimos três muçulmanos. Naquela região, a pessoa que tem 63, 65 anos, é muito respeitado. Eles pareciam montanhas iluminadas, ausentes…Levamos os três de carona, por alguns quilômetros. Parecia que levávamos algo delicado … como se fosse um carregamento de açúcar. Ao descer, fizemos uma foto polaroid dos três. Eu dei a foto para eles. A olharam e a devolveram. Um deles disse: “para que deter o tempo?”.

Pergunta: Como era sua relação com Nino Rota? (Rota foi o autor das trilhas sonoras da grande maioria dos filmes de Fellini)

Guerra: Antes desta conversa, estava escutando a música de Nino Rota no hall (na Filmoteca de Madri, onde fiz esta entrevista)…Ele era um colaborador que Fellini amava: uma espécie de anjo apagado, indiferente a muitas coisas. Relembro muitas coisas. Especialmente que era muito distraído. Em uma ocasião, eu o visitei em sua casa. Ele estava sentado em um sofá. Subitamente, retirou sua mão de dentro de umas almofadas do sofá, segurando uma carta! E me disse: “Madonna mia! Tenho que fazer um presente. Dois jovens que eu conheço acabam de se casar”. E eu perguntei: “quando?”. Rota olhou a carta e disse: “…há sete anos”. Eu lhe disse: “há muito tempo, Nino”. E ele me respondeu: “compreenderão que sou distraído”. Em outra ocasião Nino Rota estava tocando piano. A seu lado, Fellini. Então, entrou um homem, que era um advogado, e que havia vindo para falar com ele. Rota estava compondo. Sem levantar a cabeça, pergunta ao advogado:

– De onde é?

– De Lecce (cidade no sul da Itália)

– E daí?

…E continuou compondo no piano. O homem deixou seu cartão de visita e saiu, decepcionado porque Rota não lhe prestou atenção.

Fellini disse a Rota:

– Por qual motivo você fez isso a esse bom homem?

– Qual homem?

– Esse que esteve aqui e que você tratou tão mal! (Fellini conta a Rota tudo o que ocorreu). Ele te deixou o telefone do hotel onde está.

– Não vi o homem, Federico! Você sabe como eu sou distraído! Por favor, chama esse homem e pede desculpas.

– Eu, pedir desculpas de tua parte??

– Sim, por favor, eu não sei fazer essas coisas!

Fellini então telefona para o homem:

– Olhe, sou Federico Fellini, e queria pedir desculpas por meu amigo.

– Mas, por qual motivo?

– É que quando ele disse “De onde o senhor é…?”

– De Lecce!

– Eu sei, deixe que lhe conte. Quando ele lhe perguntou “de onde o senhor é?”..

– De Lecce!

– Eu sei, cazzo!! Deixe lhe contar que a história é minha!

(Guerra continua falando)

Este homem excepcional, que morreu em um dia de chuva, está para sempre em nossa memória. No funeral estava minha mulher e eu, Giulietta (Giulietta Masina, mulher de Fellini), Fellini e dois amigos mais, em uma igreja vazia. Agora, os dois, Fellini e Rota, encontraram-se no céu.

Pergunta: Esteve com Fellini pouco antes de sua morte?

Guerra: Soube algo que não contou a sua esposa. Fellini acreditava muito nos sonhos. Hoje existem psicólogos que estudam seus sonhos. Um mês antes de sua ida a Zurique onde foi operado, teve um desses sonhos. Nele, ia à agência de Correios da Via del Corso, em Roma, e via que a caixa de correios era uma tumba…ele percebe que na boca da caixa de correios havia uma carta que saía. Nela, do lado de fora, estava escrita a frase “ao distraído dos distraídos”. Ao longo de um mês ou dois ele perguntou a si próprio o que poderia significar este sonho, pois, ao abrir o envelope, o que estava dentro, uma folha, estava em branco. Sobre este sonho ele falou comigo antes da operação em Zurique. Dizia: “acredito que vejo mais claramente o que aquilo queria dizer…”. Houve uma operação, uma segunda, depois a tragédia, até a morte.

Fotograma final de “E la nave va”

Pergunta: Como era o processo de escrever a quatro mãos o roteiro de “Amarcord”?

Guerra: O escrevemos em oito manhãs, das 8:00 hs da manhã até o meio-dia. Somos da mesma região. De Rimini ele, eu de Santarcangelo…portanto, uma memória comum muito próxima. Uma das características de Fellini era sua pontualidade. Sabia que às 8:00 em ponto Federico tocava a campainha, eu descia e ele ali estava. Mas, uma manhã fazia um belo tempo e eu desci antes da hora marcada para o encontro. Ele estava li, lendo. E ficou furioso por minha chegada. “Você acabou com os 10 minutos mais belos destes dias! Nesses minutos eu posso pensar no que eu quiser…até em mulheres”, disse. Na sequência, pegou seu carro e foi embora…

Pergunta: Por qual motivo “A voz da lua” e “Ginger e Fred” são considerados “fellinis” menores?

Guerra: O baile de Mastroianni e Giulietta, a queda de Marcello, não era a queda de um homem. Era a queda da Humanidade, de uma Humanidade que possuía graça, que é doce, que é a graça da civilização cidadã. Esse filme está entre os filmes menores de Fellini, afirmam os críticos. Não acho que assim seja…Como também “A voz da lua”. Quando as pesoas estão dançando naquela imensa discoteca e todos fazem um grande círculo para vê-los valsar…

Pergunta: Que relação existe entre seu trabalho de poeta e roteirista?

Guerra: Minha paixão pessoal é a de escrever poemas. Todo grande diretor, cada vez que me chama, sabe o que quer de mim: imagens poéticas. A poesia eu a escrevo em dialeto romagnolo. Mas um roteiro…com sinceridade…os diálogos eu os faço em último lugar. A imagem vem antes. Em “Amarcord” há dois poemas meus. Um é assim (declama):

“Meu avô fazia tijolos,

Meu pai fazia tijolos,

E eu não tinha uma casa”

Pergunta: Que tal foi escrever o roteiro de “Ginger e Fred”?

Guerra: Escrever “Ginger e Fred”, “Amarcord”, foi fácil. Escrever com Fellini…é esquecer que a gente está escrevendo um roteiro. Falamos de tudo. O cachorro que latem a janela que o vento sacode.

A Itália mussoliniana, retratada em Armarcord

Pergunta: E “E la nave va”?

Guerra: Nessa época eu estava apaixonado pelos grandes funerais. Havia estudado os funerais de (Josef) Stálin e (Rodolfo) Valentino, onde tantas pessoas foram pisoteadas. Publiquei um conto que se chamou “Os funerais de Mussolini se ele tivesse vencido a guerra”.

Pergunta: Como era essa história?

Guerra: Bene…o Duce havia falecido. Não era possível chegar até Roma. As autoestradas estavam entupidas. Por todos os lados havia caravanas de cavalos, camelos…resultados das conquistas na Etiópia. Nos vilarejos os padres comentavam coisas como “um dia, em um desfile, pude perceber que ele me olhava, brevemente..em meus olhos!”. E sobre a Itália sobrevoava um retrato de Mussolini, feito de néon…e de vez em quando uma orelha apagava-se, às vezes a outra. Em “E la nave va” queria fazer uma cena forte…fazer um funeral em um transatlântico! Imaginei os funerais de Edmea Tetua, uma diva da ópera. Uma evidente analogia a Maria Callas.

Pergunta: Fellini ainda é um incompreendido?

Guerra: Se até a “Divina Comédia” ainda não é compreendida…

Blow-up. Filme de Antonioni com roteiro de Guerra. E baseado em um conto de Julio Cortázar. Como diriam popularmente, “quer mais?”

Cena do funeral de “E la nave va”, de Fellini, com roteiro de Tonino Guerra:

O personagem de Tetua é baseado em parte em Maria Callas. A cena do funeral de “E la nave va” inclui “Oh patria mia” (a canção que toca enquanto as cinzas são espalhadas com o vento), uma das preferidas da famosa soprano. Aqui ela canta essa ária:

 

E para encerrar, Maria Callas cantando “Turandot”, de Giacoma Puccini, no Teatro Colón de Buenos Aires, em Turandot, em 1949:

 

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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