Guerra recorda Fellini e Rota
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Guerra recorda Fellini e Rota

arielpalacios

08 de abril de 2010 | 00h30

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Tonino Guerra, protagonista da breve transformação de “Os Hermanos em “Os Fratelli

blog1vinhetasmarca3Como dizem no jargão do samba, estamos “esquentando os tamborins”. Hoje, quinta-feira, é meu último dia de férias. Amanhã, sexta-feira, voltamos ao trabalho. E justamente, para esquentar os tamborins, publico hoje no blog uma entrevista inédita com o roteirista e poeta italiano Tonino Guerra.

Guerra não tem a ver diretamente com a Argentina ou o Cone Sul. Mas, por tabela, como a Argentina e o Uruguai são os países com (proporcionalmente) mais italianos fora da própria Itália (metade das populações são descendentes de imigrantes da bela península)…e como Guerra fez 90 anos no dia 16 de março, achei que valia a pena resgatar esta entrevista que fiz com ele no início de 1994 no café da Filmoteca de Madri, em um intervalo de uma mostra de sua obra (Federico Fellini, seu grande amigo, havia falecido poucos meses antes, no dia 31 de outubro de 1993). E de quebra, Guerra fez o roteiro de “Blow up”, de Antonioni, tendo como base o conto “Las babas del diablo”, do argentino (nascido na Bélgica) Julio Cortázar.

A intenção original era publicar a entrevista em Madri, onde morava na época e trabalhava como freelancer. Mas, por diversos motivos, a entrevista nunca saiu. Ela ficou guardada, impressa, no meio de uma variada e empoeirada papelada. Recentemente, revendo no Youtube as cenas finais de “E la nave va”, lembrei da conversa com Guerra e procurei a entrevista entre os papéis (acumulo muuuuuuitos papéis). Ela não estava em disquete (Virge, sô! Que coisa antiga!). Mas, a encontrei impressa, em três páginas presas com um clip.

Aqui segue o texto que escrevi na época contendo a conversa com Guerra, que na ocasião tinha 73 anos.

Bom, desta forma, hoje “Os Hermanos” transforma-se brevemente em “Os Fratelli”.

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Tonino Guerra trabalhou com os melhores diretores de cinema europeu. Foi roteirista de Federico Fellini (“Amarcord”, “Ginger e Fred”, “E la Nave va”), Andrei Tarkóvski (“Nostalgia”) e Michelangelo Antonioni (“A Aventura”, “Deserto Vermelho”). Colaborou com Francesco Rossi em “Carmen”. É também poeta e escreve em dialeto romagnolo. Modesto, com o tranquilo estilo de quem foi criado na pequena Santarcangelo, vizinha da felliniana Rimini, diz: “não, não quero falar sobre mim. Me pergunte sobre Fellini, Antonioni … deixe que lhe conte histórias sobre eles. Eu não sou tão importante..”.

 Pergunta: Va bene, signore Guerra, mas me deixe perguntar se o sr. vai tanto a Santarcangelo quanto Fellini ia a Rimini para abastecer-se de ideias…

Guerra: Em Roma jamais saio de casa. Não dá para fazer isso em uma cidade onde os homens são menores que os monumentos. Vou para minha cidade, onde tenho um apartamento, na praça central. Todos ali estão bebendo nos cafés…e ali posso ouvir conversas muito sérias, como “quanto pesa um olho?”, e outros assuntos desse estilo. Há uns dez anos, atravessava a região da Úmbria, quando olhei o campo e suas suaves colinas…totalmente cobertas pela geada, como se fosse um véu. Mas o sol aparecia e a capa de geada sobre o chão desapareceu. Sob as árvores e nos lados das casas ainda permanecia essa ‘sombra branca’ do gelo…que momento poético! No camarote do trem um homem sentado em minha frente lia o jornal. Então eu disse, apontando pela janela: “puxa…mas olhe isso!”. E ele respondeu: “e daí? Não me importa”. Mais cedo ou mais tarde esse fato se transformará em uma cena de filme ou em dois versos de uma poesia.

Pergunta: Como foi seu trabalho com Antonioni?

Guerra: Nos uniu uma grande amizade. Primeiro fizemos “A Aventura”. Depois, realizamos “A noite”, “Zabriskie Point”, “Blow-up”, “Identificação de uma mulher”…o que eu admiro nos filmes de Antonioni é a imobilidade de suas cenas. A imagem se detém. São os personagens aqueles que continuam em movimento, embora sempre bloqueados.

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Antonioni e Guerra, durante uma pausa no trabalho

 Pergunta: Qual conexão o sr. possui com a Rússia?

 Guerra: Minha mulher é russa e admiro os desenhos animados russos..o mundo deveria descobrir os verdadeiros poemas que são esses desenhos. Trabalhei com Tarkovski e filmei com Antonioni na Rússia. Juntos estivemos no Usbequistão, buscando os lugares para as cenas externas para uma fábula que chamava-se “A pipa”. Em uma camionete, íamos em direção ao Tajiquistão. Neste lugar vimos três muçulmanos. Naquela região, a pessoa que tem 63, 65 anos, é muito respeitado. Eles pareciam montanhas iluminadas, ausentes…Levamos os três de carona, por alguns quilômetros. Parecia que levávamos algo delicado… como se fosse um carregamento de açúcar. Ao descer, fizemos uma foto polaroid dos três. Eu dei a foto para eles. A olharam e a devolveram. Um deles disse: “para que deter o tempo?”.

Pergunta: Como era sua relação com Nino Rota? (Rota foi o autor das trilhas sonoras da grande maioria dos filmes de Fellini)

Guerra: Antes desta conversa, estava escutando a música do Nino Rota neste hall (o hall-café da Filmoteca de Madri, onde fiz esta entrevista)…Ele era um colaborador que Fellini amava: uma espécie de anjo apagado, indiferente a muitas coisas. Relembro muitas coisas. Especialmente que era muito distraído. Em uma ocasião, eu o visitei em sua casa. Ele estava sentado em um sofá. Subitamente, retirou sua mão de dentro de umas almofadas do sofá, segurando uma carta! E me disse: “Madonna mia! Tenho que fazer um presente. Dois jovens que eu conheço acabam de se casar”. E eu perguntei: “quando?”. Rota olhou a carta e disse: “…há sete anos”. Eu lhe disse: “há muito tempo, Nino”. E ele me respondeu: “compreenderão que sou distraído”. Em outra ocasião Nino Rota estava tocando piano. A seu lado, Fellini. Então, entrou um homem, que era um advogado, e que havia vindo para falar com ele. Rota estava compondo. Sem levantar a cabeça, pergunta ao advogado:

– De onde é?

– De Lecce (cidade no sul da Itália)

– E daí?

…E continuou compondo no piano. O homem deixou seu cartão de visita e saiu, decepcionado porque Rota não lhe prestou atenção.

Fellini disse a Rota:

– Por qual motivo você fez isso a esse bom homem?

– Qual homem?

– Esse que esteve aqui e que você tratou tão mal! (Fellini conta a Rota tudo o que ocorreu). Ele te deixou o telefone do hotel onde está.

– Não vi o homem, Federico! Você sabe como eu sou distraído! Por favor, chama esse homem e pede desculpas.

– Eu, pedir desculpas de tua parte??

– Sim, por favor, eu não sei fazer essas coisas!

Fellini então telefona para o homem:

– Olhe, sou Federico Fellini, e queria pedir desculpas por meu amigo.

– Mas, por qual motivo?

– É que quando ele disse “De onde o senhor é…?” 

– De Lecce!

– Eu sei, deixe que lhe conte. Quando ele lhe perguntou “de onde o senhor é?”.. 

– De Lecce!

– Eu sei, cazzo!! Deixe lhe contar que a história é minha! 

(Guerra continua falando)

Este homem excepcional, que morreu em um dia de chuva, está para sempre em nossa memória. No funeral estava minha mulher e eu, Giulietta (Giulietta Masina, mulher de Fellini), Fellini e dois amigos mais, em uma igreja vazia. Agora, os dois, Fellini e Rota, encontraram-se no céu.

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Cartaz francês de “E la nave va”. O resultado do trabalho de três pesos-pesados: Fellini, Rota e Guerra.

 

Pergunta: Esteve com Fellini pouco antes de sua morte?

Guerra: Soube algo que não contou a sua esposa. Fellini acreditava muito nos sonhos. Hoje existem psicólogos que estudam seus sonhos. Um mês antes de sua ida a Zurique onde foi operado, teve um desses sonhos. Nele, ia à agência de Correios da Via del Corso, em Roma, e via que a caixa de correios era uma tumba … ele percebe que na boca da caixa de correios havia uma carta que saía. Nela, do lado de fora, estava escrita a frase “ao distraído dos distraídos”. Ao longo de um mês ou dois ele perguntou a si próprio o que poderia significar este sonho, pois, ao abrir o envelope, o que estava dentro, uma folha, estava em branco. Sobre este sonho ele falou comigo antes da operação em Zurique. Dizia: “acredito que vejo mais claramente o que aquilo queria dizer…”. Houve uma operação, uma segunda, depois a tragédia, até a morte. 

Pergunta: Como era o processo de escrever a quatro mãos o roteiro de “Amarcord”?

Guerra: O escrevemos em oito manhãs, das 8:00 hs da manhã até o meio-dia. Somos da mesma região. De Rimini ele, eu de Santarcangelo…portanto, uma memória comum muito próxima. Uma das características de Fellini era sua pontualidade. Sabia que às 8:00 em ponto Federico tocava a campainha, eu descia e ele ali estava. Mas, uma manhã fazia um belo tempo e eu desci antes da hora marcada para o encontro. Ele estava li, lendo. E ficou furioso por minha chegada. “Você acabou com os 10 minutos mais belos destes dias! Nesses minutos eu posso pensar no que eu quiser…até em mulheres”, disse. Na sequência, pegou seu carro e foi embora…

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Federico Fellini e Giulietta Masina, amigos de Tonino Guerra

Pergunta: Por qual motivo “A voz da lua” e “Ginger e Fred” são considerados “fellinis” menores?

Guerra: O baile de Mastroianni e Giulietta, a queda de Marcello (em “Ginger e Fred”), não era a queda de um homem. Era a queda da Humanidade, de uma Humanidade que possuía graça, que é doce, que é a graça da civilização cidadã. Esse filme está entre os filmes menores de Fellini, afirmam os críticos. Não acho que assim seja … Como também “A voz da lua”. Quando as pesoas estão dançando naquela imensa discoteca e todos fazem um grande círculo para vê-los valsar…

Pergunta:  Que relação existe entre seu trabalho de poeta e roteirista?

Guerra: Minha paixão pessoal é a de escrever poemas. Todo grande diretor, cada vez que me chama, sabe o que quer de mim: imagens poéticas. A poesia eu a escrevo em dialeto romagnolo. Mas um roteiro … com sinceridade … os diálogos eu os faço em último lugar. A imagem vem antes. Em “Amarcord” há dois poemas meus. Um é assim (declama):

“Meu avô fazia tijolos,

Meu pai fazia tijolos,

E eu não tinha uma casa”

 Pergunta: Que tal foi escrever o roteiro de “Ginger e Fred”?

Guerra: Escrever “Ginger e Fred”, “Amarcord”, foi fácil. Escrever com Fellini… é esquecer que a gente está escrevendo um roteiro. Falamos de tudo. O cachorro que latem a janela que o vento sacode.

Pergunta: E “E la nave va”?

Guerra: Nessa época eu estava apaixonado pelos grandes funerais. Havia estudado os funerais de (Josef) Stálin e (Rodolfo) Valentino, onde tantas pessoas foram pisoteadas. Publiquei um conto que se chamou “Os funerais de Mussolini se ele tivesse vencido a guerra”.

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Em Amarcord Fellini e Guerra mostraram a Itália sob o regime de Mussolini

 

Pergunta: Como era essa história?

Guerra: Bene...o Duce havia falecido. Não era possível chegar até Roma. As autoestradas estavam entupidas. Por todos os lados havia caravanas de cavalos, camelos…resultados das conquistas na Etiópia. Nos vilarejos os padres comentavam coisas como “um dia, em um desfile, pude perceber que ele me olhava, brevemente..em meus olhos!”. E sobre a Itália sobrevoava um retrato de Mussolini, feito de néon…e de vez em quando uma orelha apagava-se, às vezes a outra. Em “E la nave va” queria fazer uma cena forte…fazer um funeral em um transatlântico! Imaginei os funerais de Edmea Tetua, uma diva da ópera. Uma evidente analogia a Maria Callas.

Pergunta: Fellini ainda é um incompreendido?

Guerra: Se até hoje a “Divina Comédia” ainda não é compreendida…

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Fotograma da cena do funeral de “E la nave va”, de Fellini, com roteiro de Tonino Guerra.

O link do Youtube dessa cena, aqui.

E depois dessa cena, na sequência, quando tudo termina em uma operística correria, no link do Youtube, aqui.

O personagem de Tetua é baseado em parte em Maria Callas. A cena do funeral de “E la nave va” inclui “Oh patria mia” (a canção que toca enquanto as cinzas são espalhadas com o vento), da ópera “Aida”, de Giuseppe Verdi, uma das preferidas da famosa soprano. Neste link do Youtube, ela canta essa ária. Aqui.

E para encerrar, voltando a Buenos Aires, Maria Callas canta “Turandot”, de Giacomo Puccini, no Teatro Colón de Buenos Aires, em 1949. Aqui.

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Cartaz de “Blow up”, que reuniu as mentes de Antonioni com a de Guerra. Tudo isso graças a um conto de Julio Cortázar. E de quebra, Vanessa Redgrave, que nesse filme (como em todos), está fantástica!

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REUNIÃO – Aproveitei as férias para recompor as energias (cobrir a Argentina e o resto do Cone Sul não é bolinho!). No final desse interlúdio recreativo fui à Londrina, norte do Paraná, onde me criei. Ali, minha amiga Edra de Moraes organizou uma reunião dos amigos que entraram em 1984 no curso de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Os amigos vieram de diversas regiões do Brasil para esse emocionante conclave! Foi pouco tempo para colocar tanta conversa em dia (pessoa alguma desta peculiar e adorável turma poderia ser definida como “lacônica”…)

Para terminar, as fotos desse supimpa grupo:

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Carla Sehn, Ruy Schmit (oftamologista ‘adotado’ pelos jornalistas), vosso blogueiro, Edra de Moraes, Carina Paccola, Marcos Beato,  Priscila Rocha e Vânia Novelli.

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Claudia Romariz e Carina Paccola

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Aurelio Albano, Diez Loyolla, e Marcos Beato

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Luis Garbelini, Vânia Novelli e Rogério Fischer

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Priscila Rainho, Silvana Leão, Denise Gentil e Edra de Moraes

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Vosso blogueiro com Marcos Losnak (que ilustrou minha primeira matéria, como freelancer) e Sônia Weil, um deleite de professora, além de madrinha de nossa turma

PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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