Guillermo Moreno, o ex-‘Highlander’ dos Kirchners (ou, o homem da maquiagem de índices)
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Guillermo Moreno, o ex-‘Highlander’ dos Kirchners (ou, o homem da maquiagem de índices)

arielpalacios

20 de novembro de 2013 | 13h11

O ex-secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, ilustrado como um lutador de telecatch, com relevante saco escrotal ad hoc. Ilustração do cartunista El Niño Rodríguez (site do desenhista: http://www.elninorodriguez.com/). O ex-secretário fazia alarde de genitália de colossais dimensões em reuniões com empresários. Moreno foi removido do cargo nesta terça-feira após perder a batalha contra o novo ministro da Economia.

Os amigos de Guillermo Moreno o chamam “Napia”, gíria argentina de origem italiana para nariz, devido a seu aquilino perfil. O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) o chamava de “Lassie”, em irônica alusão à simpática e doce cadela collie imortalizada no cinema junto com Elizabeth Taylor. Desde 2009 ele também passou a ser chamado de “Highlander”, em alusão à sequência de filmes dos anos 80 cujo protagonista era um homem imortal – Connor Mc Leod – capaz de sobreviver a todas as circunstâncias…neste caso, às diversas reformas ministeriais que Cristina Kirchner implementou. Tal como Mc Leod, Moreno, Secretário de Comércio Interior desde 2005, havia saído incólume de todas as trocas ministeriais, apesar dos pedidos dos empresários, sindicatos, partidos da oposição e intelectuais que pediam sua cabeça.

E tal como o escocês, cada vez que algum rival era decapitado, ele adquiria mais poder.

Moreno – a mais polêmica das figuras do gabinete Kirchner – sobreviveu a vários ministros da Economia que tentaram limitar a influência do poderoso secretário, supostamente seu subordinado hierárquico. Um dos ministros que foi deletado sem piedade era o jovem Martín Losteau, que protagonizou com “El Napia” uma discussão antológica na Praça de Mayo, enquanto a presidente Cristina discursava a poucos metros.

Na ocasião Moreno fez um gesto com a mão, equivalente a “você está morto”, a clássica passada da mão rígida pelo pescoço, na altura da jugular.

Dois integrantes do gabinete de Cristina Kirchner protagonizam animado debate com generosa distribuição de impropérios e entusiasta gestualidade na frente de 18 milhões de espectadores, durante comício da presidente na histórica Praça de Mayo. Losteau, à esquerda; Moreno, à direita. Moreno faz o sinal de “corte de pescoço”:


Os Kirchners resistiam à ideia de removê-lo, já que Moreno era o homem que fazia o “trabalho sujo” do casal. Moreno era o responsável pela manipulação de índices da inflação, pobreza, desemprego e o PIB. Estas estatísticas são elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob férrea intervenção do governo desde janeiro de 2007.

Além disso, o secretário não hesitava em mobilizar um grupo de caratecas para dissolver manifestações dos trabalhadores do Indec que protestavam contra a manipulação dos índices.

O secretário também foi o responsável por boa parte das barreiras protecionistas, muitas das quais impediram a entrada de produtos Made in Brazil nos últimos anos. Moreno evitava ordens por escrito. Ele preferia ligar aos importadores e ameaçá-los com um amplo leque, desde blitze da Receita Federal ao impedimento da entrada de insumos cruciais para a empresa em questão.

Moreno (segundo relatos de empresários e sua biografia não-autorizada “El buen salvaje”) iniciava encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa.

Ele também telefonava aos executivos às 6:00 da manhã – nos fins de semana, inclusive – para exigir, em frases entremeadas de sonoros palavrões, que congelassem seus preços.

Segundo Kirchner, “Moreno é mais bonzinho que Lassie” (em declarações ao jornal ‘Clarín’ em 2006. Depois, até acrescentou: “até teria que morder um pouquinho mais”) . Fotograma de Lassie, filme de 1943. Ao lado da collie mais famosa do sistema solar, sua companheira humana Elizabeth ‘Liz’ Rosemond Taylor.

Este comportamento iniciou na época que era secretário de Comunicações. Na época, quando Moreno era quase um desconhecido, um executivo de uma empresa japonesa me comentou o que havia lhe ocorrido. Anos depois, essa atitude tornou-se costumeira.

Dono de um frondoso bigode com as pontas curvas para baixo que fariam inveja ao revolucionário mexicano Emiliano Zapata, o controvertido secretário também iniciava as reuniões com executivos com afirmações sobre sua genitália, a qual, indica, é de dimensões superiores às dos presentes.

A oposição considera Moreno o símbolo do lado mais corrupto e autoritário do kirchnerismo e exigia sua retirada. Vários setores do kirchnerismo também consideravam que Moreno trazia mais problemas do que soluções ao governo. Por isso, pediam ao casal Kirchner que“desmorenizassem” o governo.

Diversos sindicatos estavam em confronto com Moreno, pois afirmavam que a manipulação do índice de inflação prejudica os trabalhadores, já que o empresariado não é obrigado a reajustar o salário de acordo com a inflação real. Só, eventualmente, com a inflação oficial dos Kirchners.

Mas o poder de Moreno começou a encolher nos últimos tempos. O secretário fracassou nas duas tentativas de congelamento de preços ao longo deste ano e protagonizou um fiasco com o lançamento sempre adiado de um cartão de crédito estatal para compras nos supermercados a preços mais baixos. Além disso, o desacreditado índice de inflação do Indec tornou-se alvo de críticas generalizadas dentro da Argentina e no resto do planeta. O FMI colocou como condição para normalizar as relações com Buenos Aires a criação de um índice verossímil, fato que esvaziaria o poder de Moreno.

O modus operandi do secretário estava esgotado. Finalmente, segundo as informações oficiais, Moreno pediu a renúncia. Extraoficialmente as informações indicam que Cristina o chamou para explicar-lhe que agradecia os valiosos esforços para ajudar seu governo mas que sua permanência complicava a Casa Rosada.

Moreno, desde 2010, viu o crescimento de um poderoso rival: o vice-ministro da Economia, o jovem e “galã” Axel Kicillof, um acadêmico de formação marxista com discurso neokeynesiano com touchs peronistas.

Os dois lutavam pela atenção da presidente Cristina. Moreno, peronista tradicional, pregava o intervencionismo estatal, preservando o capital (se bem que dando uns sopapos nos empresários, para amolecê-los). Kicillof é diretamente estatista.

Moreno ironizava sobre o jovem, apelidando-o de “El Soviético”, e ressaltava que não tinha experiência.

Mas na segunda-feira o governo anunciou que “El Soviético” seria o novo ministro. A luta entre os dois pelo disputado espaço vital no governo Kirchner estava definida. Moreno foi excluído. A modo de prêmio de consolação – e para estar longe dos tribunais portenhos – Cristina o designou adido econômico na Embaixada da Argentina em Roma.

TERMINOLOGIA MORENÍSTICA

NAPIA: Nariz

PORONGA: Palavra da gíria argentina utilizada para referir-se ao membro viril

COJER: Prática da cópula. Moreno usava o verbo com freqüência, para indicar que protagonizaria uma espécie de cópula administrativa com os empresários que resistissem a seus pedidos.

PIBE: Garoto. Forma como Moreno se refere aos empresários com os quais se reúne. “Che, pibe, vas a tener que bajar los precios” (Ei, garoto, você vai ter que reduzir os preços) 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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