Há 25 anos Perón (seu cadáver) aparecia sem suas famosas mãos (e de bônus track, um bolero ad hoc de López Vidal)
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Há 25 anos Perón (seu cadáver) aparecia sem suas famosas mãos (e de bônus track, um bolero ad hoc de López Vidal)

arielpalacios

02 de julho de 2012 | 17h29

 

 J.D.Perón faz o gesto famoso com suas mãos para o alto. Charge de El Niño Rodríguez. Seu site: http://www.elninorodriguez.com/

Uma manhã de julho de 1987 o zelador do Cemitério de Chacarita percebeu que o pequeno e modesto mausoléu onde estava enterrado o mais polêmico e poderoso político da História argentina do século XX – o general e presidente Juan Domingo Perón – havia sido violado. Lá dentro, o corpo do fundador do Peronismo jazia dentro de seu uniforme de gala. Mas, suas mãos – as mais famosas extremidades da História do país, que haviam transformado-se em um símbolo com as quais saudava o povo desde o emblemático balcão da Casa Rosada – não estavam ali. Elas haviam sido decepadas e roubadas. Até hoje seu paradeiro é desconhecido. Também ignora-se o autor da profanação. Misteriosamente, nos últimos 25 anos, jamais ocorreram reivindicações do atentado.

As especulações sobre o motivo do roubo das mãos foram amplas. Algumas versões sustentam que foi um grupo de fanáticos ocultistas pertencentes a alguma misteriosa logia integrada por políticos peronistas que precisavam um pedaço do cadáver de Perón para realizar um críptico ritual.

Outras especulações indicam que as mãos eram necessárias para abrir – com suas impressões digitais – uma caixa forte com a lendária fortuna nunca encontrada de Perón, supostamente guardada na Suíça.

De quebra, não faltaram versões que sustentavam que tratava-se de uma vendetta de opositores históricos de Perón pela profanação de mortos rivais realizada nos anos 70 pelos simpatizantes do defunto general.

A profanação do túmulo de Perón é apenas um dos capítulos da intrincada e sui generis relação dos argentinos com os mortos.

“A necromania é coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”. A frase, do falecido escritor Tomás Eloy Martínez, ilustra uma das obsessões que tomam conta dos habitantes deste país nos últimos 200 anos. A necromania – (a obsessão pelos cadáveres) – que segundo Eloy Martínez é uma “doença costumeira” de seus compatriotas, não somente está presente na cultura e no cotidiano, mas também paira de forma ostensiva sobre a política nativa.

Os especialistas afirmam que no país predomina a “necromania” e a “necrolatria” (a adoração dos corpos dos mortos). De forma geral não ocorreram grandes casos de “necrofilia” (refere-se à relações sexuais com mortos).

Para um presidente, líder sindical ou governador, o corpo de um morto pode ser um capital político de incomparável peso na Argentina.

Perón saúda seus militantes, logo após voltar à Argentina em 1973.

Dezenove anos depois, o corpo de Perón foi objeto de novas turbulências. No final de 2006, um grupo de políticos peronistas (mas com base de poder da província de Buenos Aires) decidiram levar o corpo de Perón a um novo mausoléu, de grandes dimensões.

O lugar: a chácara de San Vicente, na Grande Buenos Aires.

O argumento: uma figura da magnitude de Perón merecia um mausoléu comme il faut.

Além disso, afirmavam que o desejo do defunto caudilho era o de ser enterrado na província de Buenos Aires, e não na cidade de Buenos Aires.

Nas semanas anteriores ao segundo funeral de Perón começaram os problemas. Uma ex-cantora de ópera, Martha Holgado, que reivindicava ser filha de Perón, queria retirar uma mostra do corpo para realizar um exame de ADN. Para complicar, também havia disputas entre os diferentes sub-grupos peronistas que queriam carregar o caixão de Perón.

Desta forma, no dia 17 de outubro – a data peronista par excellence – o féretro foi levado da Chacarita à sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT), onde realizou-se uma cerimônia de homenagem. Dezenas de milhares de velhos militantes peronistas acotovelaram-se ao redor da CGT para – pela segunda vez na História – dar adeus a Perón.

Mas, sete horas depois de um início carregado de emoção, o funeral encerrava-se mergulhado no fracasso. Na chácara de San Vicente, ao chegar o féretro, grupos rivais – que pretendiam carregar o caixão – começaram um desenfreado tiroteio, enquanto a histórica banda do Corpo de Granaderos tentava – sem sucesso – apaziguar os ânimos tocando o Hino Nacional.

O cenário era delirante. Enquanto parte da multidão corria apavorada e outro setor dedicava-se a espancar os rivais, um padre dava a bênção aos presentes. Às pressas, o caixão de Perón foi colocado dentro do mausoléu. O histórico sabre e seu quepe de general desapareceram no meio da confusão.

Perón – o morto mais influente da política argentina – 32 anos após seu falecimento e primeiro funeral, continuava causando intensa polêmica e violência entre seus seguidores.

Corpo de Perón após o misterioso atentado. Governos peronistas posteriores (Menem, Duhalde e Kirchners) não quiseram aprofundar as investigações sobre o caso.

CRONOLOGIA DE PERÓN COMO CADÁVER

– Juan Domingo Perón morre aos 78 anos no dia 1 de julho de 1974

– Após três dias de velório no Congresso Nacional, é levado à residência oficial de Olivos, e colocado em um salão, ao lado do corpo de Eva Duarte de Perón. Sua esposa, que era sua vice e que assume como presidente, María Estela Martínez de Perón (mais conhecida como Isabelita) decide deixar os corpos ali enquanto planeja a construção de um monumento megalomaníaco, três vezes maior que a estátua da Liberdade, em pleno bairro de Palermo.

– Março de 1976: um golpe militar derruba Isabelita e começa a pensar o que fazer com os dois corpos. No mesmo ano o corpo de Evita é devolvido à família Duarte, e colocado no cemitério da Recoleta. O corpo de Perón é colocado secretamente, no dia 13 de janeiro de 1977, no modesto mausoléu de seu avô, no cemitério de La Chacarita.

– Em 1987 o túmulo de Perón é violado. Suas mãos, cortadas, nunca mais apareceram. Nenhum grupo atribuiu-se esse atentado.

– Em 2002 o então presidente Duhalde e outros líderes peronistas planejam a construção do Mausoléu em San Vicente.

– Em 2006 Perón teve seu segundo – e tumultuado – funeral. De lá pra cá ainda está lá enterrado. Por enquanto…

NECROMANIA MARCA POLÍTICA ARGENTINA

A “necromania” (obsessão por cadáveres, enquanto que “necrofilia” refere-se à relações sexuais com mortos) perdura na política argentina há quase 200 anos. Sabendo dessa obsessão no eleitorado, diversos presidentes usaram os corpos dos mortos ilustres para fazer propaganda política.

Esse foi o caso de Carlos Menem, que em 1990 causou polêmica ao trazer à Argentina o corpo do caudilho Juan Manuel de Rosas (tirano para uns; grande nacionalista para outros), enterrado na Inglaterra. Mesmo morto 113 anos antes, Rosas causou ásperos debates e pancadarias. Menem usou Rosas como troféu político.

O cadáver embalsamado de Eva Perón, falecida em 1952, esteve na sede da CGT até que em 1955 foi seqüestrado pelos militares que derrubaram o governo de seu viúvo. Os militares urinaram em cima de Evita e violaram o cadáver. O corpo – que era alvo de adoração pelo operariado – foi levado clandestinamente à Itália. Só foi devolvido a Perón em 1971, após um acordo político. A rocambolesca e trágica história gerou o livro “Santa Evita”, de Tomás Eloy Martínez. Segundo ele, a necromania é “coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”.

DATAS NECRÔMANAS

O historiador Daniel Balmaceda afirma que grande parte das datas comemorativas argentinas estão vinculadas às mortes de pessoas vinculadas com os fatos. “Esse é um costume iniciado no final do século dezenove, época na qual as datas nacionais começaram a ser marcadas pelos dias fúnebres. Por exemplo, o ex-presidente Domingo Sarmiento (que implantou o ensino público gratuito) morreu em um dia 11 de setembro. Essa data virou dia do professor. E, o dia em que seu corpo chegou em Buenos Aires para o funeral de Estado, um dia 21 de setembro, transformou-se no dia do estudante! No caso do general Manuel Belgrano, que criou a bandeira argentina, o dia de sua morte, 20 de junho, foi usado para o dia da bandeira”, ilustra o historiador.
Segundo Balmaceda, “a morte de um político importante, na Argentina é considerado o momento em que ele ‘passa à imortalidade’. Isto é, o dia que entrou na glória. Essa pessoa deixa de ser como nós… passa a ser uma espécie de ‘imortal’!”. Desta forma, ao contrário de outros países, nos quais o dia do nascimento de uma pessoa é o foco da celebração, na Argentina o fato está conectado à morte. Outro exemplo: Evita é lembrada no dia de sua morte…e não do nascimento.

A terceira autópsia de Bolívar: cenas da exumação feita com toda pompa em 2010 por ordens de H.R.Chávez F.

BOLIVARIANO CADÁVER – Em 2010, o presidente da Venezuela, Hugo R. Chávez F., exumou o cadáver do herói nacional, Simon Bolívar, para fazer uma autópsia e assim poder verificar se o principal protagonista da independência venezuelana havia sido assassinado com arsênico, tal como um punhado de historiadores suspeitavam. Segundo Chávez, a “oligarquia” havia assassinado Bolívar.

A exumação foi transmitida ao vivo, pela TV, durante 19 horas. Na ocasião, Chávez até disse que sentia as “chamas” do esqueleto “glorioso” de Bolívar.

No mesmo fim de semana da exumação de Bolívar, operação à qual estavam dedicados full time 50 cientistas, a cidade de Caracas registrou 40 assassinatos. Mais de 90% desses crimes ficaram impunes, já que a Justiça venezuelana comum não tinha o dinheiro nem as pessoas para fazer os exames feitos no corpo de Bolívar, falecido em 1830.

Simon Bolívar já havia passado por outras duas autópsias: em 1830 e 1842.

Em 2011, Chávez admitiu que os resultados da autópsia não propiciavam indícios de assassinato. Mas, apesar disso, afirmou categórico: “sei que o mataram!”

E já que estamos em ritmo funéreo, o bolero “Esperame en el cielo” (Me espera no céu), do portorriquenho Francisco López Vidal (1908-994), com Antonio Machín:

E a letra:

Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero;
espérame que pronto yo me iré
allí donde tu estés.
Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero;
espérame en el cielo corazón
para empezar de nuevo.
Nuestro amor es tan grande
y tan grande, que nunca termina
y la vida es tan corta
y no basta para nuestro idilio
Por eso yo te pido, por favor,
me esperes en el cielo
y ahí, entre mil nubes de algodón
haremos nuestro nido.
Espérame en el cielo corazón,
si es que te vas primero
espérame en el cielo corazón,
para empezar de nuevo.
Nuestro amor es tan grande
y tan grande, que nunca termina
y la vida es tan corta
y no basta para nuestro idilio.
Por eso yo te pido, por favor,
me esperes en el cielo
y ahí, entre mil nubes de algodón
haremos nuestro nido.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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