Há 30 anos – entre um scotch e outro – o ditador Galtieri iniciava a Guerra das Malvinas (enquanto isso, oficiais argentinos torturavam seus próprios soldados)
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Há 30 anos – entre um scotch e outro – o ditador Galtieri iniciava a Guerra das Malvinas (enquanto isso, oficiais argentinos torturavam seus próprios soldados)

arielpalacios

01 de abril de 2012 | 15h35

30 anos da Guerra das Malvinas

General que imitava Mussolini  era mostrado nas caricaturas com um eterno copo de whiskey na mão. Na foto, o ditador é ovacionado pela multidão, que festeja o desembarque das tropas argentinas na noite do 1 de abril de 1982 (embora a historiografia oficial só considere o dia 2 de abril, quando as tropas tomaram o controle total das ilhas Malvinas).

Sósia do ator americano George C.Scott no filme “Patton”, imitador dos gestos histriônicos do ditador italiano Benito Mussolini e consumidor diário de vastas quantidades de scotch, o ex–ditador e general Leopoldo Fortunato Galtieri iniciava há 30 anos a Guerra das Malvinas, conflito que teria 74 dias de duração e seria o primeiro conflito bélico protagonizado pela Argentina desde a Guerra do Paraguai (1865-70).

Galtieri, como diversos ditadores latino-americanos, estudou na Escola das Américas, no Panamá. Logo depois do golpe de 1976, ocupou o comando do Segundo Exército, cuja base era a cidade de Rosario. Ali, implantou um regime de terror, instalando vários campos de detenção e tortura.

Ambicioso, em 1981 deu um golpe dentro do golpe, e derrubou o ditador e general Roberto Viola. Egocêntrico, desfrutava as comparações físicas que eram feitas sobre ele em relação ao herói da Segunda Guerra Mundial, o general americano George S. Patton (1885-1945)

Galtieri não perdia uma ocasião para aparecer diante da imprensa com seus melhores uniformes, com botas de cano alto e luvas de couro. Sempre que podia, realizar longas manobras militares.

Mas, a administração do país não era fácil. A política econômica do regime ia de mal a pior, e pela primeira vez em anos, os sindicatos começaram uma série de protestos. No dia 30 de março, 40 mil pessoas marcharam em direção à Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, onde realizaram um violento protesto para pedir o fim da Ditadura.

Galtieri percebeu que podia cair, e ativou o plano de invasão das ilhas Malvinas, operação que garantiria o apoio fanático da população argentina. Um dia depois da invasão, no dia 3 de abril, o general, enquanto acenava do balcão do palácio presidencial, era saudado freneticamente por mais de 100 mil argentinos, muitos dos quais haviam protestado contra ele menos de uma semana antes.

Multidão foi à Praça de Mayo dar hurras a Galtieri na primeira semana de abril de 1982.

Galtieri considerava que a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher não passava de uma dona de casa com diversos problemas internos em seu país, que não se animaria a uma aventura militar a milhares de quilômetros das principais bases militares.

Mas o general havia se enganado. A “dama de ferro” ordenou o rápido envio de tropas às Malvinas, e pouco tempo depois, já estavam desembarcando no arquipélago.

Galtieri havia se preparado mal para a guerra. Para poupar a casta militar, havia somente enviado recrutas sem treinamento para as Malvinas. Além disso, considerou que os Estados Unidos deixaria de lado seu tradicional aliado na OTAN para ficar de seu lado, já que ele era “o principal combatente contra o comunismo na América do Sul”.

Galtieri se enganou. Os EUA ficaram do lado britânico. A Argentina ia perdendo a guerra, mas o general, bêbado, desde seu balcão na Casa Rosada, com voz rouca afirmava que estava ganhando. O ditador manteve esse discurso até um dia antes da assinatura da rendição, no dia 14 de junho. A mídia argentina, censurada, só transmitia noticias sobre vitórias das forças de Galtieri.

Os argentinos, que o ditador havia entusiasmado com a reconquista das Malvinas, ficaram furiosos com o general. Milhares de pessoas, que dias antes haviam-lhe gritado “vivas”, agora estavam protestando contra o ditador, que passou a ser caricaturizado constantemente com um copo de whisky na mão.

“Galtieri, borracho, mataste a los muchachos” (Galtieri, seu bêbado, você matou os rapazes) foi o grito mais ouvido durante dias, nos quais os argentinos enfrentaram-se contra a polícia na Praça de Mayo. O beberrão general durou poucos dias. No dia 17, as forças armadas retiraram seu apoio, e colocaram em seu lugar o general Reynaldo Bignone, que começou imediatamente uma abertura política, que levou às eleições presidenciais de dezembro de 1983.

Caricatura de Hermenegildo Sábat que mostra os ditadores do último regime militar. Galtieri, com um copo de whiskey na mão direita e um Oscar na esquerda, é o terceiro da esquerda para a direita.

SEM ARREPENDIMENTO – Com a volta da democracia, Galtieri foi acusado pela Justiça em 1985 de ter cometido pelo menos onze seqüestros, três torturas, oito situações de escravidão, dois seqüestros de menores e 242 casos de falsidade ideológica. Surpreendentemente, Galtieri conseguiu ser absolvido.

No entanto, outro processo, que o indicava como o responsável pela má condução da guerra das Malvinas, conseguiu que a Justiça determinasse uma condenção de doze anos em uma prisão militar.

Mas no final de 1989, o então presidente Carlos Menem (1989-99) assinou sua anistia. Galtieri mudou-se para o bairro de Villa Devoto, próximo à casa do astro de futebol Diego Armando Maradona. Galtieri continuou usufruindo de todas as comemorações anuais do Exército, aos quais comparecia, embora sempre permanecendo de forma discreta, no fundo dos salões.

A meados dos anos 90, exigiu a aposentadoria de ex–presidente. Mas, a Justiça declinou seu pedido, argumentando que o general havia tomado o cargo de forma não-constitucional. Na mesma época, declarou à revista “Gente” que não se arrependia pela invasão às Malvinas.

Mas em 1997, o juiz espanhol Baltasar Garzón ordenou sua captura internacional por “genocídio” e “terrorismo”. A partir desse momento, Galtieri não pode mais sair do país, sob o risco de ser detido pela Interpol. No ano passado, foi a vez da Justiça argentina, que o processou pelo seqüestro e desaparecimento de 18 intengrantes do grupo de esquerda “Montoneros”. Galtieri foi detido, mas, por causa de ser septuagenário, teve direito à prisão domiciliar.

Galtieri era habitué de manobras militares. Esta foi em 1981, na vizinhança da Cordilheira dos Andes.

O PÂNCREAS DO FINAL – Galtieri faleceu aos 76 anos no domingo 12 de janeiro de 2003, às 4:15 da madrugada, por causa de um devastador câncer de pâncreas. Ele estava em prisão domiciliar desde julho de 2002, acusado de seqüestro de crianças durante a última Ditadura Militar (1976-83) e de tortura de um grupo de militantes do grupo cristão nacionalista “Montoneros”.

No dia da morte do ex-ditador, Tati Almeida, uma das líderes da organização de defesa dos Direitos Humanos, as “Mães da Praça de Mayo – Linha Fundadora”, afirmou que “Galtieri encontrará Justiça seja lá onde for. Mas se bem acredito na Justiça Divina, continuaremos lutando para que pessoas como Galtieri sejam julgadas ainda na Terra”.

Capa do jornal Página 12 no dia seguinte à morte de Galtieri. O periódico faz alusão na manchete ao approach do ex-ditador ao whiskey.

O cantor e guitarrista Ricky Espinosa fez uma canção dedicada à morte de Galtieri, que tem o título de “Nazista morto, punk feliz” (Nazi muerto, punk contento).

 

OFICIAIS ARGENTINOS TORTURAVAM SEUS PRÓPRIOS SOLDADOS

“No amanhecer do 2 de abril de 1982 fomos informados no quartel de minha cidade, Mercedes, que a Argentina havia recuperado as Malvinas. Poucas semanas depois eu e todo o Regimento de Infantaria Número 12 estávamos instalados em Darwin, a 70 quilômetros de Puerto Argentino”. Desta forma, Oscar Núñez explica ao Estado como foi sua transferência desde sua província natal de Corrientes, no nordeste da Argentina, para 3.200 quilômetros ao sul, nas ilhas Malvinas.

“Uma coisa é estar em um campo de batalha e aguentar fome e frio. Mas, outra coisa é que os oficiais nos impeçam de alimentar”, explica. “Decidimos buscar alimento, pois um soldado já havia morrido de fome, o Secundino Riquelme”, diz com tristeza na voz. “Se não conseguíssemos comida, teríamos o mesmo destino dele. Mas, os oficiais, ao contrário da gente, sempre tinham comida”.

“No dia 24 de maio, eu e meus colegas havíamos matado uma ovelha que estava pastando por aí, para comê-la. Por isso, o subtenente Gustavo Malacalza ordenou que fôssemos ‘estacados’ (amarrados com estacas no chão, com os braços e pernas abertos). Era uma loucura…Ficamos oito hora em cima da terra congelada. Eu e outros dois colegas, um ao lado do outro”.

Núñez e os outros dois rapazes foram salvos pelo sargento Guillermo Inzaurralde, que os desamarrou quando a noite começava a cair. “Não conseguia caminhar…minhas articulações estavam todas congeladas”.

Núñez afirma que, quando estava nas Malvinas, acreditava que as torturas haviam sido aplicadas somente a seu grupo. “Mas depois da guerra ficamos sabendo que isso havia sido costumeiro em vários pontos das ilhas. A coisa que dói, na alma, é que a gente não espera uma punhalada do próprio compatriota. A gente espera o morteiro, o tiro de um inimigo…mas não de outro argentino!”, diz.

Cinco dias depois de ter sido estaqueado, Núñez estava em plena batalha de Goose Green, no istmo de Darwin. Foi a segunda batalha terrestre nas ilhas. “Malacalza foi embora na hora em que os combates começaram. Ficamos ali sozinhos, enfrentando os britânicos”, explica. “Estive em combate corpo a corpo. Meu regimento foi o segundo em número de baixas, um total de 35 mortos.

Quarenta ex-integrantes do regimento reúnem-se regularmente. “Nos respaldamos mutuamente. Isso ajuda mitigar o impacto psicológico. Alguns conseguem superar. Outros não. Muitos caíram na bebida, drogas e divórcios”.

“Fomos com muito orgulho às Malvinas e com honra e colocamos o peito. Mas a Argentina é um país que cultua o sucesso. Para os militares éramos civis. E para os civis, éramos militares…”.

Trinta anos depois da guerra, Núñez tem a esperança de que as Malvinas “voltarão para a Argentina”: “o mundo está mudando. Portanto, alguma hora os ingleses vão sair dali. Malvinas será como Hong Kong. Um dia voltará a seus donos verdadeiros”.

O então recruta Oscar Núñez, no trem que o levaria de Corrientes para o sul da Argentina. Dias depois estaria nas Malvinas. Ele sobreviveu à fome e às torturas dos próprios oficiais.

CORTE SUPREMA ANALISA TORTURAS A SOLDADOS

 A Comissão Provincial pela Memória (COM) solicitou nesta segunda-feira à Corte Suprema de Justiça que considere que os abusos cometidos pelos militares contra os então combatentes nas Malvinas como “crimes contra a Humanidade”. Desta forma, os crimes não prescreveriam jamais. Segundo os ex-combatentes, durante a guerra os militares aplicaram a mesma metodologia de terrorismo de Estado que usaram no país nos anos prévios. “Os mesmos oficiais que reprimiram, assassinaram pessoas na Argentina eram aqueles que comandaram a guerra nas Malvinas”, sustenta Hugo Cânon, co-presidente da CPM.

O caso conta com o respaldo de Adolfo Pérez Esquivel, o argentino que venceu o Prêmio Nobel de 1980.

Durante a apresentação do pedido, o ex-combatente Pablo De Benedetti relatou que os oficiais o obrigavam a engatinhar sobre um campo minado. Os soldados também foram alvo de simulacros de fuzilamentos.

Silvio Katz e seus colegas de trincheira nas Malvinas, nas proximidades da capital das ilhas. Katz é o segundo da esquerda para a direita.

“Faltavam 10 dias para terminar o serviço militar e voltar para casa. Repentinamente, um oficial reuniu a tropa e anunciou que as Malvinas eram nossas novamente. A meu redor a maioria dos soldados pulava de alegria. Parecia uma festa techno dessas que fazem hoje em dia. O pessoal celebrava como se tivéssemos vencido uma final da Copa do Mundo contra o Brasil!”. Com estas palavras, o veterano de guerra Silvio Katz me contou o clima de frenesi que tomou conta de seus colegas no quartel na manhã do 2 de abril de 1982, data em que as tropas do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri desembarcaram e tomaram o controle das ilhas Malvinas, arquipélago dominado pela Argentina durante treze anos a partir de 1820 e perdidas para a Grã-Bretanha em 1833.

Katz, que já havia sofrido torturas dos oficiais argentinos durante o serviço militar no continente, padeceu um inferno durante a guerra das ilhas. As forças armadas argentinas eram famosas por seu tradicional antissemitismo.

O caso de Katz é um dos principais do recém-lançado livro “Rabinos nas Malvinas”, investigação feita pelo jornalista Hernán Dobry sobre as torturas que os oficiais argentinos aplicaram contra soldados judeus compatriotas durante a guerra. Dobry me disse que diversos assuntos relativos ao conflito de 1982 “são empurrados para debaixo do tapete. Os combatentes argentinos que eram judeus foram alvo de uma sanha intensa por parte dos oficiais e suboficiais, que os submetiam a castigos humilhantes”.

Capa do livro de Hernán Dobry. A obra relata o terror aplicado aos recrutas judeus e o tradicional antissemitismo das forças armadas argentinas.

“Aos gritos, os oficiais nos acusavam de ter assassinado Cristo. Nos escolhiam sempre para limpar as latrinas. Ser judeu era um fator para que os castigos fossem duplos. Os oficiais diziam que meu nome e sobrenome era ‘Judeu de Merda’ ”, relata Katz, enquanto toma um café em uma confeitaria no bairro portenho de Almagro.

Sem alimentos nas trincheiras, Silvio e o soldado Carlos Mialfi fizeram uma vaquinha com a tropa e foram a uma venda em um vilarejo comprar comida. Ao voltar às barracas, os oficiais confiscaram os alimentos. O subtenente Eduardo Ardoino ordenou que Silvio e Carlos fossem estacados em cima da terra congelada, só de cuecas. “Os militares colocaram na boca de Carlos uma granada sem pino. Se ele abrisse a boca, eu e ele explodiríamos”, diz.

“Não sei quanto tempo estive ali…não sei se foram horas ou minutos. Para mim, era uma eternidade”, diz Silvio, com os olhos embaçados. “Depois, nos desamarraram e disseram que nos iam dar comida. Pegaram os alimentos que havíamos comprado e com os quais eles haviam feito um ensopado de grão-de-bico. Ardoino jogou a comida dentro da latrina e me obrigou a comer tudo. Comida e fezes. Seu revólver estava engatilhado contra minha cabeça”.

Silvio e seus amigos continuavam com fome. Nas trincheiras, faziam disputas sobre o que comeriam se voltassem vivos para casa. “Cada um citava as coisas maravilhosas que suas respectivas mães preparavam. Só pensava que ao voltar à Buenos Aires comeria muita pizza!”.

No dia 14 de junho os ingleses rodeavam Puerto Argentino. “Começamos uma retirada enquanto nos defendíamos. Não sei se disparando matei alguém. Espero que não. Depois da rendição, os ingleses curaram meus ferimentos e me alimentaram. Havia desembarcado nas ilhas com mais de 75 quilos e tinha menos de 45. Minha mãe não me reconheceu quando foi me ver no hospital militar”.

Três meses depois do fim da guerra, Silvio estava em um ônibus que passava pelo bairro do Once. “Pela janela vejo que Ardoíno estava na calçada. Na hora, urinei em minhas calças. Morria de vergonha que alguém visse. Senti uma sensação de impotência que jamais esquecerei. Senti que aqueles militares continuavam dominando a gente, na vida cotidiana”. No entanto, há poucos anos – depois de um longo período de terapia com psicólogos – venceu seus temores e decidiu abrir na Justiça um processo por torturas contra Ardoíno.

Silvio – que participa como voluntário de um centro de ex-combatentes e dá conferências nas escolas sobre sua experiência – afirma que teve “muito orgulho em defender a pátria” e considera que as Malvinas são argentinas. Ele esteve nas ilhas em 2001. Ali, com sua então namorada, concebeu seu filho Agustín. “Malvinas acabou com minha juventude. Mas me deu este filho”, diz, abraçando o menino.

Trinta anos depois dos horrores da guerra e das torturas infligidas por seus oficiais, Silvio Katz e seus dois filhos – Fabrício e Agustín – durante a entrevista, na confeitaria Las Violetas, no bairro de Almagro.

A MODALIDADE PREFERIDA DOS MILITARES: O ‘ESTACAMENTO’

A principal tortura realizada era o “estacamento”, que consistia em cavar uma área de 50 centímetros de profundidade e ali amarrar um soldado sem roupa, deitado sobre a neve ou o solo gelado (as temperaturas podiam chegar até 27 graus Celsius negativos), no meio do campo de batalha (ou em suas proximidades). O soldado era amarrado com pernas e braços abertos e abandonado ali durante 24 horas. O castigo podia ser aplicado por motivos absurdos, como, por exemplo, a perda de um capacete.

Outra modalidade aplicada pelos oficiais era a de abandonar soldados para que morressem de fome. Existem quatro casos de soldados provenientes da província de Corrientes que morreram de fome pela suspensão do fornecimento de comida ordenada pelos oficiais. No entanto, nas listas do Exército argentino, os soldados que morreram de inanição foram registrados como “baixas em combate”.

Vários ex-combatentes indicaram ao Estado que “o principal inimigo não eram os ingleses, mas sim, os próprios oficiais argentinos”.

Diversos oficiais que cometeram crimes contra seus soldados nas ilhas já haviam cometido graves violações aos Direitos Humanos no continente contra os desaparecidos.

MAIS SUICÍDIOS DO QUE BAIXAS NOS COMBATES EM TERRA

Tal como os soldados americanos que haviam participado da Guerra do Vietnã, os veteranos argentinos das Malvinas, um total de 14 mil homens, voltaram derrotados e ignorados pela população, que não queria ouvir suas dramáticas histórias pessoais, nem tomar conhecimento de suas mutilações físicas. Nos combates terrestres, nas ilhas, morreram 326 soldados. Outros 323 homens estão no fundo do gélido Atlântico Sul, dentro do cruzador General Belgrano, torpedeado pelo submarino atômico Conqueror. Cálculos extraoficiais sustentam que mais de 500 ex-soldados suicidaram-se desde o fim da guerra, especialmente nos anos 80 e 90.

Um relatório oficial sobre os ex-soldados revelou no ano passado que 58% dos homens que estiveram em combate nas ilhas sofriam de depressão. Além disso, três de cada dez reconheceram que tiveram pensamentos suicidas.

Segundo o Centro de ex-combatentes da cidade de Rosário, na província de Santa Fe, 60% dos veteranos não puderam resolver sua situação trabalhista após o conflito.

Além dos problemas individuais de cada ex-soldado, as diversas associações de veteranos são assoladas por rivalidades irreconciliáveis e disparam mútuas acusações de uso político. Enquanto que em 1982 o número oficial de veteranos era de 14.120, em 1999 havia passado para 22.200. O mistério da multiplicação dos veteranos das Malvinas explica-se pelo registro falso de milhares de pessoas que nunca estiveram nas ilhas, mas que interessam-se em receber a pensão que o governo concedeu a partir dos anos 90. Além disso, existem soldados que estavam fazendo o serviço militar no continente e nunca foram enviados às Malvinas. Eles exigem que a presidente Cristina os reconheça como veteranos de guerra, já que consideram que estavam “mobilizados” para o combate.

Revistas argentinas, censuradas, só contavam a ufanista versão oficial dos fatos. As forças argentinas estavam recuando e o governo afirmava “Continuamos vencendo!”

DOAÇÕES PARA SOLDADOS NAS MALVINAS DESAPARECERAM

Milhares de cachecóis tricotados por aposentadas argentinas, chocolates doados por estudantes das escolas primárias e milhões de dólares em joias e anéis de ouro entregues pela população civil abasteceram o Fundo Patriótico criado pelo governo militar durante a Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982. No entanto, o dinheiro obtido apelando ao fervoroso patriotismo argentino nunca chegou a seu destino. Os soldados continuaram passando fome e frio nas trincheiras improvisadas no arquipélago do gélido Atlântico Sul.

O dinheiro arrecadado desapareceu sem deixar pistas. No total, segundo documentos revelados pelo economista Manuel Solanet, na época encarregado das finanças da guerra, o governo militar obteve US$ 54 milhões com as doações.

No dia 15 de junho de 1982, um dia depois da rendição das tropas argentinas, o dinheiro arrecadado foi removido do Fundo Patriótico e enviado às contas bancárias das Forças Armadas e ao governo militar das Ilhas Malvinas (que na prática não existia mais desde a véspera).

As joias e os anéis fundidos foram enviados à Casa da Moeda no próprio dia da rendição, e rapidamente transformados em 73 lingotes de ouro, pesando 141 quilos. Somente um doador, o empresário Renato Vaschetti, conseguiu reaver os três quilos de ouro que havia entregue. Ele recorreu à Justiça alegando que o ouro doado havia tido um “destino incerto”.

A investigações jornalísticas realizadas na última meia década indicaram que a população doou alimentos para a preparação de meio milhão de rações. No entanto, elas nunca chegaram às trincheiras. A explicação fornecida posteriormente era que nem a Marinha e a Força Aérea queriam arriscar-se a realizar o transporte sob a mira das armas britânicas.

As roupas doadas, e principalmente pullovers, gorros e cachecóis tricotados às pressas por milhares de donas de casa, tampouco chegaram às ilhas. O vice-comodoro Juan Carlos Rogani sustentou que eram “elementos sem valor comercial” que foram jogados “no lixo”, já que era caro e perigoso transportá-los até as Malvinas, praticamente cercadas pela Armada britânica. 

Galtieri conversa com seu costumeiro copo na mão

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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