Do papel higiênico ao câncer ‘inoculado’, da face de Chávez no metrô à intervenção bolivariana-celestial-pontifícia: Maduro e seu ano sem seu “Comandante Supremo”
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Do papel higiênico ao câncer ‘inoculado’, da face de Chávez no metrô à intervenção bolivariana-celestial-pontifícia: Maduro e seu ano sem seu “Comandante Supremo”

arielpalacios

04 de março de 2014 | 23h02

Maduro, há um ano sem Chávez: os 365 dias transcorridos geraram um vasto e sui generis material que renderá teses de doutorado de ciência política a granel sobre os intrincados momentos da sociedade e economia venezuelana. E além disso, renderá roteiros cinematográficos e stand-ups.

Há um ano, no dia 5 de março de 2013, Nicolás Maduro anunciava oficialmente a morte do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Chávez havia sido famoso pelos discursos com alusões inesperadas, como suas afirmações de que a vida no planeta Marte havia acabado por causa do capitalismo, ou quando sustentou que as banheiras de hidromassagem na Venezuela eram inimigas do socialismo bolivariano. No entanto, nos 365 dias que transcorreram desde que a formalização da partida do presidente Chávez, Maduro superou seu antecessor e ídolo em matéria de declarações imprevistas.

A seguir, uma pequena antologia das afirmações de Maduro na área teológica-espiritual, conspirações e efemérides:

– CHÁVEZ E O ALÉM

LOBBY BOLIVARIANO-CELESTIAL: Em março, poucos dias após a morte de Chávez, Maduro afirmou que o líder bolivariano, nem bem desembarcou no Céu, havia feito um decisivo lobby celestial para a eleição do papa Francisco, um latino-americano. E, segundo Maduro, lá nas alturas Jesus Cristo disse a seu interlocutor bolivariano “bom, chegou a hora da América do Sul”.

ORNITOLOGIA & ESPIRITISMO: A ornitologia – em um mix inédito com espiritismo – entrou pela primeira vez na política mundial quando Maduro sustentou em público que havia conversado em várias ocasiões com o defunto líder por intermédio de um passarinho (que era Chávez transmutado).

TEOLOGIA BOLIVARIANA: O presidente voltou à área teologia ao declarar que Chávez, quando esteve vivo, era Cristo reencarnado, fato que gerou ironias em Caracas sobre a eventual candidatura de Maduro a “apóstolo”.

SONO E NECROMANIA: Maduro também entrou na área da necromania ao confessar em público que – volta e meia – dormia ao lado do caixão do presidente Chávez. O presidente não deu maiores detalhes sobre este repouso ao lado do presidente que repousa eternamente.

TOPOGRAFIA & O ALÉM: Em várias ocasiões Maduro citou a onipresença do finado bolivariano na geografia venezuelana, ao afirmar que via sempre o perfil de Chávez nas montanhas ao redor de Caracas.

GEOLOGIA E TRANSPORTES COM TOUCH SOBRENATURAL: O lado místico misturou-se com a geologia quando Maduro mostrou na TV uma foto de uma diluída mancha na rocha do túnel do metrô de Caracas encontrada pelos operários. Maduro disse que era a cara do presidente Chávez. Segundo ele, esta aparição era um fenômeno sem explicação. “Chávez está em todos os lados”, indicou.

Maduro em um momento de um comício durante a campanha presidencial do ano passado. 

– CONSPIRAÇÕES

As constantes denúncias sobre supostas conspirações por parte de Maduro provocaram o surgimento de um neologismo na Venezuela: a “conspiranóia”, mix de conspiração e paranóia. Entre as várias conspirações que Maduro denunciou está uma dezena de planos de assassinato do próprio presidente. Neste quesito segue a linha do falecido presidente Chávez, que em quase 14 anos de governo denunciou a existência da preparação de 52 atentados contra sua vida. As forças de segurança prenderam na época uma dezena de pessoas. Mas, todas foram liberadas, já que o governo, apesar do alarde, nunca encontrou provas contra os supostos “assassinos”.

ESFÍNCTERES E REVOLUÇÃO: Em abril passado Maduro denunciou a primeira conspiração da História mundial que tinha como pivô o papel higiênico.

O novo presidente afirmou que a escassez substancial desse insumo crucial para a higiene dos esfíncteres venezuelanos era devida a uma conspiração do imperialismo yankee e de traidores da pátria local. Depois mudou o enfoque e disse que a falta de papel devia-se ao aumento do consumo de alimentos por parte do povo venezuelano, que, segundo ele, estava mais próspero e comia mais.

COLAPSO E VENENO: Em matéria de conjurações, Maduro propiciou vasto material: ele anunciou em setembro que grupos estrangeiros e nativos estavam preparando a desestabilização de seu governo com um plano que tinha o nome de “Plano Colapso Total”…em novembro afirmou que havia derrotado o plano, embora nunca tenham aparecido os supostos conspiradores, que, segundo Maduro, pretendiam assassiná-lo com veneno.

DISK-TRAIDOR: Maduro também criou um 0800-Sabotagem para que os patriotas denunciem por telefone as pessoas que – com um conceito bem genérico – “fazem sabotagens” contra a economia venezuelana, o que as torna “traidoras da pátria”.

TWITTER E OS ANTIPATRIÓTICOS UNFOLLOWS: Ainda sobre supostos conjurados, o presidente Venezuelano ficou furioso ao perceber que havia perdido 6 mil na rede social Twitter. Mas, rapidamente encontrou uma explicação: era uma conspiração do Twitter contra a pátria venezuelana.

VIOLÊNCIA & ARACNOFOBIA: A aracnofobia não ficou de fora dos discursos do presidente Maduro, que também criticou a violência dos desenhos animados, com um foco especial em Peter Parker, isto é, o jornalista que torna-se o Homem-Aranha, indicando que ele era parte dos motivos que geravam violência na Venezuela.

CÂNCER ‘INOCULADO’: Em abril do passado Maduro anunciou que criaria uma comissão mundial de cientistas para investigar suas suspeitas de que Chávez teria sido assassinado por jagunços internacionais que teriam “inoculado” o câncer que seu líder havia tido. No entanto, apesar do anúncio feito em tom retumbante (e que foi repetido ao longo dos meses), comissão alguma foi formada nos onze meses transcorridos.

VENENO INOCULADO: Maduro também denunciou que existem conspiradores que tentaram inocular um veneno nele próprio. “Não para que morra em um dia, mas sim para que a doença dure meses!”, exclamou.

ASSASSINATO DO RIVAL: Pouco depois de convocar as eleições presidenciais do ano passado Maduro afirmou que o presidente Obama, membros do Pentágono e da CIA estavam por trás de um plano para matar seu rival Enrique Capriles, a quem acusa de ser representante dos EUA e da CIA. Segundo Maduro, a idéia dos EUA era matar Capriles para criar “caos” e “induzir” um golpe de Estado. Capriles continua vivo. Nunca foram apresentadas provas sobre esta conspiração.

OS SALVADORENHOS: Maduro afirmou no ano passado que a “direita salvadorenha” havia pago mercenários para assassiná-lo. Os jagunços nunca apareceram. Maduro continua vivo e não falou mais no caso.

OS COLOMBIANOS: Em abril foi a vez de acusar os colombianos de estarem por trás de um plano de magnicídio de Maduro. Segundo o presidente venezuelano, o ex-presidente colombiano Uribe – que possui pouco poder atualmente – havia organizado um grupo de mercenários que ia entrar na Venezuela pela selva com o plano de enviá-lo para o além. Mercenário algum foi detido, apesar da denúncia de Maduro. Por enquanto o “magnicídio” protagonizado por Uribe não passam de críticas que o ex-presidente faz pelo Twitter sobre a política econômica de Maduro.

Maduro e o mandão passarinho: assim são retratados o presidente venezuelano e a ornitológica entidade na série satírica “Ilha presidencial”.

EFEMÉRIDES DE MADURO

– Maduro decretou festividades para o dia 28 de julho, já que trata-se do dia de nascimento do presidente Chávez.

– O 8 de agosto também é dia de festa, já que é o dia em que Chávez, quando jovem, entrou na academia militar

– O dia 4 de fevereiro, data na qual, em 1992, liderou uma fracassada tentativa golpe de Estado contra o governo do presidente Carlos Andrés Pérez.

– Maduro também designou o dia 8 de dezembro como o “Dia da Lealdade e Amor” a Chávez, data que contou em sua primeira edição, no ano passado, com uma série de eventos para “exaltar o pensamento bolivariano” e declarar “o amor infinito” pelo líder morto. O motivo da data: o 8 de dezembro de 2012 foi a última vez na qual Chávez foi visto vivo em público pelos venezuelanos.

– Ainda na área da alegria, o presidente também anunciou que decretava a antecipação do início do Natal para o dia 1 de novembro. Argumento: trazer mais felicidade para o povo. Uso disso: combater a violência e a amargura cantando cânticos natalinos venezuelanos.

– Além da antecipação do início do Natal Maduro também decretou, alegando problemas sociais e políticos, um começo antes do previsto do carnaval deste ano.

Tal como o defunto líder (Chávez era um bom barítono), Maduro também gosta de entoar melodias em público. 

MADURO E AS FORMAS DE DENOMINAR O DEFUNTO PRESIDENTE CHÁVEZ

Maduro também aplicou a criatividade para as diversas nomenclaturas que utiliza para referir-se ao defunto Chávez de forma épica:

“Comandante”

“Comandante supremo”

“Líder eterno”

“Messias dos esquecidos”

“Presidente eterno dos humildes”

“Chávez das vitórias”

“Presidente invicto”

“Pai”

O líder da oposição Enrique Capriles disparou ironias sobre a rica nomenclatura, afirmando que Chávez foi o “comandante galáctico”…

Sem pestanejar, o prefeito chavista de Caracas, Jorge Rodríguez, respondeu de forma categórica, ampliando o conceito: “sim, Chávez é nosso comandante galáctico, celestial e universal!!”

Maduro, desde que está no comando do país, optou por auto-denominar-se como:

“Presidente operário”

“Apóstolo de Chávez”

…e “Filho de Chávez”

O presidente venezuelano também encontrou uma forma de designar sua mulher, Cilia Flores, que não é “Primeira-dama”: ela é a “primeira-combatente da Revolução”.

BÔNUS TRACK 1

Durante a campanha eleitoral ameaçou as pessoas que não votassem nele com a “Maldição de Maracapana”. Houve uma batalha com esse nome na Venezuela EM 1567. Mas não existem resgistros sobre a crença de tal maldição, embora “La Maldición de Maracapana” tenha uma sonoridade capaz de assustar.

BÔNUS TRACK 2

Algumas frases das gafes de Maduro:

– “Então o doutor examinou meu coração com um telescópio…”

– Milhões e milhoas de filhos e filhas de Bolívar….”

– “Existe uma metade majoritária e uma metade minoritária…”

   

P/encerrar, Claudio Abbado rege “La gazza ladra”, de Gioacchino Rossini:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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