Crise institucional argentina agrava-se em meio a pirotecnia verbal & embargos
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Crise institucional argentina agrava-se em meio a pirotecnia verbal & embargos

arielpalacios

13 de janeiro de 2010 | 11h01

despacho
Presidente Cristina perde poder, aumenta confrontos e fica gradualmente mais isolada. Foto da presidência da República.

A cada dia agrava-se a crise institucional desatada há exatamente uma semana, na quarta-feira passada, em Buenos Aires pelo governo da presidente Cristina Kirchner. Governo versus Banco Central, Parlamento e juízes. E de quebra, fundos “abutre”.

Nas últimas horas
– A presidente Cristina acusou o vice-presidente Julio Cobos, a oposição, a mídia, alguns juízes e os ‘fundos abutre’ de “conspirarem” contra seu governo.
Uma espécie de “eixo do mal” anti-kirchnerista.

– Fundos do Banco Central argentino em Nova York foram embargados pela justiça americana.

– A Bolsa caiu, os títulos da dívida despencaram.

– O governo ainda tenta remover de seu posto o presidente do BC, Martín Redrado, por intermédio de recursos na Justiça. Segundo a presidente Cristina, Redrado é um ‘okupa’ (invasor de casas).

– A juíza María José Sarmiento, que restituiu Redrado no cargo na 6afeira passada, nesta quarta-feira aceitou um recurso do governo para anular a restituição e repassou o caso para a Câmara da Justiça Federal de Diferendos e Assuntos Administrativos (isto é, a briga na Justiça ainda continuará por vários dias).

Um breve (breve mesmo, levando em conta a complexidade desta crise!) passo a passo desta intrincada crise

marcaaNa semana passada…– Cristina Kirchner exigiu renúncia do presidente do BC, Martín Redrado, porque este não queria liberar reservas para pagamento da dívida pública. A presidente quer US$ 6,5 bilhões da reserva (ação não prevista no Orçamento Nacional aprovado há poucos meses) para pagar parte da dívida pública que vence neste ano.
O governo precisa pagar um total de US$ 12,578 bilhões neste ano.
Mas, contava somente com US$ 6,015 bilhões, já que o gasto público aumentou consideravelmente e não havia cash para cobrir o ‘buraco’.
Para isso, exige a entrega dos US$ 6,563 bilhões da reserva do BC.

handpragoh No entanto, surge um cenário que não estava previsto pela presidente Kirchner, já que ….
….O presidente do BC diz que não renuncia. Um dos motivos: esses fundos, quando saírem do BC, poderiam ser embargados a pedido dos fundos abutre nos EUA.

– Cristina perde as estribeiras de demite presidente do BC por decreto. O governo anuncia que o novo presidente do BC, Mario Blejer.

– O presidente do BC recorre à Justiça, que 24 horas depois o restitui no cargo. Autora da medida inesperada: a juíza María José Sarmiento.
– Volta cinematográfica do presidente do BC, Martín Redrado, ao cargo.
– Os “Pingüinos” (Pinguins), como são chamados popularmente a presidente Cristina e seu marido Néstor Kirchner (apelido aplicado por suas origens patagônicas) lançam uma saraivada de críticas contra Redrado.

marcaa– Fim de semana de tensão e troca de acusações sobre ‘autoritarismo’ e ‘golpismo’ entre governo e oposição.
– Juíza que restitui Redrado no posto do BC diz que está sendo intimidada e pressionada pelo governo.
– Ex-presidente Néstor Kirchner, primeiro-cavalheiro e atual deputado, alerta sobre “conspiração” da oposição, meios de comunicação e justiça contra o governo de sua esposa e sucessora.
– Kirchner aponta artilharia contra o vice-presidente Julio Cobos, que rompeu com os Kirchners há um ano e meio..mas continua no posto, para irritação do casal presidencial); o presidente do BC e o Grupo Clarín, o maior holding multimídia do país.

marcaa– Retomada dos dias ‘úteis’…
Na segunda-feira desembarcou em B.Aires o homem – Mario Blejer – que Cristina e Néstor querem que seja o novo presidente do BC. O imbróglio é tão descomunal que Blejer prefere ficar calado e faz de conta que o assunto não é com ele.
Blejer foi assessor do FMI durante 20 anos, ex-diretor do Banco de Inglaterra e ex-presidente do BC argentino, que comandou em 2002, ano da grande crise.

Na segunda-feira também a oposição reuniu-se para discutir a crise institucional, o maior desde o colapso de 2001-2002 e decide tentar convencer o governo a abertura de um “diálogo”.

Pirotecnia verbal: mais troca de acusações entre governo e oposição.

Na segunda-feira quase à meia-noite, o governo anuncia que entrou com um pedido na Justiça para anular a determinação da juíza Sarmiento. Isto é, remover Redrado de novo.
Mas, até a terça-feira, apesar das declarações, o governo não havia enviado formalmente pedido algum…

Na terça-feira parecia que estava tudo em relativo banho-maria (isto é, ‘banho-maria’ para os padrões locais) até que o juiz federal Thomas Griesa, de Nova York, embargou US$ 1,7 milhão relativos a fundos que o Banco Central argentino possuía em uma conta na reserva federal em Manhattan (isto é, acontece o embargo que Redrado temia dias atrás e que era o motivo para não aceitar a liberação das reservas para o pagamento da dívida).

Aí, o imbroglio, tal como em um sinistro video-game, entrou em uma nova etapa de dificuldade.

Quem solicitou o embargo? Os fundos de investimentos “abutres” NML e EM, que possuem títulos da dívida argentina que não entraram em 2005 na reestruturação dos bônus que estavam em estado de calote desde dezembro de 2001.

Tremeram os mercados, enquanto Cristina Kirchner e ministro da Economia, Amado Boudou ficavam furiosos com o novo revés e disparam acusações de “conspiração” por parte da…
a)Oposição
b)Justiça
c)Meios de comunicação

marcaaResultados, a curto prazo:
Ontem, terça-feira, os títulos da dívida pública despencaram em até 12%.
A taxa de risco do país aumentou 8% em relação à véspera e chegava ontem no início da noite a 734 pontos.
A Bolsa portenha caiu 2,03%.

A médio prazo o embargo pode gerar atrapalhos no plano do governo argentino de reabrir a reestruturação da dívida com os “holdouts”.

Bom, aqui é preciso uma pausa histórica:
– No dia 23 de dezembro de 2001, primeiro dia do presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá, declara-se o calote da dívida pública com os credores privados. O país continuará pagando o FMI, Banco Mundial, BID…

– Em maio de 2005 o então presidente Néstor Kirchner abre a reestruturação dos títulos da dívida em estado de calote. Bônus sofrem perda do valor nominal de 0% a 65% (dependendo de cada caso de bônus) e prolongam-se por 42 anos o prazo para pagamento do capital (mas não de juros, que já estão sendo pagos). No entanto, para quem esperou até aí (e não repassou seus bônus), os novos títulos acabaram tendo valores reais maiores do que na véspera do calote em 2001, quando não valiam quase nada.

– Ficaram de fora da reestruturação da dívida uns 25% dos credores, que acumulam títulos com valor nominal de US$ 20 bilhões (que teriam US$ 30 bilhões com juros acumulados…como valor nominal).

Kirchner dizia que a reestruturação dos títulos estava fechada definitivamente. E afirmava que quem não havia aceito a reestruturação, ficaria fora de qualquer pagamento “para sempre”.
– O governo até aprovou uma lei determinando que a reestruturação não seria mais reaberta, a “Lei Cerrojo” (Lei Ferrolho). Isso, para o caso de que outro governo, no futuro, tentasse reabrir a troca de títulos (no fundo, foi só esperar a posse de outro Kirchner, Cristina, neste caso para mudar as regras, novamente).

– Os credores que ficaram de fora, os “holdouts”, sempre pesaram negativamente na imagem da Argentina nos mercados.
– Por isso, o governo, nos últimos meses, voltou atrás em suas promessas e manobrou para reabrir a reestruturação da dívida com os holdouts.
O embargo nos EUA pode complicar as negociações para pagar o restante desta dívida, e assim, como diz a presidente Cristina, “encerrar o calote” com os credores que ficaram de fora da reestruturação em 2005…que supostamente estava fechada.

luta
Bom, voltando ao seguinte round entre governo e oposição…

handpragoh
O OKUPA, O EMBARGADOR SERIAL E A JUÍZA DELIVERY
Após o impacto, o ministro Boudou, em coletiva de imprensa, referiu-se à existência de uma quinta-coluna ao afirmar que existem “representantes dos fundos abutres dentro da estrutura do Estado argentino”.

Boudou também sustentou que o vice-presidente da República, Julio Cobos – que rompeu com a presidente Cristina e tornou-se o principal presidenciável da oposição – é o “chefe de fato” do anti-kirchnerismo.
Segundo Boudou, Cobos lidera um “complô” contra o governo, aliado com os “abutres” locais.

Na sequência, no início da noite, foi a vez da presidente Cristina, que disparou uma metralhadora de acusações.

A presidente Cristina denominou o presidente do Banco Central, Martín Redrado, de “okupa” (invasor de casas).

Também disparou contra a juíza María José Sarmiento (que dias antes havia restituído Redrado no cargo), chamando-a de “juíza delivery”.

E além disso, atacou o vice-presidente Julio Cobos, a quem acusou de “querer ser presidente do país antes das eleições de 2011”.

E de brinde, também desferiu críticas sobre o juiz Griesa, a quem denominou de “embargador serial”.

Aliados da presidente Cristina exigiram a renúncia do vice Cobos.

Cobos, no fim da noite, respondeu: “eles veem fantasmas onde não existem”.
E depois, arrematou: “terminarei meu mandato em 2011 e (ele e Cristina Kirchner) iremos embora juntos”.

PINGUINS, RATAZANAS & ABUTRES
Nesta quarta-feira, em um comício na Grande Buenos Aires, nas proximidades do rio Riachuelo, o mais fétido da Argentina (há séculos poluído; primeiro por curtumes, posteriormente por outras indústrias), a presidente Cristina Kirchner afirmou que os “fundos abutres” são “ratazanas” do Riachuelo que ficam “a espreita” de seu governo e do país.

Além disso, criticou os partidos de esquerdas, que nos últimos dias pediram a suspensão do pagamento da dívida, por considerá-la “ilegítima”, pois cresceu de forma acelerada durante a ditadura militar (1976-83).
Segundo Cristina Kirchner “a hora de ter declarado essa dívida legítima ou ilegítima foi no primeiro governo civil após a ditadura. Depois não há jeito – por mais que pareça bonitinho – de determinar se essa dívida é legítima ou ilegítima!”.

MAIS IMBROGLIO, AFIRMAÇÕES E DESMENTIDOS
A capital argentina viveu na sexta-feira no fim do dia uma confusa troca de afirmações e desmentidos entre o governo da presidente Cristina Kirchner e o presidente do Banco Central, Martín Redrado, sobre o embargo determinado pelo juiz federal Thomas Griesa, de Nova York.

A confusão iniciou quando o secretário de Finanças da Argentina, Hernán Lorenzino, afirmou categoricamente que o juiz americano havia determinado a suspensão do embargo sobre US$ 1,7 milhão das contas do Banco Central argentino na Reserva Federal dos EUA.

No entanto, horas depois, o presidente do BC desmentiu Lorenzino ao afirmar que as contas argentinas continuavam “congeladas”.
Lorenzino havia afirmado que Griesa havia feito uma suspensão temporária do embargo.

Mas, segundo Redrado, o juiz mantém o embargo, embora, a modo de trégua, tenha convocado ambos lados – governo argentino e credores americanos – para chegar a um acordo sobre os títulos da dívida em estado de calote desde 2001 que não entraram na reestruturação da dívida em 2005.

A confusão, evidentemente, promete continuar…

vinhetras19REAÇÃO NEGATIVA
Uma pesquisa elaborada pela consultoria Management & Fit sustenta que 79,7% dos entrevistados opõem-se ao uso das reservas do BC.

Apenas 7,6% dos argentinos concordam com a medida de reduzir o volume das reservas dos atuais US$ 47 bilhões para US$ 41 bilhões para pagar os credores privados.

vinhetras19DESCONFIANÇA SOBRE USO DO DINHEIRO
A pesquisa também indicam que 57,2% dos argentinos consideram que o governo pretende usar as reservas para pagar os gastos da campanha presidencial de 2011.

Somente 5,3% acreditam no discurso do governo Kirchner de usar as reservas para não ter que recorrer aos mercados internacionais, onde os créditos possuem juros altos.

Os argentinos também pretenderiam que o Congresso Nacional revise as decisões do governo sobre a dívida e o presidente do BC, que deram início a esta nova crise institucional argentina.

Segundo a pesquisa, 64,3% dos argentinos querem que o Parlamento revise as medidas da presidente Cristina.

E além disso, a pesquisa sustenta que 76,5% dos entrevistados não concordam com as manobras da presidente Cristina para remover o presidente do BC, Martín Redrado, de seu posto.

vinhetras19IMAGEM DETERIORADA
A imagem do casal Kirchner continua em deterioração. Segundo uma pesquisa da consultoria CCR e a Escola de Negócios da Universidade Austral, 47% dos pesquisados possuem uma imagem “ruim ou muito ruim” dos Kirchners.
Outros 26% a consideram “regular”.
Somente 25% a consideram “boa ou muito boa”.
Os números indicam uma drástica queda em relação a 2003, o primeiro ano de Néstor Kirchner no poder.
Na época, 77% dos argentinos possuíam uma imagem “boa ou muito boa” do casal.
Outros 18% tinham uma imagem “regular” dos Kirchners.
E apenas 3% possuíam do casal presidencial uma imagem “ruim ou muito ruim”.

Além disso, os argentinos estão preocupados pelo cenário econômico. De acordo com 58% dos entrevistados a situação econômica em 2010 será “pior ou muito pior” do que em 2009, ano no qual a Argentina mergulhou novamente em recessão.
Outros 29% consideram que a situação econômica será “igual” à de 2009. Somente 13% acreditam que será “melhor”.

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