Jack Nicholson em Ezeiza, sóis sorridentes e Frankenstein, que toma um cafezinho para entrar com energia em 2010
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Jack Nicholson em Ezeiza, sóis sorridentes e Frankenstein, que toma um cafezinho para entrar com energia em 2010

arielpalacios

31 de dezembro de 2009 | 20h36

frankenstein
Frankenstein (Boris Karloff – 1887-1969 – na verdade, com muita maquiagem em cima) beberica um cafezinho enquanto espera 2010. Será um bom ano!

Caras e caros,
Aproveito o último dia do ano para uma postagem múltipla.
Temos férias, Jack Nicholson perdendo a mala em Ezeiza e sóis sorridentes.
Vamos por partes.

mao345sFÉRIAS
Nosso emérito Gustavo Chacra, amigo e blogueiro de “De Beirute à Nova York”, comenta em sua postagem de fim de ano sobre o êxodo de pessoas à procura de praias no verão (a não ser os sortudos que residem em centros urbanos à beira do mar). Neste caso, cita os portenhos dos bairros da classe média, média alta e alta, que viajam para praias brasileiras. E, sem dúvida, a elite argentina também vai em peso à uruguaia Punta del Este (e, nas proximidades desta, a mais elitista ainda José Ignacio). Aliás, Punta del Este fica cada vez mais cheia de brasileiros.

Os portenhos – e argentinos do interior – de menores recursos financeiros devem resignar-se a algumas praias da província de Buenos Aires, entre elas Mar del Plata, que no passado remoto foi o balneário ‘in’ do país.

No entanto, alguns setores oceânicos bonaerenses também possuem prestígio, e recebem pessoas mais abastadas. É o caso de Pinamar, Cariló e Mar de las Pampas. E eventualmente, algumas famílias passam parte do verão em Cariló e outra parte em Punta del Este.
Mas, é preciso destacar que também existem praias fluviais argentinas ao longo dos rios Paraná e Uruguai, que ficam repletas de pessoas nos dias quentes de verão.

No entanto, as praias brasileiras, são, sem dúvida, um dos pontos de permanente interesse para os argentinos.
Os argentinos foram em massa ao Brasil desde 1978, época da famosa “Plata dulce” (Dinheiro doce), isto é, a ciranda financeira na qual a Argentina embarcou por causa das peculiares políticas econômicas do ministro José Martínez de Hoz, o ministro mais notório da última ditadura militar. O fluxo de argentinos ao Brasil persistiu apesar das constantes crises econômicas e das desvalorizações da moeda nacional, o peso.
Em 2008 mais de um milhão de argentinos visitaram o Brasil. Primordialmente as praias.

Ah! Os portenhos, de qualquer classe social, que ficam na cidade (pelos mais diversos motivos), sem uma praia nas vizinhanças, não se avexam, e – à europeia – tomam sol nas praças da cidade.

A praça do cemitério da Recoleta, a Praça Francia, os parques de Palermo, Parque Thays, Parque Las Heras, Parque Rivadavia e Parque Centenário ficam lotadas de portenhos que tentam adquirir um “bronze” urbano com biquínis ou bermudas (a sunga não integra o vestuário de balneário, ainda que balneário ‘seco’ dos argentinos).

BUENOS AIRES É GENIAL (mas, sempre é bom estar precavido com certos assuntos, para que as férias não azedem)
Por isso, vamos para esta outra parte de nossa postagem…

maoindicasSHOWS E COMÉRCIOS
De quebra, já que falamos em férias, umas recomendações aos brasileiros que desembarquem aqui hoje ou nos próximos dias:
– Buenos Aires não conta com grandes shows ao vivo para celebrar o ano novo. Nada de festivais apoteóticos de fogos de artifício ou espetáculos de tango ao lado do Obelisco. Nem grandes jantares em restaurantes (pouquíssimos hotéis e restaurantes farão celebrações hoje para seus hóspedes e clientes). Nada disso. O portenho celebra o Reveillon junto com a família, em suas casas.

Depois, se for o caso, sai para festejar com os amigos, ao redor das 3:00 da manhã.

Antes disso, é assunto familiar, ocasião para conversar com os parentes, ingerir opíparas porções de raviolis, ‘ensalada rusa’, carne bovina (comme il faut, estamos nos Pampas), leitão, entre outros quadrúpedes, bípedes e representantes do reino vegetal que transformam-se em carboidratos.

– Não há jornais neste dia 1 de janeiro (não há jornais nos dias 25 de dezembro, no dia 1 de maio, no dia do ‘canillita’ (jornaleiro) celebrado no 7 de novembro.

– Boa parte do comércio estará fechado neste primeiro dia do ano. Prepare-se para um dia de caminhadas pela cidade, que é genial para isso.

maoindicasJACK NICHOLSON EM EZEIZA (esperemos que não seja necessário, mas, por via das dúvidas, é bom estar preparado)

iluminado
O bom e velho Jack sempre ajuda a montar o personagem para reclamar sobre objetos perdidos ou roubados.

– O aeroporto internacional de Ezeiza conta com uma ativa máfia especializada na abertura de maletas alheias. Portanto, é recomendável, além de cadeado, e plastificar a mala, que não coloque nenhum objeto do qual vá sentir saudade dentro da mala.

Para atrasar o trabalho da máfia de Ezeiza existem várias estratégias, entre elas, a colocar uma grossa e grande folha plástica na parte de dentro da mala e assim, “embrulhar” o conteúdo interno em uma derradeira capa de “resistência” às mãos alheias (esse embrulho interno de plástico é devidamente acompanhado de várias voltas de firme fita adesiva).

Dá trabalho, mas é uma forma de propiciar à sua mala melhores chances de chegar incólume.

A máfia de Ezeiza foi denunciada pela imprensa portenha. Após o escândalo, há dois anos, a máfia teve um período de atividade light. Mas, diante da ausência de medidas concretas por parte das autoridades, voltou à ativa.

41vinhetasAtenção: as companhias áreas (de vários países, não só daqui), não costumam dar muita bola para as reclamações de passageiros que tiveram suas bagagens roubadas, desaparecidas em missão ou saqueadas (um termo mais sincero).

Aquela tradicional frase das companhias “preencha este formulário com a descrição da mala e seu conteúdo” pode ser rebatido com uma lista previamente impressa do conteúdo e…golpe de efeito (ahá!!), uma foto da mala antes de embarcar (leve em um pen-drive ou imprima. Ou ambas).

Defesa do consumidor? Não existe, praticamente.

Mas, tomando as devidas precauções, com a mala blindada (o ideal seria colocar um localizador eletrônico dentro delas…), é relativamente possível passar pelo aeroporto de Ezeiza incólume para poder desfrutar de vários dias na agradável Buenos Aires.

41vinhetasAtenção 2: O aeroporto de Ezeiza pode ser um reduto da máfia das malas..mas uma situação pior existe em Roma. E no imenso aeroporto madrilenho de Barajas, as malas se perdem com frequência intensa.

Na hora de reclamar, pense que você tem a cara enlouquecida de Jack Nicholson em “O iluminado”…mas fale como Anthony Hopkins interpretando o doutor Hannibal Lecter, em “O silêncio dos inocentes”.

Treine na frente do espelho. Claro, sem fazer aquele ‘slurp’ que Hopkins faz na frente de Jodie Foster, já que pode ser interpretado de outra forma…

hannibal
“Onde está minha maleta?” Com certeza, Hannibal Lecter sempre recuperou suas malas perdidas.

– As greves são frequentes em companhias aéreas que operam no país. Portanto, leve sempre um bom livro ou música para ouvir, já que o risco de esperas prolongadas sempre existe. No caso de greves, desista. Aí não tem jeito mesmo. Não adianta fincar o pé. Os sindicatos possuem o respaldo explícito do governo. E uma greve em uma companhia possui um efeito dominó sui generis nas outras.

A saída é ficar de olho na mídia para ver se há greves do setor pairando – valha o trocadilho – no ar. Tudo isso para não ficar em terra, e não ficar (trocadilho náutico) vendo navios…

maoindicasDINHEIRO
As pessoas na Argentina estão acostumadas a usar dinheiro cash. E possuem bons motivos para isso. Um dos motivos (a lista é longa, mas me atenho ao quesito ‘férias’) pelos quais um turista deveria inspirar-se neles é o do costumeiro não-funcionamento adequado dos caixas eletrônicos.

Outra coisa: ao chegar em Ezeiza, caso tenha pressa em trocar dinheiro, troque no Banco de La Nación, no hall do aeroporto. Costuma estar aberto todos os dias. Outros lugares nem sempre possuem um câmbio, digamos assim…’justo’.

Mais um detalhe: a falsificação de dinheiro é grande na Argentina. Há grandes especialistas na falsificação de dólares e pesos. Fique de olho. As falsificações são muito boas. Em grande parte das ocasiões, as pessoas que repassaram notas falsas (um lojista para seu cliente, por exemplo) nem perceberam que a cédula entregue era pura falcatrua monetária.

maoindicasTÁXIS
Nada de pegar os táxis que se oferecem no hall de Ezeiza. É arriscado. Pegue um táxi – isto é, um remis, um carro de aluguel – de uma agência que tenha guichês no hall do aeroporto. Ou um ônibus dessas empresas.

maoindicasROUBOS
Buenos Aires é uma cidade onde a criminalidade aumentou de forma substancial ao longo da última década. Mas, apesar disso, ainda é uma cidade muito menos insegura do que o Rio de Janeiro ou São Paulo.
No entanto, os batedores de carteira estão mais ativos no período de férias e ficam de olho nos desavisados turistas estrangeiros que caminham pela cidade.
Os pontos preferidos para estes “amigos del ajeno” (amigos do alheio, como dizem os portenhos) são:

– A calle Florida (via de pedestres que até início dos anos 90 ainda mantinha o charme. Agora, não mais. Só recomendaria os últimos quarteirões da Florida, isto é, no trecho entre a Avenida Córdoba e a Avenida Santa Fe).

– O bairro da Boca (bairro que costuma ser ‘pega-turista’…mas isso é assunto para uma outra postagem, na qual explicarei que as cores do ‘Caminito’ são algo fake e que de italiano o bairro quase não tem mais nada. E muito menos é o bairro do tango…)

– Ocasionalmente algum roubo pode ocorrer na área da Recoleta. Neste caso, a modalidade mais frequente é a dos ‘motochorros’, isto é, o ladrão que passa de motocicleta e arranca a bolsa de uma turista (ou nativa) que passa muito rente ao meio-fio.

solmoneda

mao345sSÓIS SORRIDENTES EM AMBAS MARGENS DO PRATA

O motivo dos sóis ‘sorridentes’ nas bandeiras da Argentina e do Uruguai era uma das inquietudes de nosso leitor-comentarista Mané. Aqui explicamos a origem destes sóis sorridentes:

As bandeiras da Argentina e do Uruguai possuem vários pontos em comum. Por um lado, ostentam o branco e o azul (no caso da Argentina, mais do que azul, é o celeste, se bem que em outras épocas era mais escuro esse azulado…mas esse é um assunto saboroso para outra postagem).

bandeiraarghentina
Bandeira argentina

Além disso, também ostentam um sol, muito similar. O sol parece sorridente…não de forma exagerada, mas mais como um sorrido de Mona Lisa. Ele possui uma ‘carinha’, com olhos, sobrancelhas e nariz.

solargentina

O sol na bandeira argentina foi adotado em 1818, durante uma reunião do Congresso em Buenos Aires. É o mesmo sol que aparece na primeira moeda nacional cunhada pela Assembleia de 1813.

Este sol possui 32 raios. Dos quais 16 raios “retos” e 16 “flamejantes”. Isto é, 16 raios retinhos e outros 16 com curvinhas, como se estivessem em plena ação de ‘chamas’.

É chamado de “sol de mayo”, em referência à Revolução de Maio de 1810, estopim das revoltas de independência no rio da Prata.

O design deste sol foi realizado por um ourives de sobrenome Rivera (que tinha antepassados incas). Rivera recuperou o símbolo do sol dos incas, o ‘Inti’.
O mesmo sol inspirou os uruguaios, quando estes fizeram sua bandeira definitiva.

Até 1985 a bandeira com o sol era considerada “bandeira-mor” da nação (ou também a bandeira de guerra), e portanto, só podem ser usadas pelos edifícios públicos e as forças armadas. Os cidadãos argentinos só podiam usar as bandeiras sem o sol no centro.
Mas, atualmente a bandeira com o sol é a bandeira da Argentina de forma geral.

soluruguayo

Na bandeira uruguaia, o sol tem uma carinha levemente mais sorridente. Possui menos raios que seu colega argentino. No total, o sol uruguaio possui oito raios flamejantes e oito raios retos.

uruguay
Bandeira uruguaia

vinheta2

Alguns dos nossos queridos comentaristas-leitores que participaram da divertida reunião que realizamos em setembro em São Paulo. Possivelmente repetiremos o encontro em março. Em janeiro, para quem estiver em Buenos Aires, faremos uma reunião aqui mesmo, na ‘Reina del Plata’.
comentaristas

Um supimpa ano novo para todos!

E de presente de ano novo, um poema que Jorge Luis Borges apreciava muito, que não era dele, mas do inglês William Blake (1757-1827).

To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.

Para ver o mundo em um grão de areia
E um céu em uma flor silvestre
Segura o infinito na palma de tua mão
E a eternidade em uma hora

vinheta2

Para despedir 2010, o mais emblemático tango de Astor Piazzolla, “Adiós Nonino”, na versão com o próprio Piazzolla…

http://www.youtube.com/watch?v=eyJGDmgg0Vc&feature=related

E na versão, mais recente, com Yo yo Ma:

E para começar o ano, Mercedes Sosa, recentemente falecida, em “Honrar la vida”. A música e letra é de Eladia Blázquez.
http://www.youtube.com/watch?v=I1z9GhWAPEY&feature=PlayList&p=B6704F37776E0121&playnext=1&playnext_from=PL&index=32

E, evidentemente, não podíamos terminar 2009 sem a ironia de Mafalda…

demort

Abraços,
Ariel
PS – Neste domingo acrescentaremos o capítulo sobre os santos populares.
E na semana que vem continuaremos com a série sobre os sui generis suicidados argentinos.

PS2: E, como dizia um humorista argentino, Tato Bores (obrigado pela lembrança deste ao comentarista Jorge Trimboli), “Vermouth com batatas fritas e goood shoow!!” Bom ano!

tato2
Bores e seu telefone

royal

karloff

Um novo ano em boa companhia sempre é melhor, evidentemente!
Boris Karloff e Josephine Hutchinson em um momento de relax no meio da rodagem do clássico da Universal “Son of Frankenstein” (1939)

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