Julgamento de Astiz, o ‘garoto mimado’ da Ditadura
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Julgamento de Astiz, o ‘garoto mimado’ da Ditadura

arielpalacios

14 de dezembro de 2009 | 11h30

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O anjo loiro da morte. Retrato do sequestrador quando jovem

O “garoto mimado” da última Ditadura Militar argentina (1976-83), o ex-capitão Alfredo Astiz, está sendo julgado desde a sexta-feira passada por sequestros, torturas e assassinatos de civis durante o regime militar. Conhecido entre suas vítimas como “O anjo loiro da morte” – e também como “O Corvo” – Astiz está sendo acompanhado no banco dos réus por outros 18 ex-integrantes da ditadura – também acusados de crimes durante a ditadura – que operavam com ele no Grupo de Tarefas 3.3.2.

A base do grupo era a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), o maior centro clandestino de torturas do regime militar, situado no bairro portenho de Núñez.

Astiz era uma das estrelas da ESMA, já que as missões mais complexas eram encomendadas ao jovem oficial pelos integrantes da alta hierarquia militar.

As estimativas indicam que 5.000 prisioneiros civis passaram pela ESMA, dos quais sobreviveram menos de 170.

Um total de 280 testemunhas comparecerão perante o tribunal, incluindo vários sobreviventes da ESMA. Fontes dos tribunais indicaram que o julgamento de Astiz e seus companheiros poderia prolongar-se por um período de seis meses a um ano.

No primeiro dia de julgamento oral e público Astiz provocou o público levantando um livro que levava consigo. O título: “Voltar a matar”.

Entre os outros ex-militares que também estão sendo julgados estão Alfredo Donda Tigel – que sequestrou seu próprio irmão e a cunhada, os assassinou e ficou com suas filhas – além Jorge “El Tigre” Acosta, famoso por estuprar as prisioneiras.

Astiz é considerado o ex-integrante da ditadura com o perfil psicológico mais intrincado. “Ele tinha absoluta certeza que estava destinado a grandes missões em sua vida…ele achava que era um cavaleiro nas Cruzadas!”, disse ao Estado Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, ex-prisioneira de Astiz e autora do livro “Esse inferno”, sobre a passagem de várias prisioneiras mulheres nesse centro de torturas.

Outra sobrevivente, Sara Osatinsky relatou que o centro da vida do loiro oficial era a ESMA: “em uma ocasião Astiz saiu de férias, mas voltou quatro dias depois, pois havia descoberto que não podia compartilhar suas atividades com os amigos. Por isso passou o resto de suas férias na ESMA, conosco”.

Astiz apreciava reunir os prisioneiros para que estes ouvissem suas longas dissertações nas quais argumentava que os africanos eram “racialmente inferiores”.

Diversas testemunhas indicam que, enquanto outros repressores somente ficavam na ESMA o tempo suficiente para o “trabalho”, Astiz desfrutava do cheiro de urina e fezes que emanava das celas, além dos gritos dos torturados.

Protegido pela cúpula militar, Astiz foi recompensado por seus serviços durante o período mais intenso de repressão com o cargo de governador das ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 1982. No entanto, essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito bélico.

Após um único tiro de bazuca disparado pelos britânicos, Astiz desistiu de resistir. Com com um copo cheio de whisky em uma das mãos, assinou a rendição incondicional.

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Astiz rende-se rapidamente aos britânicos durante a Guerra das Malvinas

Astiz foi beneficiado em 1986 e 1987 com as leis de perdão aos militares (leis de ponto final e de obediência devida). Solteiro, ao longo dos anos 90 era visto com frequência em discotecas. Mas, por ser reconhecido facilmente, Astiz também foi alvo de freqüentes socos e cusparadas dos jovens que dançavam nesses lugares.

Em 1998 Astiz concedeu sua primeira e última entrevista à imprensa, gerando intensa polêmica. Em declarações à revista “Trespuntos”, o ex-capitão definiu-se como “o melhor homem para matar um presidente”.

FREIRAS E GARGALHADA
Astiz foi responsável pelo assassinato de três fundadoras das Mães da Praça de Mayo, entre elas, Azucena Villaflor. Ele também é requerido por vários tribunais na Europa. Na Itália, ele foi acusado de ter sido o autor do desaparecimento de três cidadãos italianos em território argentino durante o regime militar.Em 1990 a Justiça francesa condenou o ex-capitão – à revelia – à prisão perpétua pela morte das freiras francesas Alice Domon e Leonie Duquet.

As duas freiras foram sequestradas em uma operação planejada por Astiz, que com suas suas feições de “menino bem-comportado” infiltrou-se na organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Maio, fazendo-se passar pelo irmão de um desaparecido. A cara ingênua de Astiz convenceu as Mães, que somente perceberam quem ele era tempos depois. Sob este disfarce, Astiz recolheu informações e decidiu que as duas religiosas idosas deveriam ser eliminadas.

Astiz também é procurado pela Justiça da Suécia, já que durante uma operação para sequestrar militantes de esquerda, ele e seu grupo entraram na casa de uma estudante na Grande Buenos Aires. Ali estava Dagmar Hagelin, uma jovem sueca, amiga da estudante procurada pelos militares. A adolescente fugiu dos repressores e foi derrubada com um tiro certeiro de Astiz na nuca. O oficial, ao comprovar sua pontaria – segundo testemunhas – soltou uma gargalhada.

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Pátio da Esma, com a presença de cadetes e oficiais, nos anos 70

ESMA FOI O MAIOR CENTRO DE TORTURAS DA AMÉRICA DO SUL
Dos 651 campos de concentração da Ditadura, a ESMA tornou-se o mais emblemático. Dentro da cidade de Buenos Aires, a poucos quarteirões do estádio Monumental de Núñez, foi o cenário das torturas mais cruéis do regime militar.

A ESMA, segundo o jornalista e analista político Eduardo Aliverti, era “um clube de perversão”.

Enquanto que nos outros campos de concentração os militares recorriam a métodos “clássicos” como o fuzilamento, na ESMA os oficiais da Marinha, “eliminavam” os prisioneiros por meio dos “vôos da morte”. Esta era a denominação da modalidade de jogar os prisioneiros dos aviões em pleno voô sobre o rio da Prata ou o Oceano Atlântico.

A ESMA também contava com um armazém onde eram acumulados os objetos saqueados dos prisioneiros e suas famílias. Roupas, sapatos, eletrodomésticos, quadros e antiguidades eram alguns dos frutos do saque realizado pelos militares da ESMA.

A Marinha também organizou uma imobiliária clandestina que vendia as casas e apartamentos dos “desaparecidos”. O dinheiro era embolsado pelos oficiais.

“Viva Hitler”, “Nós somos deuses” eram algumas das frases que os oficiais haviam pintado nas paredes das salas de tortura, onde também violentavam as prisioneiras que minutos depois levavam – ainda em estado de choque e sangrando – para jantar em uma churrascaria de luxo em pleno centro portenho.

A jornalista Miriam Lewin, uma das sobreviventes da ESMA, relatou ao Estado o modus operandi dos militares: “eles tinham métodos muito refinados. Vários prisioneiros viram como torturavam seus bebês, na sua frente, ameaçando esmagar a cabeça das crianças”.

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Assinatura, em uma viga de uma das celas da Esma, do prisioneiro Horacio Maggio, posteriormente assassinado

Espalhados em 17 hectares, os diversos edifícios da ESMA que compõem o antigo centro de torturas possuem nomes que indicam o humor negro dos oficiais: “Avenida da Felicidade”, “Eldorado”, “O Capuz” e “O Pequeno Capuz” (estes dois últimos, em alusão aos capuzes que os militares colocavam sobre a cabeça dos prisioneiros, que freqüentemente ficavam semanas ou meses sem ver a luz do dia).

A Escola de Mecânica da Armada está a poucos quarteirões do estádio Monumental, do time River Plate.
Durante a Copa do Mundo de 1978, os prisioneiros podiam escutar desde suas celas as torcidas no estádio gritando “gol”.

Nos dias de jogo os oficiais detinham as sessões de tortura para dedicar-se a ver pela TV os embates futebolísticos. Quando os jogos concluíam, dedicavam-se novamente a aplicar choques elétricos ou arrancar as unhas dos prisioneiros.

ESQUIZOFRENIA
“O comportamento desses militares era uma coisa esquizofrênica”, disse ao Estado Graciela Daleo, uma ex-prisioneira que no dia em que a Argentina venceu a Copa, foi levada pelos oficiais para um “passeio” de celebração pelas avenidas da cidade.

Daleo, que havia sido torturada com requintes de crueldade, olhava a multidão dançando pelas ruas. “Eu olhava pela janela do carro, rodeadas de oficiais da Marinha, e pensava que se começasse a gritar às pessoas na rua que eu era uma prisioneira política, ninguém daria bola para mim”. Após o passeio, Daleo foi levada novamente à cela.

Grande parte dos prisioneiros ficavam encapuçados até seis meses ininterruptos. Esta era uma forma dos carcereiros eliminarem qualquer noção de tempo e espaço dos detidos.

Quase todos, antes de serem torturados recebiam uma refeição de boa qualidade. Essa a “última ceia”, servida pelos oficiais com um sorriso de sarcasmo. Depois, eram levados pela “Avenida da Felicidade”, tal como denominavam o corredor que conectava os alojamentos dos prisioneiros com as salas de torturas.

Logo, a longa seqüência de padecimentos começava com choques elétricos sobre um colchão. As fortes descargas causavam pequenos “apagões” no resto das instalações da Esma. Para que a condução elétrica fosse melhor, os oficiais de Massera molhavam os corpos dos torturados.

Nos pavilhões onde amontoavam-se os prisoneiros, havia uma mistura de alívio e desespero. “Você implorava que o companheiro fosse deixado em paz…mas, ao mesmo tempo, sabia que quando isso acontecesse, você era o seguinte”, explica Victor Basterra, um dos sobreviventes.

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Parte da frente da Esma, atualmente

AMPLO LEQUE DE TORTURAS
Depois dos choques, os prisioneiros eram as vítimas do “submarino úmido”, que consistia em colocar suas cabeças em baldes d’água cheios de urina, fezes e outros dejetos. Os oficiais também aplicavam o “submarino seco”, ou seja, a asfixia com uma bolsa de plástico.

Uma das mais temidas era o “saca-rolhas”, que consistia na introdução de um aparelho pela via anal, que ao ser puxado para fora, arrastava junto as vísceras.

Algumas torturas eram inesperadas. Os homens de Massera dedicavam várias horas para imaginar novas formas de atormentar os prisioneiros. Uma manhã, os detidos ficaram perplexos ao ver que os oficiais levavam uma motocicleta até o porão onde estavam. Nas horas seguintes, os militares, montados na moto, divertiram-se circulando pelo salão passando por cima dos prisioneiros, deitados no chão a modo de paralelepípedos.

Teresa, uma das prisioneiras que morreu na Esma e cujo sobrenome é desconhecido, era violada cada vez que ia ao banheiro. “Se ela ia uma vez, a estupravam nessa ocasião. Mas, se, horas depois, ia de novo, era novamente violada. Todas as vezes que ia ao banheiro, era impreterivelmente estuprada. Todas”, relata Enrique Fuckman, ex-detido das masmorras da Esma.

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Dagmar Hagelin, a adolescente estudante sueca vítima de Astiz

‘ASTIZ DAVA UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO PARA UM PRISIONEIRO…E DEPOIS O LEVAVA À SALA DE TORTURA’

“O Verdugo – Astiz, um soldado do terrorismo de Estado” é a mais recente biografia não-autorizada de Alfredo Astiz. Seu autor, o jornalista Jorge Camarasa, famoso nos anos 90 por seus livros sobre nazista na Argentina, em entrevista ao Estado, conversou sobre a intrincada personalidade de Astiz, a quem define de “sinistro paradigma do terrorismo de Estado”.

Estado: Como definiria a relação de Astiz com suas vítimas e seu trabalho?

Camarasa: Astiz possuía uma série de patologias. Ele costumava recordar os aniversários de alguns prisioneiros, aos quais levava presentes na ESMA! Era uma relação de amor-ódio muito complexa. Astiz era capaz de realizar coisas estranhas como levar um prisioneiro a um restaurante, e depois transportá-lo para o lugar onde seria torturado…e ele pretendia que fosse uma espécie de relação na qual todos seriam amigos!

Estado: Astiz pertence aquele grupo de ex-torturadores e ex-sequestradores que consideram que seus atos durante a ditadura foram uma ‘missão divina’? Ou o enquadraria como um ‘aproveitador’ das circunstâncias?

Camarasa: Era um aproveitador. Ele limitava-se a cumprir as ordens que recebia, sem jamais questionar se elas estavam bem ou mal. Se o patrão de Astiz tivesse sido outro governo, outro regime, com certeza ele teria agido da mesma forma.

Estado: Astiz foi um garoto mimado da ditadura? O almirante Massera o encarregou de realizar complexas tarefas de espionagem, apesar de ser muito jovem…o ditador e general Leopoldo Galtieri, durante a Guerra das Malvinas, o colocou como comandante das ilhas Geórgias do Sul….

Camarasa: Foi mais do que um garoto mimado. Isso tem a ver com a formação de Astiz. Ele foi um oficial treinado nos Estados Unidos, além da Escola das Américas. Era um cara com instrução militar acima de seu camaradas.

Estado: Qual foi o destino de Dagmar Hagelin?

Camarasa: Sabemos detalhes da operação na qual Dagmar foi pega. Mas não sabemos se morreu na hora, se foi levada viva e posteriormente torturada. E depois morta.

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