Kirchner ambiciona ser o comandante da Unasul
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Kirchner ambiciona ser o comandante da Unasul

arielpalacios

19 de abril de 2010 | 10h40

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Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner, pretende ter um cargo internacional

 

blog1mao3O ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa, a presidente Cristina Kirchner – contaria com o respaldo da maioria dos presidentes dos países da América do Sul para transformar-se no secretário-geral da Unasul, entidade supranacional criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. O mais recente respaldo concedido a Kirchner provém do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O apoio do governo brasileiro à candidatura de Kirchner – conhecido por ter pouco tato, ausência de diplomacia e por sua aversão a reuniões internacionais – foi anunciado dias atrás pelo governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, homem de confiança do casal presidencial. Scioli, ex-vice-presidente da república (2003-2007), afirmou em Nova York: “a administração do Brasil deu seu respaldo a Kirchner”.

O plano é que Kirchner seja entronizado no comando da Unasul na reunião de cúpula que esta entidade regional realizará nos dias 4 e 5 de maio em Buenos Aires.

Nesse conclave, além da candidatura de Kirchner, os presidentes discutiriam a formação de um fundo de ajuda sul-americano para o Haiti. O encontro também servirá para debater que posição a Unasul assumirá perante o governo do novo presidente de Honduras, Porfírio Lobo, ainda não reconhecido por vários países da América do Sul.

O sonho de Kirchner de ter um cargo internacional conta com o respaldo explícito do presidente boliviano Evo Morales, além do venezuelano Hugo Chávez e do equatoriano Rafael Correa. Outros países da região concordam com a essa candidatura, embora sem tom enfático.

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O presidente venezuelano Hugo Chávez é um dos mais entusiastas defensores da candidatura de Kirchner

O Uruguai foi o único empecilho declarado contra Kirchner ao longo dos últimos dois anos por causa da tensão diplomática entre o governo argentino e o presidente uruguaio Tabaré Vázquez (que vetou a escolha de Kirchner).

No entanto, o novo presidente do Uruguai, José Mujica, que tomou posse em março, segundo informações extraoficiais, teria indicado à presidente Cristina Kirchner que não teria obstáculos contra a candidatura de seu esposo. 

Oficialmente, o governo uruguaio ainda não confirmou que respaldará Kirchner. Fontes diplomáticas indicam que o governo uruguaio está esperando nesta terça-feira a definição na corte internacional de Haia sobre o conflito que o país mantém com a Argentina por causa da fábrica de celulose da empresa finlandesa Bótnia, instalada nas margens uruguaias do rio Uruguai, na fronteira de ambos países.

Caso o parecer seja favorável ao Uruguai (e na hipótese que a presidente Cristina o acate) o presidente Mujica apoiaria a candidatura de Kirchner.

Mas, na semana passada, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño indicou que a unanimidade não seria necessária para colocar Kirchner no posto de secretário-geral. Segundo ele, o “ideal” é que a pessoa eleita pelos membros da Unasul seja eleito de forma unânime…mas, caso isso não seja possível, será consagrado quem conseguir maior número de adesões.

Atualmente, o único candidato é Kirchner.

blogvinhetas19 Sobre o conflito Uruguai-Argentina: O governo uruguaio está irritado com Kirchner, pois ele, desde 2005, apoiou os manifestantes argentinos que fazem piquetes nas pontes que ligam a Argentina com o Uruguai. Os manifestantes protestam contra o funcionamento da fábrica de celulose Botnia, do lado uruguaio da fronteira, alegando que a empresa polui o rio Uruguai, que divide os dois países.

Os manifestantes argentinos bloqueiam uma das pontes de forma ininterrupta, há quase quatro anos, impedindo a passagem de pessoas, bens e veículos.

O Uruguai levou o caso à Corte Internacional de Haia, alegando que os piqueteiros argentinos, com a conivência da Casa Rosada, viola o direito de livre circulação do Mercosul.

blogvinhetas41TRANSFERÊNCIA TEMPORÁRIA – A certeza da eleição de Kirchner é uma certeza no círculo do ex-presidente. Assessores do ex-presidente avaliam reciclar um edifício governamental abandonado da rua Juncal, na área central de Buenos Aires, para que Kirchner ali instale a secretaria-geral da entidade.

O Secretariado permanente da Unasul, quando seja estabelecido, ficará em Quito, Equador. Mas Rafael Correa, amigo de Kirchner, estaria de acordo na transferência temporária da sede para Buenos Aires.

Atualmente, a Unasul conta com presidentes pro-tempore, de um ano de duração. O posto é ocupado, de forma rotativa, pelos presidentes dos países que integram a entidade. O objetivo do posto de Secretário-Geral é de que a entidade conte com alguém que se ocupe de forma executiva da estrutura.

A duração do mandato é de um ano. A não ser que as regras sejam modificadas.

 

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Kirchner, um dia antes de passar a presidência para a esposa em dezembro de 2007, reunido com presidentes sul-americanos para a assinatura da ata de criação do Banco do Sul (foto da presidência da República)

blogvinhetas41COQUETÉIS, AUSÊNCIA PARLAMENTAR E PERGUNTAS – Diplomatas consultados pelo Estado ressaltam que Kirchner não se enquadra no papel de um líder regional para armar consensos e desativar crises, já que não tem papas na língua e aplica a estratégia de ‘bater primeiro para conversar depois’. Eles ressaltaram que o próprio possui aversão às cúpulas. “Não gosto de ir por aí de coquetel em coquetel”, disse Kirchner durante seu governo.

No entanto, em Buenos Aires, no âmbito político também comenta-se que Kirchner não se adapta à sua nova função, isto é, a de deputado federal (foi eleito em junho e tomou posse em dezembro). O marido da presidente Cristina só foi à sessão de juramento do cargo e à abertura do ano parlamentar. Nunca mais colocou os pés no plenário, apesar do salário que recebe para desempenhar a função (seu colega ex-presidente, Carlos Menem, atualmente senador, tampouco costuma dedicar-se às atividades de seu cargo, embora também seja pago para estar no plenário).

O regulamento da Unasul determina que a pessoa escolhida para coordenar essa entidade sul-americana não poderá intervir na política nacional de seu país. Isso levou os analistas em Buenos Aires a perguntar: “Kirchner conseguirá conter a si próprio e não intervir na política argentina?”

blog1vinhetas44 ORIGENS

A Unasul é composta pelos 12 países da América do Sul: a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Suriname e Guiana (a ex-Guiana Britânica). As únicas exclusões da Unasul na América do Sul são a Guiana Francesa (departamento de além-mar da França) e as Ilhas Malvinas (pertencente à Grã-Bretanha).

 A Unasul foi criada em 2007 com a intenção de aprofundar a integração econômica e política da região. Ela foi constituída formalmente em maio deste ano em Brasília. Sua antecessora foi a Comunidade Sul-americana de Nações (CSN), fundada em 2004.

A suposta praticidade da Unasul como organização supranacional é constante alvo de críticas por parte de partidos da oposição dos vários governos da região, que consideram que este organismo só acrescenta mais burocracia regional.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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