Kirchnerismo ‘pero no mucho’: Governador bonaerense desponta como sucessor de Cristina Kirchner com a equação “a continuidade com mudanças”
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Kirchnerismo ‘pero no mucho’: Governador bonaerense desponta como sucessor de Cristina Kirchner com a equação “a continuidade com mudanças”

arielpalacios

22 de outubro de 2013 | 13h07

Daniel Scioli apresenta-se como avalista de uma transição para a ordem pós-kirchnerista

Os analistas políticos argentinos possuem o consenso cronológico-político de que a partir do dia 28 de outubro – dia seguinte às eleições parlamentares que definirão o mapa do poder dos próximos dois anos – começa a campanha para as eleições presidenciais de 2015. Para esta maratona, na qual já despontam vários competidores, o principal presidenciável é o governador da maior província, a de Buenos Aires, o peronista Daniel Scioli, um kirchnerista “light”, amigável com os mercados. Scioli, que fez da paciência seu principal insumo político, é um dos escassos políticos argentinos que exercita a arte do consenso, algo raro no país marcado pela política do confronto.

A presidente Cristina Kirchner não digere Scioli, em quem nunca confiou. No entanto, ela está cada vez mais transformada em “pato manco”, já que seus aliados cancelaram os planos de reforma constitucional para permitir reeleições indefinidas (o plano denominado “Cristina eterna”). Além disso, na segunda-feira foi internada para uma cirurgia nas membranas do cérebro (realizada na terça). Ela estará de licença médica por um mês, fora da arena política.

Um dos históricos kirchneristas, Carlos Kunkel, admitiu 48 horas após a cirurgia: “Cristina não é imprescindível”. Jorge Landau, outro histórico peronista, articulador leal do kirchnerismo (que no passado também declarou fidelidade aos ex-presidentes peronistas Carlos Menem e Eduardo Duhalde), declarou, sem sutilezas, que após as eleições parlamentares começa a corrida eleitoral pela presidência da República.

“O sobrenome Kirchner perderá gradualmente sua força centrípeta da política”, disse em off ao Estado um diplomata argentino que conhece profundamente o Brasil. “Lula preparou uma sucessora, Dilma. Mas Cristina, tão egocêntrica, não preparou um sucessor fiel. Terá que se contentar com Scioli”, explica o diplomata, que destaca que o personalismo centralizador da gestão de Cristina arrasou qualquer chance de preparar um “delfim”.

Em 2011, pouco após ser reeleita, Cristina havia começado a preparar seu vice, Amado Boudou, para 2015. Mas, uma série de escândalos de corrupção acabaram com essa alternativa. Boudou, segundo várias pesquisas, é o integrante do governo Kirchner com pior imagem popular.

Boudou é formalmente o presidente interino desde a internação de Cristina. No entanto, em vez do vice, considerado um morto-vivo político, quem governa é um pequeno grupo de confiança de Cristina, entre eles o secretário legal e técnico Carlos Zannini, e o primogênito da presidente, Máximo Kirchner.

E, por fora do grupo, mas trabalhando ao lado, está Scioli. O governador, segundo o colunista político Carlos Pagni, do jornal “La Nación”, apresenta-se como o “avalista da ordem pós-kirchnerista” ao mesmo tempo que dá sinais à Casa Rosada de que ele seria um “sucessor solidário”, isto é, que não geraria problemas para os integrantes do atual governo.

Scioli administra uma província que concentra quase quatro de cada dez eleitores argentinos e produz um terço do PIB. Seus assessores sustentam que nas eleições primárias de agosto a população mostrou sua irritação com Cristina. Na ocasião os candidatos da presidente obtiveram 26% dos votos em todo o país. A oposição aglutinou 74%. Portanto, afirma, “agora é preciso começar a pensar no futuro”.

Para contar com o respaldo de Cristina e atrair os peronistas dissidentes, os aliados de Scioli recauchutaram um velho slogan, de olho nas eleições de 2015: “a continuidade com mudanças”.

PILOTO – Durante vários anos Scioli dedicou-se à vida de playboy e de piloto de lanchas de corrida. Mas, em 1989, no meio de uma competição no delta do rio Paraná sofreu um acidente que decepou de seu braço direito. Scioli, no entanto, faz piada: “o rio Paraná agora tem mais um braço”.

Casado com uma ex-modelo de lingerie, a elegante Karina Rabollini, Scioli foi eleito deputado em 1997 com o respaldo de Menem. Em dezembro de 2001 o presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá, que buscava desesperadamente integrantes para seu governo, ao ser informado que Scioli gostava de turismo, o designou secretário. Scioli permaneceu no posto quando tomou posse o presidente provisório Duhalde.

Em 2003 Néstor Kirchner, precisava um vice que tivesse uma relação cordial com o establishment e que não fosse um futuro rival. O escolhido foi Scioli, que durante quatro anos foi alvo de desplantes de Kirchner, que com frequência o deixava várias horas na sala de espera, antes de atendê-lo. No entanto, Kirchner recorreu à boa imagem de Scioli para ganhar a eleição do governo da província de Buenos Aires em 2007. Foi reeleito governador bonaerense em 2011.

“Scioli não tem brilho. Mas, possui uma paciência e uma capacidade de sobrevivência impressionantes”, disse em off ao Estado um ex-poderoso ex-ministro do governo Kirchner.

Da esquerda para a direita, no programa Gran Cuñado: O apresentador Marcelo Tinelli, Segio Massa (o real), Cristina Kirchner (o homem que a imitava sob a maquiagem), Sergio Massa (o imitador) e Néstor Kirchner (o imitador).

MASSA, DE SERVIL MINISTRO A REFERENTE DO ANTI-KIRCHNERISMO

Nos tempos em que era chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina Kirchner Sergio Massa era alvo dos humoristas que o mostravam como um servil ministro. Em 2009, uma paródia do Big Brother, o programa “Grande Cunhado”, sucesso de audiência na TV argentina, ridicularizava Massa como um servil ministro que corria atrás da presidente para secar seu cabelo e penteá-la.

No entanto, esse dedicado e obediente kirchnerista transformou-se nos últimos meses no principal referente do anti-kirchnerismo. Massa rachou com a presidente no primeiro semestre deste ano e rapidamente criou sua própria sublegenda peronista – a Frente Renovadora – e candidatou-se à Câmara de Deputados.

Nas eleições primárias de agosto obteve 34% dos votos, derrotando o candidato da presidente Cristina, Martín Insaurralde, que conseguiu 29%. A batalha transcorreu na província de Buenos Aires, o maior distrito eleitoral do país, que concentra 38% do eleitorado nacional.

A derrota, que constituiu um duro golpe político à presidente Cristina, também colocou a pique o plano de implantar uma reforma constitucional que permitiria o denominado projeto “Cristina Eterna”, para permitir a permanência da presidente Cristina Kirchner no poder por intermédio de reeleições indefinidas. A vitória de Massa, que – segundo as pesquisas – repetiria-se com maior vantagem a seu favor nas eleições parlamentares do dia 27, tornaram ex-ministro em pontecial presidenciável e rival de do governador Daniel Scioli.

NEOLIBERAL – Na adolescência, nos anos 80, o jovem Massa militava na UceDé, partido de fervorosas posições neoliberais. Nos 90 – tal como o casal Kirchner – aderiu ao peronismo neoliberal de Carlos Menem. Na virada do século tornou-se deputado estadual. Em 2002, durante a presidência provisória de Eduardo Duhalde, comandou a Previdência Social. Nesse estratégico posto Massa ficaria até 2007, durante o governo de Néstor Kirchner, ano no qual foi eleito prefeito do município do Tigre.

Em 2008 transformou-se em chefe do gabinete de Cristina Kirchner. Mas, meses depois, com a crise gerada pela derrota parlamentar de 2009, Cristina removeu Massa, que voltou para Tigre.

Posteriormente, documentos do “Wikileaks” indicaram que em novembro daquele ano Massa havia dito na embaixada americana que Kirchner era um “psicopata” e um “monstro”, além de afirmar que o ex-presidente era quem realmente comandava o governo e que Cristina somente “cumpria as ordens (do marido)”.

No início deste ano Massa formalizou seu racha com Cristina, criando uma nova facção do peronismo dissidente: a Frente Renovadora.

Massa é casado com Malena Galmarini, famosa por não ter papas na língua. Ela é filha de Patrício Galmarini, ex-integrante do grupo cristão nacionalista de esquerda “Montoneros”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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