Líder sindical é “tropa de choque” do casal Kirchner
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Líder sindical é “tropa de choque” do casal Kirchner

arielpalacios

14 de setembro de 2010 | 23h15

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Na frente da sobrancelha esquerda do defunto general e presidente Juan Domingo Perón, Hugo Moyano – poderoso líder da CGT (a maior central sindical argentina) – discursa para os militantes. (foto do sindicato dos caminhoneiros)

blog1dedo2bO secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, considerado a “tropa de choque” da presidente Cristina Kirchner, ameaça retomar os piquetes contra a Siderar, siderúrgica do Grupo Techint, a maior multinacional argentina. Na segunda quinzena de agosto o sindicato dos caminhoneiros, liderado por seu filho Pablo, bloqueou durante oito dias as portas da empresa. Na semana passada o secretário-geral da CGT – que é o principal suporte social dos Kirchners – recebeu o respaldo explícito do governo para os piquetes. Na ocasião, o ministro do Interior, Florencio Randazzo, declarou que as lideranças sindicais eram “defensoras” dos trabalhadores e atacou a empresa.

Na segunda-feira Pablo Moyano ameaçou ampliar os protestos e impulsar uma greve nacional por causa do conflito com a Siderar. Moyano admitiu que embora os piquetes sejam contra a siderúrgica, “companheiros de outros sindicatos poderiam apoiar esta medida”.

Hugo Moyano ordenou piquetes no ano passado nas portas das gráficas dos jornais “La Nación” e “Clarín” para impedir a distribuição dos exemplares desses dois periódicos, de posições críticas com o casal Kirchner. A medida desatou uma onda de críticas por parte de organismos de defesa da liberdade de imprensa.

O cerco à Siderar abalou o abastecimento de chapas de aço na Argentina, ao impedir a entrega de 60 mil toneladas, colocando em problemas – por tabela – o setor automotivo e as fábricas de eletrodomésticos.

Moyano exige que a Siderar se responsabilize dos encargos sociais das empresas que contrata para terceirizar o transporte (a Siderar alega que isso não é assunto seu, mas sim, responsabilidade das empresas de transportes, ramo da economia à qual não está enfocada).

Mas, por trás das pressões, afirmam analistas, está a política da presidente Kirchner de intimidar empresas que não se alinharam com o governo. O Grupo Techint já foi alvo de pressões anteriores do casal Kirchner. O holding também foi vítima de estatizações implementadas na Venezuela pelo presidente Hugo Chávez.

As pressões de Moyano estão preocupando o empresariado argentino, assustado com as crescentes ameaças do líder da CGT a diversos setores industriais. Na semana passada os caminhoneiros de Moyano também cercaram uma fábrica da Coca-Cola na província de Neuquén para impedir demissões.

blog1vinheta67c ALVOS – Na segunda metade desta década Moyano também fez piquetes contra empresas brasileiras instaladas na Argentina, entre elas a Loma Negra (comprada pela Camargo Correa) e a Quilmes (adquirida pela AmBev). Nos últimos anos, em duas ocasiões Pablo Moyano levou centenas de motoristas e dezenas de caminhões na frente da Embaixada do Brasil, como forma de protesto.

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blog1vinheta58 TROPA DE CHOQUE – Desde 1992, quando contava com 70 mil afiliados no sindicato dos caminhoneiros, Hugo Moyano aumentou o número para 200 mil neste ano. O crescimento ocorreu graças à absorção de uma série de sindicatos menores com o argumento de que determinados setores de trabalhadores estão vinculados com a atividade caminhoneira.

Nos últimos anos Moyano conseguiu que o sindicato dos trabalhadores de pedágios fosse incorporado no sindicato de caminhoneiros, alegando que “pelas estradas, onde estão os pedágios, passam caminhões”.

Da mesma forma, o sindicato de garis foi também absorvido. Neste caso, o argumento foi o de que os garis, na hora que terminam de recolher o lixo, o colocam dentro de um caminhão, que também os transporta a outros setores de uma cidade.

Desde meados dos anos 90, transformou seu sindicato em uma poderosa máquina de realizar greves e marchas de protesto.

Seus críticos destacam que transformou-se em uma “tropa de choque” do casal Kirchner, já que pode mobilizar rapidamente seus caminhoneiros para realizar piquetes nas estradas ou nas portas de empresas.

Emilia Delfino, autora de “O homem do caminhão”, biografia de Moyano, ressalta que o líder da CGT “é um homem simples, mas maquiavélico. Ele primeiro bate. E aí, depois, é que ele negocia”.

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Sob a foto de Eva Perón, a presidente Cristina Kirchner e Hugo Moyano (foto da Wikipedia)

blog1dedo2bTROCA DE FAVORES – Nos últimos anos Moyano conseguiu convencer seus liderados a não atrapalhar a gestão presidencial. Em troca, os Kirchners incluíram aliados de Moyano dentro da estrutura burocrática do governo.

No ano passado a presidente Cristina designou Mariano Recalde novo diretor da Aerolíneas Argentinas, a maior companhia aérea do país, que está passando por um polêmico processo de reestatização. Ele é filho de Héctor Recalde, um dos assessores de Moyano na CGT.

Os subordinados de Moyano ocupam postos cruciais na Secretaria de Transportes e em organismos que administram os portos e aeroportos, além de ferrovias. Além disso, o governo incluiu o sindicato na composição acionária da importante ferrovia Belgrano, sob intervenção estatal (a Belgrano é responsável por 30% do transporte de cargas do país).

Moyano também controla o movimento dos contêineres do porto de Buenos Aires. Isto é, junto com a Aerolíneas Argentinas, o líder sindical domina o transporte de cargas em todo o país.

Os Kirchners também fornecem polêmicos subsídios estatais para os caminhoneiros, tanto na área do transporte de cargas como para o sistema hospitalar do sindicato. De quebra, concederam aos caminhoneiros isenções do pagamento de pedágio em várias estradas argentinas.

Moyano também arrancou da presidente um cargo crucial no ministério da Saúde, o da Administração de Programas Especiais (APE), organismo que distribui os fundos para os sistema de saúde dos sindicatos. O controle da APE é tentador, já que em 2008 arrecadou US$ 1 bilhão.

Os analistas afirmam que Moyano é um “superministro”, embora não esteja formalmente no gabinete reformado nesta semana.

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‘El sillón de Rivadavia’, apelido da cadeira presidencial. Moyano ambiciona um dia sentar ali. E cita o “compañero” Lula como exemplo a seguir (foto da presidência da República Argentina).

blog1dedo2bMOYANO E SUAS AMBIÇÕES PRESIDENCIAIS

Hugo Moyano – sindicalista que circula em carros de luxo e cujos filhos e esposa são proprietários de várias empresas (do setor de seguros e construção civil) – tornou-se há poucos dias presidente do partido Justicialista (Peronista) da província de Buenos Aires, que concentra 40% do eleitorado argentino.

“Se um operário foi presidente no Brasil, como Lula, porque isso não pode acontecer na Argentina?”, pergunta Moyano, que já sugeriu intenções de ser presidente da República. O sindicalista convocou para o dia 15 de outubro um comício no estádio do River Plate, no qual pretende reunir 70 mil pessoas.

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blog1dedo2bENTREVISTA COM BIÓGRAFA DE MOYANO

blog1vinheta55b Emilia Delfino escreveu em parceria com Mariano Martín a biografia “O homem do caminhão”, sobre Hugo Moyano. Aqui, ela explica mais detalhes sobre a personalidade do líder sindical:

Estado – Como definiria a personalidade de Moyano?

Delfino – Ele é um homem de formas e idiossincrasia humildes, próprias de um filho da classe trabalhadora que conheceu o poder e enriqueceu. Mas nunca deixou de mostrar-se como um homem simples. A coisa paradoxal é que ele ao mesmo tempo é extremamente ambicioso. É, acima de tudo, um tático. Não se caracteriza por sua capacidade de estratégia, embora sabe como cobrir esses buracos. Ele está rodeado de assessores, amigos e aliados capacitados para projetar as melhores estratégias sindicais e acima de tudo, políticas. Sua imagem de homem rude desmorona quando se percebe sua timidez e seu modo simples de conversar e fazer piadas com seus interlocutores. Mas, ele é o mesmo homem capaz de ordenar os bloqueios mais duros às empresas mais poderosas, e de pegar pelo pescoço um empresário em plena discussão salarial. Ou, inclusive, é capaz de trair seus amigos. E, uma vontade imensa de querer controlar tudo: as estradas, os pedágios, as fronteiras, os subsídios, os salários, o Partido Justicialista, o Parlamento, a Justiça… e até o futebol, pois uma de suas paixões, junto com o boxe, é o futebol, onde ele tem influências e ações. Ele tem a virtude de não ter cometido o erro de outros chefes sindicais, isto é, ele não esqueceu das reivindicações das bases de seu sindicato. E, na contra-mão, ele tem o defeito que seus colegas nunca evitaram: a cobiça pelo dinheiro e pelo poder. E a corrupção.

Estado – Moyano sente-se identificado com os Kirchners? Ou é um pragmático, capaz de ficar bem com qualquer tipo de governo?

Delfino – A aliança Kirchner-Moyano está baseada no pragmatismo de ambos, mas nunca ocorreu com outro governo, a não ser na fugaz presidência de Adolfo Rodríguez Saá em dezembro de 2001. O modelo econômico, a desvalorização da moeda e o sistema milionário de subsídios ao transporte que Kirchner impôs desde 2003 favoreceram a atividade da logística e o transporte de cargas e derivaram em um crescimento econômico e político do sindicato dos caminhoneiros. Kirchner por seu lado, soube como gerar essa conexão pragmática dando a Moyano o que ele necessitava para chegar ao poder… e também para mantê-lo. Foram as gestões e pressões de Kirchner que transformaram Moyano duas vezes em líder da CGT. Em troca, Moyano garantiu a Kirchner a paz social.

Estado – Moyano tem empresas a seu nome ou nome de seus filhos e sua esposa?

Delfino – Não tem nada em seu nome…mas construiu um holding que está a cargo de sua terceira e atual esposa, Liliana Zulet, uma polêmica empresária que foi condenada a dois anos de prisão por desfalque, mas cuja sentença está suspensa. O grupo inclui uma agência que controla o sistema de planos de saúde do sindicato dos caminhoneiros, além de uma empreiteira que realiza as milionárias obras do sindicato de caminhoneiros, além dos hotéis de luxo em Mar del Plata, Pinamar e Punta del Este. De quebra, também existe uma empresa têxtil fornecedora do sindicato. Moyano também é vinculado a uma empresa de coleta de lixo, a Covelia, que foi a que mais cresceu nos últimos oito anos.

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Primeira biografia do poderoso líder sindical Hugo Moyano

Estado – Ele possui um estilo de vida que possa ser definido como o de um austero líder sindical, um trabalhador? Ou gosta do luxo?

Delfino – Na aparência tem um estilo simples, algo que transmite através de sua vestimenta, sempre esporte. E rejeita usar terno….ele recusou-se a usar um smoking no jantar de gala da coroa espanhola em Madri. Ele mora em um apartamento no bairro de Barracas, que é um bairro simples mas que está perto de suas empresas e do sindicato. No entanto, ele mantém suas duas ex-esposas. E adquiriu uma luxuosa propriedade no Parque Leloir, área onde residem vedetes do Teatro de Revista e celebridades. Tal como muitos chefões sindicais da CGT, Moyano tem choferes e carros muito caros que estão no nome do sindicato.

Estado – Moyano colocou seus filhos em postos cruciais do sindicalismo. Ele está tentando armar uma ‘dinastia sindical’?

Delfino – Sim. Ele treinou seu filho Pablo para que se transformasse no herdeiro de sua liderança no sindicato dos caminhoneiros. Mais tarde, em 2005, formou seu filho Facundo para que tomasse conta de um sindicato crucial para o transporte, o dos trabalhadores de pedágios. Um dos problemas centrais que Moyano tem é que Pablo não consegue transformar-se no líder sindical que ele espera. E por esse motivo ele próprio está sempre presente no comando dos caminhoneiros.

Estado – Moyano realmente aspira chegar à presidência da República?

Delfino – Em seu entourage afirmam que sim. Mas Moyano nunca admitiu isso de forma explícita. No entanto, ele falou sobre sua intenção de trabalhar politicamente para que um sindicalista chegue à presidência, fato que jornalisticamente foi interpretado como um reconhecimento de sua ambição de chegar à Casa Rosada. Seus aliados já foram instruídos para militar e construir políticamente nesse sentido. Moyano fundou no ano passado seu próprio grupo político, a Corrente Política Sindical Peronista e conseguiu colocar seus homens em várias cadeiras parlamentares. Neste ano conseguiu pressionar os prefeitos dos influentes municípios da Grande Buenos Aires – que define as eleições da estratégica província de Buenos Aires (que possui 40% do eleitorado argentino) para liderar o Partido Justicialista (Peronista) bonaerense. Moyano, ao longo de sua vida construiu poder com uma técnica que foi mais do que eficaz: ele nunca colocou a carroça na frente dos bois, fato que fez que cada uma de suas conquistas fossem um golpe de efeito em seus adversários, que somente conseguiam ver as intenções de Moyano tarde demais…somente seu círculo íntimo sabe qual será a próxima meta do líder caminhoneiro.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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