Líder sindical, último aliado dos Kirchners, aumenta seu poder no governo
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Líder sindical, último aliado dos Kirchners, aumenta seu poder no governo

arielpalacios

12 de julho de 2009 | 03h36

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Evita sorri atrás de Moyano, o homem forte do sindicalismo argentino

O secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, tornou-se um dos últimos aliados que a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner ainda possuem dentro do complexo cenário político argentino. Desde que foram derrotados nas eleições parlamentares do dia 28 de junho, os Kirchners sofrem uma persistente fuga de aliados que debilita cada vez mais seu poder.

A aliança com os denominados “barões bonaerenses” – os prefeitos dos municípios da Grande Buenos Aires – está dissolvida. Os industriais, outrora alinhados com o governo, estão em rota de colisão com os Kirchners desde que o amigo do casal, o presidente venezuelano Hugo Chávez, estatizou empresas argentinas em seu país. Neste contexto, a CGT é uma das últimas forças aliadas do governo.

Para reter o apoio de Moyano, que comanda a principal central do país – e dentro dela, o combativo sindicato dos caminheiros, uma espécie de “tropa de choque” da CGT – o casal concedeu mais espaço de poder ao sindicalista dentro do gabinete ministerial.

Na semana passada, a presidente Cristina designou Mariano Recalde novo diretor da Aerolíneas Argentinas, a maior companhia aérea do país, que está passando pelo processo de reestatização iniciado em 2008. Ele é filho de Héctor Recalde, um dos assessores de Moyano na CGT.

Moyano também arrancou da presidente um cargo crucial no ministério da Saúde, o da Administração de Programas Especiais (APE), organismo que distribui os fundos para os sistema de saúde dos sindicatos. O controle da APE é tentador, já que no ano passado arrecadou US$ 1 bilhão.

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Desde a volta da democracia Néstor e Cristina Kirchner foram os únicos presidentes que nunca sofreram uma greve geral da CGT

Nos últimos anos, Moyano – protegido pelos Kirchners – aumentou seu poder, sem encontrar obstáculos. Ele obteve o controle da linha ferroviária Belgrano, responsável por 30% do transporte de cargas do país. Além disso, controla o movimento dos contêineres do porto de Buenos Aires. Desta forma, junto com a Aerolíneas Argentinas, o líder sindical possui influência sobre o transporte de cargas em todo o país.

Em troca dos favores recebidos, Moyano pode mobilizar seus 140 mil caminhoneiros para realizar piquetes nas estradas com seus veículos para pressionar inimigos políticos dos Kirchners ou empresas que não estão alinhadas com o governo.

No empresariado, Moyano tem fama de “truculento”. Em diversas ocasiões bloqueou as estradas de acesso às fábricas da Quilmes (adquirida em 2002 pela brasileira AmBev), boicotou a distribuição de jornais opositores aos Kirchners, além de fazer piquetes contra empresas que não aderiram ao congelamento de preços do governo.

Moyano colocou seus filhos Facundo e Pablo em postos cruciais dentro do sindicalismo argentino.

UM MINISTRO, PRIMEIRO. E DEPOIS, SER PRESIDENTE – Nos últimos seis anos Moyano respaldou ativamente a política econômica dos Kirchners. Mas, no mês anterior às eleições o líder sindical começou a pressionar o casal aliado, para obter mais vantagens.
O filho de Moyano, Pablo, que comanda o ativo Sindicato dos Caminhoneiros, declarou que “já é hora” que a CGT conte com pelo menos um ministério dentro do gabinete da presidente Cristina.

E poucos dias antes das eleições o próprio Hugo Moyano indicou que possui aspirações políticas mais elevadas e ressaltou que poderia ser candidato presidencial nas eleições de 2011.
Seus aliados afirmam que “se Lula, um sindicalista, conseguiu chegar à presidência do Brasil, Moyano também poderia ser presidente da Argentina”.

MOYANO TAMBÉM TEM PROBLEMAS – Além da peronista CGT, tradicional reduto dos grandes sindicatos, também existe a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), com influências da esquerda, criada há 15 anos, concentrada na representação do funcionalismo público.

A terceira central, que surgiu em meados do ano passado, é uma dissidência da CGT, a CGT Azul e Branca. Ela é comandada por José Luis Barrionuevo, o polêmico líder do sindicato dos restaurantes e bares.

Barrionuevo é um problema para Moyano. Nos últimos dias Barrionuevo aproveitou a derrota dos Kirchners e começou a mobilizar os sindicatos da dissidência além de aliados de Moyano dentro da CGT (aliados ma non troppo) para derrubar seu rival e tomar o controle de toda a central sindical.

Mas, tanto como Moyano, Barrionuevo tampouco tem boa imagem entre a população. Ele ficou famoso nos anos 90 pelas seguintes frases:
– “Para que a Argentina progrida, a gente tem que deixar de roubar pelo menos durante dois anos”

– “Neste país ninguém faz dinheiro trabalhando”

SEM OS BARÕES – Os Kirchners já não podem mais contar como aliados com os prefeitos dos municípios da Grande Buenos Aires – outrora o principal reduto eleitoral do governo – já que nas recentes eleições parlamentares os líderes municipais conseguiram mais votos para seus candidatos a vereadores do que para a lista de deputados encabeçada por Néstor Kirchner.

De um total de 134 municípios na província de Buenos Aires, em 133 os candidatos a vereador do governista Partido Justicialista (Peronista) e sua sublegenda Frente pela Vitória tiveram maior votação do que o próprio Kirchner. Essa diferença foi encarada como uma “traição” pelos Kirchners, que consideram que os prefeitos fizeram mais campanha por si próprio do que pelo “Jefe”.

Com a dissolução da aliança com os denominados “barões bonaerenses”, os Kirchners contam com a CGT como uma das últimas forças aliadas.

SEM INDUSTRIAIS – Os Kirchners tampouco contam mais com o setor industrial argentino, que desde junho está em rota de colisão com o governo. Por trás dos atritos entre o governo e o empresariado local está a estatização de empresas argentinas na Venezuela feita pelo presidente Hugo Chávez. A total ausência de protestos dos Kirchners a Chávez por essas medidas irritaram o empresariado. Na semana passada, na posse do novo ministro da economia no palácio presidencial, nenhuma liderança empresarial esteve presente, em sinal de desagrado.

SEM ESQUERDA – Setores localizados mais à esquerda no Peronismo kirchnerista, como a deputada Victoria Donda (ela é uma das 500 crianças que foram sequestradas pelos militares durante a última Ditadura Militar) e o deputado Miguel Bonasso já deixaram o casal Kirchner.

Outros setores da esquerda peronista também estão abandonando os Kirchners há vários meses. Estes setores consideram que os Kirchners não representam a esquerda, e os acusam de aliar-se com os caudilhos conservadores do peronismo das províncias do interior do país.

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E, como hoje é 14 de julho, aniversário da queda da Bastilha, uma data para celebrar, coloco abaixo a representação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, cujo original está no museu Carnavalet, em Paris.
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