Louis Pasteur, requisitado por Cristina Kirchner
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Louis Pasteur, requisitado por Cristina Kirchner

arielpalacios

02 de maio de 2010 | 19h47

blogpasteur 

Louis Pasteur (1822-95) jamais deve ter imaginado que seu invento poderia ser – metaforicamente – usado para indicar que a imprensa precisava “vacinas”. Pasteur no quadro feito em 1885 pelo finlandês Albert Edelfelt (1854-1905), exposta na sala Symbolisme do Museu D’Orsay, em Paris..

copia3 de mao4Na semana passada o casal Kirchner disparou uma nova saraivada de críticas contra a imprensa. A presidente Cristina Kirchner, durante uma visita à uma indústria farmacêutica que fabrica vacinas, não perdeu a oportunidade de fazer alusões sobre a hidrofobia e a mídia e sustentou que diversos jornalistas “deveriam ser vacinados com a antirrábica” por causa das críticas que fazem contra o governo.

Na sequência, quatro horas depois, em discurso a aliados do partido Justicialista (Peronista) e da Confederação Geral do Trabalho (CGT) – a maior central sindical do país – o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), atual deputado – e que poderia nesta terça-feira transformar-se no Secretário-geral da Unasul (isto é, no representante que a região teria perante o mundo) – também disparou contra a imprensa.

Segundo o cônjuge da presidente os meios de comunicação “são a primeira força da oposição” e uma “máquina de impedir”.

Ao longo dos últimos anos os Kirchners dispararam frequentes críticas principalmente contra jornalistas do Grupo Clarín, o jornal La Nación, a revista Notícias e o jornal Perfil, além de canais de TV e rádio.

‘TRIBUNAL POPULAR’ CONTRA JORNALISTAS

blogvinhetas19 A tensão entre o jornalismo argentino e o governo da presidente Cristina Kirchner intensificou-se mais ainda na quinta-feira com a realização de um “tribunal popular” convocado pela organização de defesa dos Direitos Humanos das Mães da Praça de Mayo para “julgar” diversos jornalistas por hipotética colaboração com a ditadura militar (1976-83).

O julgamento dos jornalistas – coincidentemente, todos críticos do casal Kirchner – foi duramente criticado pelos partidos de oposição e associações de defesa da liberdade de imprensa.

Integrantes do governo, como Miguel Pichetto, líder do bloco kirchnerista no Senado, defenderam o formato de julgamento “político e ético” preparado pelas Mães.

O tribunal, realizado em plena Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, o palácio presidencial, foi presidido pela líder das Mães, Hebe de Bonfini, que agiu como juíza auto-designada.

Bonafini, que na véspera do julgamento disse que as condenações já estavam definidas, tornou-se uma figura polêmica nas últimas duas décadas, já que respaldou ao grupo terrorista basco ETA, a guerrilha zapatista e até teceu longos elogios a Ossama Bin Laden.

Um dos integrantes do tribunal convocado por Bonafini foi Néstor Busso, designado pela presidente Cristina para o posto de diretor do Conselho Federal de Comunicação.

Entre os convidados de honra do tribunal estava, paradoxalmente, o jornalista esportivo Marcelo Araujo, que durante a pior fase da Ditadura Militar, em 1978, respaldou ativamente a realização da Copa do Mundo da Argentina (evento esportivo usado intensamente pelo regime para distrair a atenção da população sobre as graves violações aos Direitos Humanos).

No entanto, Bonafini deixou o passado de Araujo de lado, pois o jornalista, desde o ano passado, foi o escolhido pelos Kirchners para tornar-se o locutor oficial do estatal Canal 7, a TV Pública, que transmite todos os jogos de futebol (cuja transmissão foi estatizada pela presidente Cristina Kirchner, em troca de um suculento contrato com os clubes de futebol).

Uma das jornalistas colocadas no virtual banco dos réus, Magdalena Ruiz Guiñazú, acusou Bonafini: “esse tribunal foi inventado para restringir a liberdade de expressão”.

A jornalista retrucou as acusações da líder das Mães ao resgatar uma gravação de 1984 na qual Bonafini lhe agradece por ser a primeira jornalista argentina que divulgou a causa da organização, que procurava seus filhos, desaparecidos durante a ditadura.

Nas últimas duas semanas os muros da capital argentina foram cobertos com cartazes de autoria anônima com nomes e fotos de jornalistas que criticam a lei de mídia do governo, atualmente suspensa por determinação da Justiça.

Gabriel Mariotto, diretor do Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer), o principal organismo governamental que regula a mídia, defendeu a iniciativa, afirmando que tratava-se apenas de “uma expressão”.

Associações de jornalistas fizeram um apelo à presidente Cristina para deter o que denominaram de “linchamento público” de profissionais da mídia.

O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea), registrou em 2009 147 ataques contra jornalistas em todo o país. 

DISSIDÊNCIAS – A convocação não foi acompanhada de forma unânime pelas mães. Esse foi o caso das integrantes da organização “Mães-Linha Fundadora”, setor que separou-se de Bonafini há quase 20 anos. Esta ala prefere um perfil político mais baixo, e dedica-se exclusivamente à procura dos corpos de seus filhos desaparecidos durante a ditadura.

PRESSÕES

blogvinhetas19 Diversas oganizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que a Argentina passa atualmente por um dos “momentos mais críticos para a liberdade de imprensa” desde a volta da democracia, em 1983.

A tensão intensificou-se em março de 2008, quando a presidente Cristina acusou os meios de comunicação de liderar uma tentativa de “golpe de Estado”.

O sindicato dos caminhoneiros, aliado dos Kirchners, em diversas ocasiões realizou no ano passado bloqueios nas portas das gráficas dos jornais “La Nación” e “Clarín”, impedindo a distribuição dos exemplares em diversas ocasiões. A polícia, apesar de chamada, não apareceu para impedir os piquetes.

Segundo os empresários do setor de mídia, os meios de comunicação argentinos estão “sofrendo uma inédita campanha de insultos ao jornalismo por parte do poder político”. Além disso, criticam a distribuição que o governo faz da publicidade oficial, pois privilegia jornais favoráveis à administração Kirchner, mesmo que estes sejam de baixa circulação.

Além disso, as entidades jornalísticas criticaram “a recente negativa do governo em fornecer informação pública sobre as quantias” gastas na publicidade oficial por parte da presidente Cristina.

No ano passado o governo aprovou – no meio de uma votação cheia de irregularidades – a polêmica “Lei de Mídia”, que implica em uma série de limitações para as existentes empresas de mídia e favorece o surgimento de grupos de mídia alinhados com o casal Kirchner (além de favorecer a Igreja Católica).

A lei está temporariamente suspensa na Justiça. No entanto, o governo tenta reverter a situação com apelos nos tribunais. Há poucos dias o assunto foi remetido à Corte Suprema de Justiça.

blog1vinhetasmarca2 E para encerrar, algo mais light: o humor do grupo musical argentino Les Luthiers, nestes links:

http://www.youtube.com/watch?v=O-N9z34cVGA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=CoFWL5yEMMw

http://www.youtube.com/watch?v=plaVQTDGnEE&feature=related

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

blog1vinhetalendonewsstand3 …E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão 

Gustavo Chacra (Nova York): http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/

Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/ 

Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/

Adriana Carranca (Pelo Mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/ 

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