Mais Bioy Casares…
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Mais Bioy Casares…

arielpalacios

12 de março de 2009 | 16h00

…E aqui, algumas definições que Bioy Casares me deu nas duas entrevistas anteriores. Estas conversas, em 1995 e 1997, foram, respectivamente, em seu elegante – e sóbrio – apartamento da ‘calle’ Posadas, e no restaurante Lola, onde costumava almoçar.

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Borges e Bioy Casares no início de sua amizade

EM 1995
O AMIGO BORGES: “Uma das razões para ter tido uma vida feliz é a dele ter sido meu amigo. Todas as noites ele jantava nesta casa”. No entanto, sua relação com a viúva de Borges (falecido em 1986), Maria Kodama, era definida negativamente: “ruim, talvez porque o próprio Borges falava mal dela para mim. Me dizia: ‘quando ela não está comigo desejo que chegue, e quando chega, fico desejando que vá embora’ “.

SUICÍDIO – Apesar de escrever constantemente, Bioy Casares lia pouco na época, por causa da catarata no olho direito. Além disso, tinha fortes dores nas pernas, como resultado de uma violenta queda há oito anos. As restrições e o mal-estar físico não o faziam pensar na morte: “Nunca pensei em suicidar-me, mas de criança tinha um pouco de simpatia pelo suicídio. Parecia algo nobre. Agora não tenho uma opinião, embora pense que há circunstâncias que levam as pessoas ao suicídio. Mas a morte deve ser infinitamente mais chata que a vida. Queria viver mil anos. Acontece que gosto da vida, e por isso talvez não seja um entusiasta do suicídio. Não sou um entusiasta de estar morto. Não quero que a morte venha”.

UMA PARTE DE BUENOS AIRES: “Quando vinha um estrangeiro que nos parecia inteligente, Borges e eu o levávamos à Ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires. Não havia nada de destaque no lugar. Quando chegávamos no local, o visitante não entendia porque diabos o havíamos levado até ali. Mas Borges e eu gostávamos do lugar…”

EM 1997
FICÇÃO CIENTÍFICA: “A ficção científica é um gênero que nunca me convenceu totalmente. Não pense que estou tão feliz de fazer literatura fantástica. Adoraria escrever livros onde não houvesse nada de fantástico, mas minha mente faz o contrário”.

Durante a feira do livro de Buenos Aires de 1997 Bioy Casares havia voltado ao gênero da ficção científica, e lançou “De um mundo a outro”. “A verdade, é que não lembro direito do último livro”, me disse o escritor enquanto cumpria um ritual diário: almoçar seu prato preferido – raviolis francoforti – no restaurante “Lola”, na frente do cemitério da Recoleta.

“Me sinto velho”, explicou na sequência. “Pelo menos recordo as linhas gerais do livro. É a história de uma garota astronauta e seu namorado jornalista, que partem em um aparelho que pode voar de um mundo a outro. Seu destino é o décimo mundo de um sistema solar, mas quando vão pelo sétimo acabam caindo. É um mundo onde as pessoas não são descendentes dos macacos, mas dos pássaros, e têm bicos. Ali passam um tempo, e depois retornam, e que tudo termina bem”.

PROCESSO DA ESCRITA: Entre uma garfada e outra, Bioy Casares me explicou que seu processo de escritura começa com uma ideia geral, seguido por um convite a um almoço: “chamo alguma amiga, sempre mulher, para ouvir minha história enquanto comemos. Dependendo da reação, me sinto estimulado a continuar ou deixar. Se for o caso de abandonar o projeto, começo outro logo em seguida. Mas se a reação é positiva, vejo quais são os pontos dessa ideia geral que podem me causar dificuldades e tento solucioná-los. Quando acho que consegui isso, começo a escrever. Geralmente quando chego a esses pontos, percebo que tenho que resolvê-los outra vez…(ri)”.

Bioy Casares confessou que o primeiro parágrafo é o mais difícil. “Tenho a impressão que cada vez que tenho que começar a escrever, começo a aprender a escrever com esse livro…Toda aquela primeira página por diante, conseguir que o primeiro parágrafo seja bem seguido por outro…são dificuldades enormes. Depois aprendo a escrever esse livro, e o ritmo passa a ser mais ou menos regular”.

Sua vida era rotineira, explicou: “acordo, tomo banho, faço a barba e começo a escrever. Noto minha velhice porque as noites parecem cada vez mais curtas. Às vezes acho que é de dia, olho o relógio, e são as cinco da manhã. Sinto um imenso desgosto, fico quieto, tento dormir um pouco mais e às sete saio da cama. Durmo pouco, mas faço a siesta. Escrevo muito, porque além do almoço, não saio. Minha ‘máquina de escrever’ são três canetas ‘Pelikan’, e geralmente busco a que tem tinta (ri)”.

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Os dois amigos, no fim de suas vidas

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