Mandatos interruptus: Desde 1989 a América do Sul teve 12 mandatos presidenciais que acabaram antes do prazo original
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Mandatos interruptus: Desde 1989 a América do Sul teve 12 mandatos presidenciais que acabaram antes do prazo original

arielpalacios

27 de junho de 2012 | 18h52

A América do Sul quando era teenager: Mapa de 1596 de Jan Huygen van Linschoten.

Os países da América do Sul tiveram doze interrupções de mandatos presidenciais desde 1989, segundo um levantamento feito pelo Centro de Estudos Nueva Mayoría. Desta forma, em pouco menos de um quarto de século ocorreu na região uma interrupção a cada dois anos. Dos doze países da área, somente três – o Uruguai, o Chile e a Colômbia – não tiveram esse tipo de turbulência política. A Argentina, Bolívia e Equador ocupam o topo do ranking de interrupções presidenciais.

O Paraguai, que teve a abrupta queda do presidente Raúl Cubas Grau em 1999, acumula com a remoção de Fernando Lugo duas interrupções de mandatos desde a volta da democracia no país em 1989.

O diretor do Nueva Mayoría, o analista político Rosendo Fraga, disse ao Estado que “nos últimos anos os presidentes sul-americanos haviam deixado de cair, já que a América do Sul teve nesta década o maior crescimento econômico de sua História”. No entanto, ressaltou que “este crescimento está sendo brecado, em grande parte pela crise global. E por isso, a instabilidade institucional volta a alguns países da região”.

Segundo Fraga, “nas últimas eleições presidenciais, antes da crise econômica, os governos de plantão na América do Sul venceram nas urnas. Mas, como diria o ex-presidente americano Bill Clinton, ‘é a economia, estúpido’. Fernando Lugo caiu exatamente em um ano que a economia do Paraguai tem o menor crescimento de sua presidência”.

Fraga sustenta que a freqüência das interrupções dos mandatos presidenciais constitui um “sinal de alarme” sobre o desempenho institucional da América do Sul. 

“Paraguay”, ocupando boa parte do Cone Sul, em mapa de Jacques Nicolas Bellin, de 1760

DA VENEZUELA, PASSANDO PELA ARGENTINA, ATÉ O PARAGUAI – A lista de interrupções começa com o argentino Raúl Alfonsín (1983-89), que renunciou seis meses antes do fim de seu mandato, no meio do caos da hiperinflação, greves gerais e ameaças de levantes militares.

Em 1992 foi a vez do presidente brasileiro Fernando Collor de Mello, que renunciou poucas horas antes antes de ser condenado pelo Senado por acusações de corrupção. Oito meses depois, na Venezuela, o presidente Carlos Andrés Pérez, politicamente isolado e abandonado por seu partido, foi acusado de corrupção e destituído após um período turbulento de revoltas sociais – denominadas de “El Caracazo” – e dois levantes militares (uma dessas tentativas de golpe foi protagonizado pelo então golpista tenente-coronel Hugo Rafael Chávez Frias).

Em 1997, o presidente do Equador, Abdalá Bucaram, apelidade de “El Loco” (O Louco) protagonizou uma série de escândalos de corrupção que provocam uma greve geral. No meio da turbulência política, o Congresso declarou Bucaram mentalmente incapaz e designou o presidente do Parlamento como chefe interino do Poder Executivo. Durante cinco dias Bucaram não aceitou a destituição, até que pediu asilo no Panamá.

Em 1999, oito meses depois de sua eleição, Raúl Cubas Grau fugiu do Paraguai. O país estava imerso em um grave conflito interno do Partido Colorado, que havia governado o país por mais de meio século. O assassinato do vice-presidente Luis María Argaña foi o estopim de uma revolta social que provocou a queda de Cubas Grau.

No mesmo ano caiu o presidente peruano Alberto Fujimori após iniciar seu terceiro mandato. No meio de um escândalo de corrupção envolvendo seu principal assessor, Vladimiro Montesinos, Fujimori fugiu para Tóquio, onde renunciou.

No ano 2000, o Equador voltou a ser o cenário de turbulências sociais. Após o caos causado pela desvalorização da moeda, o presidente Jamil Mahuad é forçado à renúncia por setores militares, sindicais e indígenas. Seu vice, Gustavo Noboa, completa o mandato. No entanto, o seguinte presidente, Lucio Gutiérrez, mergulhou o país em mais uma crise. Ele não consegue completar seu período de governo e renunciou em abril de 2005.

Em 2001 foi a vez do argentino Fernando De la Rúa, que renunciou após uma onda de saques na Grande Buenos Aires e protestos na frente do próprio palácio presidencial que causaram a morte de 32 pessoas.

Em 2003 a Bolívia é assolada por uma grave crise social e política. Gonzalo Sánchez de Losada renuncia depois de estar catorze meses no poder. Nos oito meses prévios à queda de Sánchez de Losada as violentas manifestações sociais exibem um saldo de 130 mortos. Seu vice, Carlos Mesa, assume a presidência do país. Mas, em junho de 2005, depois de fortes convulsões sociais, também renunciou.

Na semana passada, Lugo tornou-se o décimo-segundo presidente sul-americano a sofrer a interrupção de seu mandato.

  

AS INTERRUPÇÕES PRESIDENCIAIS

1989 Argentina Raúl Alfonsín 66 meses no poder

1992. Brasil Fernando Collor 31 meses

1993 Venezuela Carlos A. Pérez 50 meses

1997 Ecuador Abdalá Bucarám 8 meses

1999 Paraguai Raúl Cubas 8 meses

2000 Equador Yamid Mahuad 18 meses

2000 Perú Alberto Fujimori 4 meses

2001 Argentina De la Rúa 24 meses

2003 Bolivia Gonzalo Sánchez 14 meses

2005 Equador Lucio Gutiérrez 27 meses

2005 Bolívia Carlos Mesa 20 meses

2012 Paraguai Fernando Lugo 46 meses

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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