Niccolò Machiavelli em guarani
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Niccolò Machiavelli em guarani

arielpalacios

19 de abril de 2009 | 18h53

maquiavel
O autor do best-seller “O Príncipe”, retratado pelo pintor Santi di Tito em 1500. Segundo analistas, no Paraguai, o astuto florentino não teria passado de um aprendiz

Entender o Paraguai é crucial para o Brasil. Motivos existem de sobra. Alguns deles: a hidrelétrica de Itaipu, sua participação como um dos quatro sócios plenos do Mercosul, a produção de soja dos fazendeiros brasileiros que ali investiram intensamente recentemente, além dos brasiguaios que nesse país residem há mais de 40 anos (estimados – de acordo com os mais variados cálculos – entre 250 mil a 600 mil pessoas).

Apesar de todos esses fatores, o Paraguai ainda é pouco conhecido – e escassamente compreendido – no Brasil.

Nesta segunda-feira completa-se um ano da vitória do ex-monsenhor Fernando Armindo Lugo Méndez nas eleições presidenciais paraguaias. Na ocasião o ex-clérigo obteve 40,3% dos votos, derrotando Blanca Ovelar, a candidata do Partido Colorado, organização política que havia estado 61 anos ininterruptos no poder.

Lugo, cuja carreira política foi meteórica após deixar o púlpito, chegou ao poder com o respaldo da coalizão Aliança Patriótica para a Mudança (APC), uma colcha de retalhos de partidos de extrema esquerda, grupos de sem-terra, associações de camponeses, movimentos indígenas, mas também empresários e políticos de centro e de centro-direita (estes últimos, sua base real no Parlamento).

Para tentar explicar um pouco mais sobre esse fascinante país, aqui segue um pequeno glossário da política paraguaia.
Os verbetes estão em guarani, idioma no qual os paraguaios preferem expressar as complexidades da intrincada política local.
Os analistas afirmam que se o florentino Niccolò Machiavelli – o Maquiavel (1469-1527) – tivesse conhecido o Paraguai, sentir-se-ia um aprendiz.

ATENÇÃO: O vocabulário paraguaio bem serviria para aplicação em outros países da região…

Pokaré – Ipsis literis, significa “mão retorcida”. Mas, segundo o falecido sociólogo paraguaio Helio Vera, o termo é utilizado para indicar um comportamento de lideranças políticas que consiste na mistura de astúcia, descaro, cinismo e traição.
Vera explicava que o ‘pokaré’ é a valorização da esperteza (em vez da coragem).
“Sobrevivente por instinto, o paraguaio preferirá sempre os sigilos da raposa do que os ferozes rugidos do tigre”, dizia Vera.
Exemplo dessa esperteza maquiavélica: Nicanor Duarte Frutos, quando era presidente – segundo dizia a Oposição na época da reta final de seu mandato – teria realizado um brilhante exercício de ‘pokaré’ ao colocar um inimigo seu, o general Lino Oviedo, fora da prisão (onde cumpria pena por tentar um golpe de Estado) só para tentar roubar parte do eleitorado do então ex-bispo Fernando Lugo (que finalmente foi eleito presidente).
Segundo o politólogo José María Costa “na campanha eleitoral de 2008, que envolvia uma feroz disputa, o pokaré esteve muito presente”.

Yvytuísmo – ‘Yvytu’ significa “vento”. O termo ‘yvytuísmo’ indica “estar a favor do vento que sopra”. É aplicado sobre os políticos que mudam de posição de acordo com a conveniência, mesmo que isso implique em trair os colegas. Vira-casaca.
“Tudo é questão de aderir fervorosamente à corrente eólica predominante”, ironizava Vera.
Desta forma, um político que ontem à noite podia ser um frenético liberal, hoje de manhã poderia acordar e logo em seguida alardear ser o mais fervoroso colorado. Segundo Costa, “geralmente, no politico paraguaio é difícil definir uma posiçao ideológica. A mimetizaçao política é um esporte”.

Aájata aju – “Vou embora para vir”. A frase indica que o retorno de um político (ao partido, por exemplo) não fica comprometida.

Che ruvicha – “Meu chefe”. Expressão muito útil para demonstrar obediência.

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O general Stroessner – que governou o país durante 25 anos – era o “ruvicha” que adorava muito “mongele’e”

Mongele’e – A lisonja rasgada. O elogio exultante que os políticos de segundo escalão realizam aos donos do poder.
“Aqueles elogios barrocos que Odorico Paraguassu fazia em ‘O Bem-Amado’ são amadores perto daqueles que fazem aqui”, me explicou no ano passado um veterano diplomata paraguaio que conheceu bem o Brasil nos anos 80.

Ijapú – “Mentiroso”. Era uma das palavras preferidas da Oposição para referir-se a Nicanor Duarte Frutos quando governava. Atualmente, alguns integrantes da Oposição atual aplicam o mesmo adjetivo ao presidente Lugo.

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“Lugo Ijapú”, dizem os críticos do atual presidente paraguaio, depois que descobriu-se que o ex-bispo, que havia feito voto de celibato, era pai de um menino – Guillermo Armindo – de dois anos. Os aliados de Lugo retrucam e afirmam que muitos opositores do presidente ex-monsenhor não podem jogar a primeira pedra

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Para aqueles que quiserem conhecer mais a literatura paraguaia, recomendo o livro “Yo el Supremo” (Eu, o Supremo), do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos, Prêmio Cervantes. A saborosa obra trata da vida do primeiro grande ditador paraguaio, José Gaspar Rodríguez de Francia.
http://es.wikipedia.org/wiki/Yo_el_supremo

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