Discursos de Hitler ‘embalavam’ sessões de tortura na Argentina
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Discursos de Hitler ‘embalavam’ sessões de tortura na Argentina

arielpalacios

04 de setembro de 2009 | 01h30

Caras e caros, para encerrar a semana relativa aos 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial e seus efeitos na Argentina (inclusive, décadas depois), postagem dupla: falaremos sobre a utilização de simbologia nazista na época da última Ditadura Militar argentina (1976-83) durante as torturas aos prisioneiros judeus, além dos neonazistas argentinos que fazem a clássica saudação com o braço esticado e admiram os ‘smurfs’ como modelo de hierarquia a seguir.
Neste sábado o assunto será o futebol, esse esporte de origem britânica que há um século era jogado por homens que se comportavam como cavalheiros. E, as torcidas idem. Há um século, como disse…
A postagem, mais especificamente, será sobre um jogo entre o Brasil e a Argentina em 1912

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General Jorge Rafael Videla: o regime que implantou aplicou especial sanha contra os prisioneiros judeus

O “rectoscopio” – introdução no ânus ou na vagina dos prisioneiros de um tubo metálico com um rato vivo dentro, que mordia e destroçava os órgãos internos – era o denominado “tratamento especial” que os militares da última Ditadura (1976-83) apreciavam aplicar aos integrantes da comunidade judaica argentina. Segundo testemunhas, as torturas aplicadas aos judeus foram muito mais sádicas do que as realizadas aos outros desaparecidos políticos.

A comunidade judaica, que nos anos 70 era de 290 mil pessoas (a maior da América Latina), equivalia a 1,2% da população total.
No entanto, o número de judeus mortos pela Ditadura é de 2.000 pessoas, o que os transforma em 6,33% dos desaparecidos.

Segundo o Centro de Estudos Sociais da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), por trás da sanha aplicada a esse setor da população argentina, estava o tradicional antissemitismo das Forças Armadas deste país.

O contato dos militares argentinos com o Terceiro Reich foi intenso durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país permaneceu neutro.
Após a guerra, milhares de criminosos de guerra nazistas fugiram para a Argentina, onde repassaram know-how de torturas e guerra psicológica às Forças Armadas locais. Atualmente existem diversos grupos neonazistas neste país.

SAUDAÇÃO
O “Horst Wessel lied”, a emblemática marcha do Partido Nazista alemão era o fundo musical das torturas nos centros clandestinos de detenção da ditadura argentina.
Dependendo da ocasião, em vez de marchas, os oficiais preferiam gravações de discursos de Adolf Hitler.
Quadros do Führer decoravam a sala de torturas.

Os prisioneiros eram obrigados a levantar a mão direita e exclamar a frase “Eu amo Hitler!”.
Os torturadores gravavam suásticas à ponta de faca nas testas e costas dos prisioneiros. No caso das mulheres, marcavam a suástica entre os seios.

Os prisioneiros eram proibidos de usar seus nomes. Tal como nos campos de concentração do Terceiro Reich, eles eram registrados por números.

Era costumeiro que os prisioneiros judeus fossem obrigados a latir e movimentar-se como se fossem cachorros, apoiando as mãos no chão.

PARANOIA
Os prisioneiros dessa comunidade eram acusados de conspirar contra a civilização cristã. A paranóia do regime levou vários generais a acreditar que Israel, com o apoio dos judeus argentinos, aplicariam o “Plano Andinia”, um mirabolante suposta conquista “sionista” da Patagônia, onde instalariam “kibutz” socialistas.

Aqui vai um link sobre essa delirante paranoia dos militares e grupos neonazistas argentinos:
http://es.wikipedia.org/wiki/Plan_Andinia

O jornalista Jacobo Timermann, dono de alguns dos mais importantes jornais e revistas da Argentina nos anos 70, apesar de suas posições conservadoras e de não simpatizar com a esquerda (ele até apoiou o golpe no início, para depois arrepender-se), foi sequestrado pelos militares, que o torturaram violentamente, exigindo que revelasse detalhes do Plano Andínia.

Diversos integrantes da comunidade judaica foram obrigados a passar “voluntariamente” todos os bens a comandantes militares. Esse foi o caso do banqueiro Eduardo Saiegh, que foi torturado durante sete dias até entregar tudo o que possuía. “Não havia improviso nas torturas. Eram profissionais”, relatou.

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Sinagoga da praça Lavalle, a maior da Argentina. O edifício é parte do patrimônio histórico da capital argentina

NEO-NAZISTAS ARGENTINOS QUERIAM CRIAR “QUATRO REICH”

Nomes longos não são os mais adequados para que uma multidão fanática grite o nome de seus Ditadores preferidos: Hitler teve a sorte de ter um sobrenome com duas sílabas, da mesma forma que Stálin e Franco. Mussolini percebeu sua desvantagem e desde cedo se fez chamar pelo sonoro apelido de “Duce”.
O pai de Hitler, Alois, filho ilegítimo, usou durante 38 anos o nome materno, Schicklgruber. Depois tomou o sobrenome do padrasto, ‘Hiedler’, que foi posteriormente registrado como ‘Hitler’. Se não tivesse sido assim, teria passado o sobrenome Schicklgruber para o filho, que por um fio não foi ‘Adolf Schicklgruber’.
Mas, quem teria gritado “Heil Schi-ckl-gru-ber!”??

O argentino Alejandro Biondini, sabendo disso, recorreu ao breve nom-de-guerre de “Kalki”, com o qual seus seguidores o saúdam. A palavra origina-se na mitologia hindu, pois indica o “deus” que virá ao mundo para acabar com a era de “escuridão” e impor uma “nova ordem”.

Biondini, conhecido também pela irônica denominação de “el pequeño führer argentino”, foi durante 19 anos o líder do Partido Nuevo Triunfo (PNT), até a dissolução do partido em março deste ano.

Entre os seguidores existe a lenda de que Hitler, quando estava morrendo em Berlim em maio de 1945, teria tido forças para indicar em um mapa-múndi – com o dedo indicador trêmulo – a Argentina. Murmurando, teria dito: “daqui virá o novo líder”.

Os militantes trajavam-se (nas ocasiões especiais) como os camisas pardas das SA, as primeiras tropas de choque que Hitler criou.

O PNT, enquanto existiu (e agora, seus seguidores, mesmo sem a égide formal de um partido), celebrou o “Dia do Partido” no dia 20 de abril, coincidentemente, o aniversário de Adolf Hitler.

‘El pequeño führer’ considerava, sem modéstia, que ele próprio era a pessoa mais adequada para ser o líder de uma “Nueva Argentina”: “estou me preparando desde os 16 anos para governar este país”.

Sua agenda também incluía “uma pétrea educação moral” e “a eliminação da comunidade homossexual”, que segundo ele, “infecta a Argentina”.

Os neonazistas locais costumam vociferar contra a “castração da projeção geopolítica” de seu país (entre os nacionalistas argentinos é clássico o argumento de que o país teria que recuperar seus “antigos territórios” do Vice-Reinado do Prata: parte do Rio Grande do Sul, o Uruguai, Paraguai, Bolívia, e parte do Chile).

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Neonazistas argentinos consideram que o país deveria ter como fronteiras os antigos limites da divisão administrativa da colônia espanhola, isto é, o Vice-Reinado do Rio da Prata

SMURFS SÃO ARIANOS; SIMPSONS SÃO BOLCHEVIQUES-PSICOANALÍTICOS

Segundo Raúl Kollmann, um dos principais especialistas em neonazismo na Argentina, os debates entre os neonazistas locais vão desde a política tradicional até a politização nos desenhos animados.

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Smurfs são “OK” para neo-nazistas portenhos. Simpsons são “bolcheviques-psicoanalíticos”

Entre todos, os preferidos são os “Smurfs”, já que todos obedecem a Papai Smurf, o que indica o respeito à autoridade.
Além disso, a única fêmea da tirinha é “ariana”, a Smurfete, que ostenta longos cabelos loiros.
O inimigo deles é Gargamel, personagem que os neonazistas argentinos identificam como “judeu” com “roupa de rabino”.

“Os Simpsons”, nesses debates, são abominados, pois a série – segundo eles – é “bolchevique e psiconalítica”.

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