“Minha amizade com Cortázar começou com um plágio” (Manuel Antín fala sobre seu amigo Julio no centenário do nascimento do escritor)
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“Minha amizade com Cortázar começou com um plágio” (Manuel Antín fala sobre seu amigo Julio no centenário do nascimento do escritor)

Se o inconveniente Universo não tivesse descontinuado o escritor Julio Cortázar em 1984, o pai dos Cronópios assopraria hoje - 26 de agosto - 100 velinhas.

arielpalacios

26 de agosto de 2014 | 08h30

Foto de Manuel Antín e seu amigo Julio Cortázar em 1962 durante a adaptação do conto “Circe” ao cinema. Os dois reuniram-se no vilarejo de Sestri Levante, na costa da Ligúria, Itália.

A decisão – em 1962 – de plagiar o escritor Julio Cortázar fez Manuel Antín tornar-se um dos principais cineastas cult da Argentina. “A única forma legítima de plagiá-lo era transformar um livro seu em um filme. Isto é, em outra forma de linguagem”, explicou Antín em entrevista ao Estado. Uma carta endereçada ao escritor para solicitar o ‘plágio’ deu início a um intercâmbio epistolar de mais 200 cartas entre Buenos Aires e Paris. Foi o início de uma longa amizade com admirações mútuas.

Antín dirigiu, baseados em contos de seu amigo, “Cartas de mamãe”, “Circe” e “A intimidade dos parques” (a fusão dos contos “O ídolo das Cíclades” e “Continuidade dos parques”. Aos 88 anos, Antín – diretor da Universidade do Cinema no bairro de San Telmo – afirma que “Cortázar me dizia que queria ter sido diretor de cinema, como eu. E eu respondia que queria ter sido escritor, tal como ele…”.

Estado – Como conheceu Julio Cortázar?

Antín – O conheci como se conhecem os escritores: com um livro na mão. Havia ido de visita a uma casa de um amigo e, enquanto o esperava que ele terminasse de se arrumar para ir ao cinema, fui até a biblioteca da casa e peguei um livro aleatoriamente. Era “Armas Secretas” de Julio Cortázar. E ali, em pé, li um dos contos, o “Cartas de mamãe”. Naquela época ele não era conhecido popularmente. Somente seus leitores fanáticos o conheciam. Eu sempre quis escrever e nunca consegui qualquer tipo de transcendência com minha escritura. Mas, quando li esse conto, pensei “queria ter escrito isso”. Mas já estava escrito. Como não era um escritor conhecido, a única alternativa era plagiá-lo (ri). E a única forma mais legítima – ou legal -de plagiá-lo era transformá-lo em um filme. Isto é, um plágio em outra forma de linguagem. Nunca antes havia pensando em fazer cinema, embora tivesse colaborado em dois roteiros! O longa-metragem debutou nos cinemas portenhos em novembro de 1962. Quis levar esse conto ao celuloide, porque me fascinou, tal como me fascinou toda a obra de Cortázar…enquanto durou Cortázar, isto é, antes da barba.

Estado – Como é sua teoria literária-política relativa à pilosidade facial de Cortázar?

Antín – Cortázar – na minha opinião – teve duas etapas: a época imberbe e a época barbuda. Não há nada de ruim nisso. Todos somos uma, duas, três ou quatro pessoas em diversas etapas de nossos vidas. Mas o Cortázar da barba é o Cortázar que removeu dele parte do tempo para escrever e destiná-lo à política. Esta segunda época é um período politizado de Cortázar, mais por influências do que por convicções, com viagens à Cuba e à Nicarágua. Os últimos livros dele, como o “Livro de Manuel”, não tem a mesma hierarquia de “Armas Secretas” ou “O jogo da Amarelinha”.

Estado – Quais são seus contos preferidos de Cortázar?

Antín – Coincidentemente são os contos que escolhi para filmar: “Cartas de mamãe” e “Circe”. E os contos “O ídolo das Cíclades” e “Continuidade dos parques”, que fundi em um único filmes, com o título de “A intimidade dos parques”. Há um quinto conto, que não pude filmar, porque um colega passou na minha frente, “El Perseguidor”. Reli o livro “O jogo da amarelinha” recentemente. E pensei que – da mesma forma como o leitor pode interagir nesse livro trocando a ordem dos capítulos – pensei em um filme interativo para computador. Escrevi à Aurora Bernardes, ex-mulher de Cortázar, sobre o assunto. Mas não deu certo. E, a realidade, é que para mim seria difícil voltar ao cinema 30 anos após tê-lo deixado…

Estado – Os contos de Cortázar e dos escritores de realismo fantástico são menos maleáveis ao cinema do que outros?

Antín – Sou fiel aos contos. Mas geralmente, os adaptadores cinematográficos, quando transferem a literatura ao cinema fazem mudanças de acordo com o interesse do público. E, como o cinema depende muito do dinheiro, é preciso fazer concessões. Mas, nunca fiz concessões. Nunca me interessou o que o público pensava. Meus filmes não tiveram sucesso de bilheteria nas estréias. Talvez anos depois,. Mas, foram sucessos de crítica. No meu caso, tenho mais devoção pela literatura do que pelo cinema. Cortázar era muito mais cinéfilo do que eu…

Estado – Cortázar perdeu os originais de um livro seu, “Veneráveis todos”…

Antín – Meu segundo filme está baseado em meu primeiro livro, inédito. Quando vimos o filme em Cannes em 1963, Cortázar saiu do cinema e me disse que não havia entendido o filme direito. “Me envia o manuscrito, que depois te devolvo”, disse ele. Voltei a Buenos Aires e enviei o texto pelo correio. Mas, como não havia sido publicada e a fotocópia não era comum há 51 anos, mandei meu manuscrito. Não tinha cópias. Mas naquela época dava para confiar nos correios. Cortázar, que era tradutor na Unesco em Paris, teve que viajar a Viena e levou o manuscrito, de forma a lê-lo em algum momento de tédio. Mas, quando foi embora do hotel, esqueceu o manuscrito. Aí ele me escreveu, preocupado, pedindo desculpas pelo que havia acontecido. Uns dois anos depois me enviou uma fita com comentários sobre Circe. E junto com isso os originais de “Jogo da Amarelinha” para entregá-los ao editor Paco Porrúa, que era amigo nosso. Aquelas páginas datilografadas eram as únicas, sem cópia, tal como meu livro. Minha primeira intenção foi a de levar o livro ao Paco e dizer “olha, aqui este este livro meu”. Mas, a História demonstra que não fiz isso (risos) e que entreguei essa obra maravilhosa ao editor…

Estado – Como definiria Julio Cortázar do ponto de vista literário?

Antín – Tenho uma única definição: é o único escritor que gostaria de ter sido. E olhe que li grandes escritores argentinos, brasileiros, europeus…mas nunca li um deles como se fosse eu que estivesse escrevendo o que estava lendo. Com Cortázar eu sinto isso. Cortázar escrevia sobre coisas que misteriosamente também haviam me ocorrido. Cortázar navega no realismo fantástico, no sentido misterioso das causalidades. Toda sua literatura nesta apoiada nesse elipse.

Estado – Continua relendo os livros de seu amigo?

Antín – Sim. Especialmente “O Jogo da Amarelinha”. Um livro maravilhoso.

Estado – Poderia contar um causo sobre seu amigo?

Antín – Cortázar me autorizou a fazer a versão cinematográfica de “A cifra ímpar”, baseado em seu conto “Cartas de mamãe”. Posteriormente veio a Buenos Aires e vimos sozinhos o filme na sala de um estúdio no bairro de Núñez. Júlio sentou-se na fileira atrás da minha. O enredo é sobre dois irmãos que disputam a mesma mulher. Em uma cena do filme a mãe sobe uma escada. Seu filho Luis fala com ela sobre a amada: “mãe, Laura é como você. Laura é você”. Nesse momento Cortázar colocou sua mão sobre meu ombro e me diz: “garoto, agora é que entendi meu próprio conto”. É algo para mim inesquecível, que me comove.

Estado – Como foram os últimos minutos de Cortázar?

Antín – Cortázar, à beira da morte, quis voltar para sua casa em Paris, para ter ali seus derradeiros momentos. Ao chegar, pediu que sua ex-mulher Aurora, colocasse no toca-discos o long play com o concerto para clarineta e orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart. Mais especificamente, o segundo movimento. Aurora colocou o disco….e (faz uma pausa, emocionado) Cortazar morreu, ouvindo essa maravilha.

O segundo movimento do concerto para clarinete e orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart. Claudio Abbado na batuta. Sabine Meyer no clarinete


hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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