Mitos e fatos de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón (e um pouco de epígrafes e ego-cartografia)
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Mitos e fatos de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón (e um pouco de epígrafes e ego-cartografia)

arielpalacios

26 de julho de 2012 | 12h05

Capa desta semana da revista satírica “Barcelona”, retratando Evita como a “Mulher Maravilha”. Na tiara, o escudo peronista.

Hoje completam-se 60 anos da “passagem à imortalidade de Eva Perón” (essa é a expressão usada, inclusive oficialmente, pelos peronistas para referir-se à morte de Evita). A denominada “Porta-estandarte dos humildes” morreu no dia 26 de julho de 1952, às 20:25 horas. Seis décadas depois de sua morte ela é usada como símbolo político pela direita e a esquerda. Veremos aqui uma série de mitos e fatos sobre a primeira-dama mais famosa da História da Argentina.

NASCIMENTO

– Evita dizia, quando estava viva, que havia nascido no dia 7 de maio de 1922.

– Mas, a partir dos anos 70, historiadores peronistas descobriram que ela havia nascido, na realidade, no dia 7 de maio de 1919.

MORTE

Evita morreu oficialmente às 20:25 horas do dia 26 de julho de 1952 no Palácio Unzúe, a residência presidencial, localizada no bairro da Recoleta, onde hoje está a Biblioteca Nacional. Durante muitos anos os argentinos acreditaram que ela havia morrido com 30 anos. Mas, na realidade, morreu com 33.

TÚMULO

Evita está enterrada desde 1976 no cemitério da Recoleta, no mausoléu da família. Na realidade, o mausoléu pertencia a um cunhado seu, o major Arrieta. Ali, além de Evita e sua mãe, estão Arrieta e outros cinco parentes. Além desses caixões, duas urnas funerárias com as cinzas de duas empregadas da família.

NOMES

Eva Maria Ibarguren: nome de nascimento de Evita, com o nome de solteira de sua mãe.

Maria Eva Duarte: nome da certidão da nascimento falsa que ela forjou em 1945, poucos dias antes de casar com Perón (os historiadores peronistas confirmam), onde aparece o nome do pai, que nunca a reconheceu.

Maria Eva Duarte de Perón: o nome que passou a usar depois do casamento com Juan Domingo Perón.

APELIDOS oficiais usado pelo governo de Perón na época

– “Mãe dos pobres”.

– “Protetora dos trabalhadores”

– “Porta-estandarte dos humildes”

– “Mãe espiritual da pátria”

APELIDOS não-oficiais

“Evita” – Nome com o qual era chamada carinhosamente

“La Señora” – A senhora. Forma como era chamada pelos integrantes do governo

“Esa Mujer” – Essa mulher. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Yegua” – A égua. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Perona” – Forma como era chamada por seus críticos. No entanto, na Espanha essa expressão tinha um tom positivo sobre Evita.

 MITOS

Ao longo da vida de Evita Perón – e especialmente após sua morte – surgiram uma série de lendas sobre a “Porta-estandarte dos humildes”. Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood. Entre as principais falhas e lendas estão…

1 – Classe social: A lenda mostra Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

2 – Partida para a cidade grande, na cara e na coragem: Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi nem com o cantor Agustín Magaldi e sequer transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

3 – Expulsa do velório: Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. A sobrinha-neta de Evita, Cristina Álvarez, presidente da Fundação Evita, desmentiu o tal mito no ano passado. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita (que concentra a maior documentação no mundo sobre a defunta primeira-dama), as duas famílias – a oficial e a paralela – “se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório”.

4 – Líder revolucionária: Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado – e posterior marido – Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no braço-direito do marido.

5 – Che Guevara, pé de valsa: Outro erro é o de colocar Ernesto “Che” Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che – que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón – considerava Evita e seu marido uns “representantes do fascismo”. E, evidentemente, nunca ocorreu a cena de Evita dançando com o Che Guevara. Ele, que a partir de 1956 foi um dos protagonistas da guerra de guerrilhas na Sierra Maestra contra o regime de Batista, admitia que dançava péssimo.

6 – As pichações “Viva o câncer”: A lenda diz que os inimigos de Evita picharam os muros de Buenos Aires – e da própria residência presidencial – com os dizeres “Viva o câncer” quando ela agonizava com um devastador câncer de útero. No entanto, isso nunca teria passado de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase supracitada. “Só temos o registro da existência de uma. Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época”, explica Vázquez.

 

Eva Perón visita o ditador espanhol Francisco Franco em Madri. O respaldo dado pelo casal Perón ao “generalíssimo” permitiu a sobrevivência de seu regime autoritário. Quando Perón teve que fugir para o exílio, depois de passar pelo Paraguai de Alfredo Stroessner, o Panamá e a Venezuela, foi à Madri, onde ficou até 1973. Um dos braços-direitos de Perón, John  William Cooke, propôs a Perón em 1960 que fosse à Havana, Cuba, onde Fidel Castro havia tomado o poder, derrubando Batista. No entanto, entre Fidel e Franco, Perón optou por Franco, com quem tinha mais afinidade.

POSIÇÕES POLÍTICAS, MEDIDAS, ATITUDES

– Evita sempre detestou a esquerda e o marxismo. Ela perseguiu os militantes do partido Comunista e expulsou os sindicalistas comunistas

– Evita respaldou ativamente o regime do ditador espanhol Francisco Franco. O respaldo foi político e também em alimentos, que permitiram que o generalíssimo conseguisse driblar o bloqueio feito pelos aliados. Assim, sua ditadura que prolongou-se por mais tempo.

– Evita usava vestidos da Casa Dior, que importava – em avião – direto de Paris. Segundo Dior, “a única rainha que vesti em minha vida foi Evita”.

– Evita promoveu o voto feminino

– Evita opunha-se ao divórcio

– Evita dizia que as feministas eram “feias e ressentidas”

– Evita colaborou ativamente com Perón, especialmente em sua viagem à Europa, na entrada de milhares de criminosos de guerra nazistas. Nesta vinda dos nazistas participou o Vaticano, na época comandado pelo papa Pio XII, com quem Evita se reuniu em Roma.

 

El Descamisado: o funéreo e anabolizado mega-mausoléu onde seria colocado o corpo de Evita. O plano de Perón começou a ser executado…mas suas obras foram paralisadas quando ele foi derrubado por um golpe.

CORPO

– Morre, passa por um tratamento de embalsamamento inicial e é levada ao Ministério do Trabalho, atual Assembléia Legislativa de Buenos Aires.

– Depois, é levada o Congresso Nacional, onde é velada por 14 dias. Dois milhões de pessoas dão seu últimos adeus.

– Na seqüência é levada à sede da central sindical CGT, onde continua com o tratamento de embalsamamento realizado pelo doutor Pedro Ara.

– Em 1955 Perón é derrubado. Os militares seqüestram o corpo.

– Até 1957 peregrina por vários lugares do exército e a casa de oficiais.

– Em 1957 é levado pelo governo de Aramburu, em conjunto com o Vaticano para Milão, onde é enterrado no Cemitério Maior com o nome de Maria Maggi de Magistiris.

– Em 1971, depois de um acordo entre o ditador argentino Alejandro Lanusse e Perón, que estava no exílio, o corpo é exumado: dia 1 de setembro. No dia 3 de setembro o caixão vai a Madri. Ali, fica na casa de Perón no bairro de Puerta de Hierro.

– O corpo é levado a Buenos Aires no dia 17 de novembro de 1974. Evita é colocada em uma sala na residência presidencial de Olivos ao lado do corpo de Perón.

– Quando o general Videla derruba Isabelita Perón (a última esposa de Perón, que havia assumido a presidência depois da morte do marido e presidente), os dois corpos são separados. Evita é enviada ao cemitério da Recoleta, onde um cunhado seu, o Major Arrieta, tinha um mausoléu. Nesse lugar estão enterrados Arrieta, a mãe de Evita, a própria Evita, e outros cinco parentes, além de duas urnas com cinzas de duas empregadas da família.

O DESCAMISADO – Quarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de 137 metros de altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.

Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de ser o lugar de descanso do sarcófago de Evita, feito com 400 quilos de prata.

Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.

No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

“Voltarei e serei milhões”. Espártaco, de Howard Fast (e Evita Perón, supostamente). Aqui, Kirk Douglas interpreta o ex-escravo de Roma, na hora em que é crucificado, no fim do filme.

FRASES

“Gracias por existir” (Obrigado por existir): A suposta frase teria sido pronunciada em 1944 durante o encontro de Eva e Perón no Luna Park em um festival para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto de San Juan. Mas, na realidade, foi inventada pelo escritor Tomás Eloy Martinez, que a colocou na boca de Evita no romance “Santa Evita”. A cena: Evita, uma atriz de rádio e cinema, foi apresentada a Perón e disse como forma de impactá-lo a frase “Obrigado por existir”. “Nos últimos três anos, essa frase piegas foi aceita como verdade. Mas Eu a inventei”, me explicou Martinez em 1999. “Mas quando expliquei isso, alguns sindicatos não acreditaram que era falsa. Protestaram, me perguntando como ousava macular a memória de Eva Perón…”, disse rindo.

“Volveré y seré millones” (Voltarei e serei milhões) foi a apócrifa frase de Eva Duarte de Perón – chamada de “Evita” pelo povo – supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte, ocorrida na noite do dia 26 de julho de 1952. A lenda sustenta que Evita, que estava morrendo por um devastador câncer de útero, indicava com essa frase que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder total. Mas, na realidade, é uma frase posteriormente atribuída a ela. A oração é parte de um poema do peronista Castiñeira de Dios e também era uma das frases pronunciadas pelo personagem de Espártaco quando é crucificado. O livro é de Howard Fast, de 1951, um anos antes de Evita morrer. 

Best-seller na primeira metade dos anos 5o, tornou-se leitura obrigatória para estar por dentro das máximas de Eva Perón

LIVROS

“La Razón de mi Vida”: livro que é uma espécie de apologia ao governo de Perón. Publicado postumamente em setembro de 1951. A 1ª tiragem foi de 300 mil exemplares.

“Mi Mensaje”: este livro parecia que era apócrifo. Suas irmãs diziam que era falso. Mas, recentemente – depois de um processo de dez anos – a Justiça considerou que era mesmo de autoria de Evita. É uma segunda parte de “La razón de mi vida”

Um exemplo de ego-cartografia. Neste mapa, de 1953, La Plata aparece como “Eva Perón”. Mas, em 1955 os ‘evaperonenses’ voltaram a ser chamados de ‘platenses’

TOPOGRAFIA

Onde morou:

– Los Toldos, quando era bebê

– Junín, quando era criança e adolescente

-Buenos Aires,fim da adolescência e vida adulta

Onde trabalhou, como primeira-dama (sem posto oficial no governo):

– 1946-48 Palácio de Correios, 4ª andar, e em um escritório no Ministério da Economia

– Em 1948, no prédio da Assembléia Legislativa. Ali ela tinha os escritórios da Fundação Eva Perón

– Mas, o edifício oficial da Fundação, na avenida Paseo Colón, onde atualmente está uma das duas faculdades de engenharia da UBA, ainda não havia sido totalmente concluído quando ela morreu.

Ciudad Evita, na zona oeste da Grande Buenos Aires, ao lado do caminho entre Ezeiza e a capital argentina. O bairro foi construído com o perfil da Mãe dos Pobres. 

A ego-cartografia

Ciudad Evita é um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Vista de cima, a área (criada originalmente como um bairro-modelo operário) é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. “Nos encontramos no nariz?” pode ser uma pergunta ali no bairro. “Não, antes tenho que passar pelo coque para ver minha tia”, poderia ser a resposta.

– Deputados da província de La Pampa, nas últimas semanas de vida de Evita em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”.

– Na época de sua morte, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Ciudad Eva Perón”. A cidade, após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata.

La Pampa, no centro do país, passou a ser Provincia Eva Perón em 1955. Depois, voltou a ter seu nome histórico de La Pampa.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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